15/03/2010

20 anos do Plano Collor

Por Luciano Martins Costa - O Globo dedicou a manchete do domingo (14/3) a registrar a passagem dos vinte anos do Plano Collor, aquele que ficou na História do Brasil como o maior confisco de patrimônio privado por parte do governo. Sob o título "Uma ferida aberta", a ampla reportagem de oito páginas começa pelo trauma do congelamento dos depósitos bancários, que rendeu 900 mil ações na Justiça, cujo ganho de causa poderia, segundo o jornal, desestabilizar o sistema financeiro nacional.
Relata ainda as reuniões secretas realizadas em Brasília e Roma, quando o então presidente eleito Fernando Collor de Mello consultou economistas e banqueiros, entre eles Daniel Dantas, que duas décadas depois viria a celebrizar-se por sua ficha policial.
A reportagem do Globo traz ainda uma inevitável entrevista do ex-presidente e outra, mais instigante, respondida por email pela ex-ministra da Economia Zélia Cardoso de Mello, que vive em Nova York.
Políticos e tecnocratas Collor, que provocou, além do confisco, um processo atabalhoado de privatizações, causando graves distorções no sistema econômico nacional, hoje defende a maior presença do Estado na economia e se diz arrependido de ter feito o bloqueio das contas bancárias.
Zélia Cardoso de Mello, na época uma economista inexperiente, prefere se queixar de ingratidão e falta de reconhecimento e tenta defender o plano econômico, que na sua opinião foi um ato de ousadia necessário.
O ex-ministro Delfim Netto, também entrevistado pelo Globo, afirma o contrário: foi uma experiência de laboratório e os ratinhos eram os brasileiros, comparou.
No meio da longa cobertura, uma revelação interessante: a inflação de 80% que se debita ao governo de José Sarney, que se encerrava em 1989, foi agravada pelo fato de a equipe econômica que deixava o governo ter aceitado aumentar os preços pouco antes da posse de Collor, para que este pudesse fazer o congelamento planejado.
O último ministro da Economia de Sarney, Maílson da Nóbrega, mesmo sem ter tido nenhuma reunião com a equipe que o sucederia, concordou com o realinhamento de preços e a inflação chegou aos 80% mensais.
A reportagem tenta dar algum caráter positivo às medidas econômicas do governo Collor, como no caso do projeto de privatizações, que quase quebrou a indústria nacional.
Visto de longe, vinte anos depois, o retrato é o de um grupo de políticos e tecnocratas arrogantes que virou o país de pernas para o ar e saqueou as economias de milhões de brasileiros.

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