03/02/2010

A tolerância na linha do tempo.

O tempo é impiedoso e envelhecer pode ser um devir quase invisível. Talvez, as marcas de nossas primaveras só sejam notadas quando já é tarde. Na verdade, já não sou tão primaveril quanto gostaria de ser, mas estou nesse devir do envelhecimento. Todos estão, queiram ou não.
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Com o passar das estações, fico mais tolerante com algumas coisas e menos com outras. Não devo ser único nesse sentido, pois faz parte da vida um caminho lógico e emocional. Mas aprendi a conviver, com certa maestria, com parentes e amigos inconvenientes. Já não me causam irritação com seus atos imbecis ou egoístas, não desequilibram tanto como um dia foi, lá atrás. Por vezes, provocam um mínimo de incômodo, que logo passa, sem maiores problemas.
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Antigamente, vivia enfurecido no trânsito, quando ainda morava no interior de São Paulo. Estava sempre pronto para enfrentar qualquer um, em qualquer situação. Hoje, ser tolerante nas ruas cariocas, chega a ser uma questão de sobrevivência, por muitos motivos. Todos parecem ter uma pressa apocalíptica para tudo. Chego a sentir saudade do "truculento trânsito" da cidade de Itu, que por sinal, envelheceu ontem, completando 400 anos.
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Como disse, não posso negar, existem coisas para as quais fico menos tolerante. Pedreiros e encanadores, por exemplo, são profissionais (ou não) que já não desfrutam de minha paciência e compreensão. Entendo que meu comportamento pode prejudicar inocentes, eu sei. Mas minhas experiências dizem (ou gritam): não confie, não tire o olho e nem se aproxime demais. Careço de vivências positivas, nesse aspecto, para ser mais tolerante, outra vez.
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A mídia, assim como os pedreiros, ao bater um mesmo discurso, defendendo cegamente a tal "liberdade de expressão", irrita. Proclama-se vítima e usa argumentos que nem um chimpanzé usaria. Não aguento. Veja, não sou intolerante com as diferenças, pois diferenças fazem amadurecer como indivíduo, grupo ou sociedade. Irrita-me é a persuasão retórica de terceiro mundo, com discursos feitos para analfabetos funcionais, que utilizam imagens (discursivas) de impacto por não ter o que falar.
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Unidades de Polícia Pacificadora e semelhantes ações governamentais pelo país também me desagradam. A parte pobre da sociedade, carente de recursos até de expressão, torna-se secundária no processo democrático. Invadem, pilham e derrubam as portas de milhares para prender quatro ou cinco criminosos. Depois colocam uma placa fictícia: "aqui se vive em paz". Fácil assim. Exibem os dramas alheios em telejornais ou fotojornalismo, como se não tivessem direitos de privacidade, de chorar entes perdidos em paz. Numa sociedade de consumo, talvez a paz seja apenas um "produto" consumível.
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Já não tenho paciência com alguns repórteres. Entrevistam pessoas num velório, por exemplo, e perguntam ao entrevistado, próximo ao falecido, coisas como "você está sofrendo"? Que pergunta estúpida. Será que o repórter esperaria ouvir algo como "não, estou ótimo, estava torcendo mesmo para esse desgraçado morrer"? Parece que existe um sabor especial ao exibir dor e sofrimento.
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A questão, na verdade, é simples: a mídia oferece o mesmo discurso ao falar da favela, do subúrbio ou de Ipanema? E nós, em nossos discursos, tratamos todos com respeito? Parece que desconhecer parcialmente sua posição social (pobres) lhes dá o direito de agir (mídia) com "liberdade de expressão" sobre os outros.
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Proponho uma questão: qual é a pior coisa que existe na comunicação? Não é a mentira, que pode ser desmentida, nem a manipulação, que pode vir à tona, mas a omissão. Ao se comunicar, principalmente em jornalismo, penso que a pior atitude que pode haver é a omissão de fatos. A imprensa está se tornando especialista em omitir o que não lhe agrada. Pesquisa eleitoral desfavorece seu candidato? Não publica. Projeto de lei que favorece seu lobby? Publica só quando já for lei. Razões políticas, sociais e ambientais, analisadas e estruturadas, das enchentes em São Paulo? Publica algo fragmentado, incompleto, omite a maioria dos fatos políticos, e assim por diante.
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No devir de meu envelhecimento, vou tolerando mais as pessoas que erram, sem ser conivente  com os erros. O desrespeito, o preconceito, a ignorância e outros, devem ser tolerados sempre que houver disposição para reparação. A contínua repetição dos mesmos erros deve ser encarada como ação de má fé e deve ser combatida, divulgada. Para as pessoas que erram, deve-se oferecer meios para que compreendam a invasão do espaço alheio e, quando isso não for suficiente, impedí-las de continuar fazendo com que outros sofram. Como? Com a mesma definição que Gandhi deu para a verdade, que deve ser dura como um diamante e delicada como uma flor de pessegueiro. A tolerância, oferecemos para as pessoas, e a intolerância, para seus atos violentos, preconceituosos e ignorantes, com a mesma postura que Gandhi tinha sobre a verdade.

Um comentário:

  1. Emerson Sitta03/02/2010 14:18

    Ando assim um pouco também. Cansado de algumas coisas que parecem que não vão mudar. Mas às vezes olho para o céu e vejo a vida que passou. Não consigo responder a todos os meus questionamentos. Sem dúvida, me transformei. Nesse ponto me alegro e depois vem a frustração. Eu podia ter me transformado mais ainda. Deve ser esse o objetivo do jogo da vida: ser hipoteticamente um ser realizado.

    Mas é certo que para algumas verdades não ligamos mais, muito menos para invenções ou possibilidades.

    O meu olhar de Educador não me favorece quando penso em abandonar ou nem ligar para algumas coisas que acontecem na vida. A avaliação deve ser ampla e contextual. É o que dizem. Também é o que tentamos fazer sempre. Mas então voltamos ao ponto de partida: hipoteticamente realizado.

    É isso. Não é isso. Hoje é assim, amanhã não mais. Pode ser que volte, continue, recomece.

    O certo é que um tormento viver.

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