A droga da internet

Por Ivan Lessa - Há uns bons 20 anos era mais difícil reconhecê-los. Ou quase impossível. Os mais observadores, entre os quais me incluo, n...

Por Ivan Lessa - Há uns bons 20 anos era mais difícil reconhecê-los. Ou quase impossível. Os mais observadores, entre os quais me incluo, notavam quando no metrô, seus olhos parados brilhando só para dentro de si mesmos como estrelas insólitas. Pelas ruas, não tinham o passo trôpego dos bêbados, mas o cauteloso daqueles que, em algum ponto de suas vidas, perderam o caminho, o destino, tudo.

“Pobres diabos!”, exclamávamos. Não ousávamos, no entanto, chegar perto nem mesmo para oferecer uns trocados para o chá com biscoitos que nunca viriam a se concretizar. Seguíamos em frente algo deprimidos enquanto eles voltavam a trilhar as sendas que só eles sabem trilhar.

Hoje, a sociedade, cada vez mais informada, tem mais dados sobre eles. Não que tenham resolvido o problema humano. Conseguiram, ao menos, diagnosticar melhor, aprender a reconhecer, reunir os dados que, talvez, possam vir a ajudá-los a deixar o vício – em muitos casos os vícios malditos.

Como sempre, são os jovens que se encontram mais em perigo. Os viciados (ou adictos, feito a sociedade prefere batizá-los, como para não se ofender, nem a si própria nem a ninguém), os adictos, então, corrigindo minha empostação politicamente incorreta, estão naquela faixa danada de perigosa dos 24 anos.

Foi o que nos revelou um estudo recentemente divulgado pela publicação especializada Psychopathology (“Psicopatologia”, traduzo com a propriedade de quem tem mais de 24 anos). No artigo, que não são mais que umas 15 páginas, podemos catar as seguintes informações, que, nestes dias multiglobais, podem ser úteis a todos, de Londres a Londrina.

Fato 1: ficar muito tempo online pode deixar as pessoas deprimidas. Com ênfase nos jovens de 24 anos, conforme já se disse.

Fato 2: dos sítios frequentados pelos citados jovens, os vulgarmente chamados de “interação social” são os que mais perigos oferecem. Isto, evidentemente, se passarem a substituir as interações tradicionais, tipo papai-mamãe e semelhantes.

Fato 3: “A internet é como uma droga para muitas pessoas: acalma-as, mantém-nas como que anestesiadas e indiferentes às realidades da vida real”, isso segundo a pesquisadora, senhora doutora Catriona Morrison, da Universidade de Leeds.

Fato 4: Os teleadictos, para assim, ao menos, dar-lhes um nome com uma ponta de dignidade, veem diminuir sua capacidade de executar os mais simples trabalhos, manuais ou mentais.

Fato 5: Frustrados, como em qualquer outra dependência física ou psicológica, voltam-se então as pessoas em questão para o computador. Ligam-se, conforme se dizia em relação a outras “curtições”, na net. Saem da linha entrando online, para recorrer a um jogo de palavras inapropriado mas condizente com quem também conhece, ainda que de passagem a espinhosa questão – pois é hora de se levantar e dar o primeiro nome na reunião dos Adictos Anônimos.

Fato 6: Examinando os hábitos cibernéticos de 1.319 cidadãos na faixa etária entre os 16 e os 51 anos, 1,2% justifica o apodo “adicto” ou até mesmo, no caso dos com mais de 45 anos, “viciado”. Este dado corresponde a precisamente o dobro do número de pessoas adictas, viciadas, ou dependentes dos jogos de azar.

Fato 7: Os adictos (voltando a respeitar suas fraquezas) contam com uma carga de depressão 5 vezes maior daqueles que se livraram do “maldito vício”. Conforme dizem do tabaco as pessoas que pararam de fumar.

Fato final 8: Todos esses dados eu catei jogando minha rede nas águas dantes plácidas (que agora descubro cheias de correntes perigosas) da informática.

(Publicado na BBC Brasil).

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