04/03/2010

Brasil: um estranho país

Ontem, andando pelas ruas cariocas, chamou-me a atenção o destaque de um dos jornais do grupo Millenium, O Globo. Mais tarde, recebo via feed, um post do blog do Nassif com a mesma capa sob o título: "O inacreditável O Globo". A imagem ao lado, ainda que pequena, é suficiente para entender.
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Durante os últimos oito anos, o grupo Millenium chamou o bolsa-família de 'curral eleitoral', de todas as formas possíveis e imagináveis. Mas agora, em março de 2010, o grupo Millenium quer tirar uma lasquinha e o motivo é simples. Sem uma fatia desse 'curral', o candidato do Millenium não serra votos da situação e não ganha as eleições.
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Agora, façamos uma pausa no Millenium para ver isso. Nesse mesmo país chamado Brasil, um artigo do promotor Eduardo Del-Campo defende, com sutileza, que o uso da tortura é justificável em alguns casos. Para quem tiver estômago, o artigo completo foi publicado na Carta Forense. Destaquei uma frase da pseudo-argumentação:

"Não se trata de defender ou buscar uma justificativa para a tortura, mas de reconhecer o limiar de uma realidade nova, inusitada e perigosa, que coloca em risco o próprio conceito de Estado de Direito e que pode reclamar uma revisão de nossos limites éticos."

Durante o artigo, Eduardo Del-Campo diz não defender a tortura, mas revisar nossos limites éticos seria como permití-la em alguns casos. Num mundo de terroristas como o nosso, pode ser útil torturar para defender o Estado de Direito? Sutilmente, depois de citar Gandhi, o articulista prossegue:

"Fica, entretanto, a dúvida sobre se os que torturaram para impedir um ataque terrorista não estariam utilizando estas mesmas máximas, para impedir que prevaleçam os que nenhuma reverência tem pela vida de milhares de inocentes."

Deixemos a tortura argumentativa de lado. No 1º Fórum (privado) Democracia e Liberdade de Expressão organizado pelo grupo Millenium, que tem em sua diretoria personalidades como Pedro Bial e Roberto Civita, a eloquência discursiva se fez presente. No dicionário, o significado da palavra 'fórum' é local destinado à discussão pública. No Millenium, 'fórum' significa local destinado à discussão patronal e ponto final.

"O partido (PT) poderia ter se tornado social-democrata, mas decidiu que seu caminho seria de restauração stalinista" - Demétrio Magnoli, durante o Fórum do Millenium.

Temos o direito de não concordar com a linha política do PT ao governar, sem dúvida, mas compará-lo com uma política stalinista é ridículo, para qualquer um que saiba como foi os anos de Stalin no poder. Mas o debate patronal não aceita contra-argumentação, caso contrário, não teria boicotado e se retirado da CONFECOM.

"Mas o governo não desiste. Tanto que em novembro, o Diretório Nacional do PT aprovou propostas para a Conferência Nacional de Comunicação defendendo mecanismos de controle público e sanções à imprensa" - Carlos Alberto Di Franco, articulista do Estadão e membro da Opus Dei, no Fórum do Millenium.

Qualquer cidadão brasileiro bem informado (ou seja, acima da média), sabe que o controle social das mídias proposto pelo governo, visa apenas cumprir o que está previsto na Constituição de 1988, em seu capítulo 5: proibição de monopólios ou oligopólios (6 famílias controlam 80% da mídia no Brasil), princípios educativos na programação (nada do que se vê), estímulo à produção independente (ah, tá), respeito aos valores éticos e sociais. Vinte e dois anos se passaram e isso continua apenas no papel. Para se manter na contramão da Constituição brasileira, tentam instalar um clima de terror político:

"Mas conheço a cabeça de comunistas, fui do PC, e isso não muda, é feito pedra. O perigo é que a cabeça deste novo patrimonialismo de estado acha que a sociedade não merece confiança. Se sentem realmente superiores a nós, donos de uma linha justa, com direito de dominar e corrigir a sociedade segundo seus direitos ideológicos” - Arnaldo Jabor, comentarista da Globo.

Diante do fraco pulso político de Serra, o candidato do Millenium, atrapalhado e atrapalhador, com sua eterna indecisão de assumir a candidatura, o medo toma conta do grupo patronal. Tentaram, durante os últimos anos, queimar a imagem de Lula. Não conseguiram. Agora, ao menos teoricamente, tentam separar Dilma de Lula, dizendo algo como: Lula, tudo bem, adaptou-se ao mercado, mas Dilma é o perigo radical e comunista para o país.

“Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos das liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão. Mas a perspectiva é que a Dilma vença” - alertou Demétrio Magnoli.

Nesse estranho país, que mais uma vez parece repetir histórias do passado, de diferentes maneiras, pergunto: o que se pode esperar da cobertura jornalística e midiática das eleições de 2010? Arnaldo Jabor responde:

"A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva”. (Grifo meu)

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