25/03/2010

Jornalista, assessor de imprensa ou relações-públicas?

Por Claudio Weber Abramo - Gostaria de retomar um assunto que já abordei anteriormente neste Observatório, a saber, o papel de assessorias de imprensa na imprensa propriamente dita (ver "A praga das assessorias" e "Quando a fonte abre o jogo"). Não sou jornalista, mas já fui, nunca tendo realizado nada de notável ou relevante nessa área. Há mais de dez anos sou fonte da imprensa, por força da posição que ocupo. Sou também consumidor de veículos de informação.
Somando umas e outras coisas, fiz algumas observações ao longo da vida, que ofereço ao eventual leitor. Preliminarmente, convém definir os termos.
Jornalista é o sujeito que trabalha na imprensa e cumpre a tarefa de levantar informações para transmissão ao público. Seu compromisso fundamental é com o leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta.
Já assessor de imprensa é o sujeito que trabalha para uma empresa ou pessoa ou órgão público para "plantar" na imprensa noticiário simpático a quem lhe paga os serviços prestados. Seu compromisso é com o cliente. Não há nada de particularmente errado nisso, é claro.
O que importa é que assessores de imprensa não são a mesma coisa que jornalistas. Não é difícil compreender a diferença. Basta perguntar cui bono?, ou seja, "a quem interessa?".
A partir dessa pergunta elementar é fácil ver que assessoria de imprensa nada tem a ver com jornalismo. É mais fácil ainda perceber a diferença quando se designam assessores de imprensa pelo papel real que exercem, a saber, o de relações públicas.
Conheço uma porção de jornalistas, seja por ter sido colega deles em redações, seja por relacionar-me com eles enquanto fonte. Nunca conheci algum jornalista que fingisse ser relações públicas.
Já a recíproca acontece bastante. Há uma porção de relações públicas por aí que finge ser jornalista. São, nisso, estimulados por boa parte das empresas jornalísticas, em particular da imprensa escrita.
Ninguém é responsável Um dos mistérios que envolve o comportamento dos órgãos de imprensa brasileiros é a tolerância em relação a informações provenientes de relações públicas. Vira e mexe, jornais e revistas tascam lá: "Conforme a assessoria de imprensa do órgão tal, etc.".
Ora, os relações públicas não podem ser fonte. Não são responsáveis por coisa nenhuma. Meramente transmitem aquilo que alguém com real responsabilidade lhes passou. Não poderiam jamais ser referidos como fontes de informação.
Na maior parte dos casos, esses assessores não são identificados pelo nome. Os jornais mencionam-nos genericamente, talvez envergonhadamente. Pelo menos isso. Há, contudo, exceções. Vide, por exemplo, o deputado Paulo Maluf. Este nunca diz nada a respeito de contas no exterior, de ter seu nome na lista de procurados da Interpol e assim por diante. Quem diz, e inauditamente é publicado com identificação, é seu assessor de imprensa. Cui bono?
A questão de se atribuir informação a assessorias não é secundária, pois incide sobre a responsabilização atribuída pela imprensa à informação que veicula. Ao aceitarem que informações sejam originadas não de pessoas com responsabilidade real, mas de indivíduos que funcionam como leva-e-traz de empresas, políticos e órgãos públicos, os veículos fornecem pretexto para que essas empresas, políticos e órgãos se desvencilhem de responsabilidades quando isso lhes convém.
Assim, se um jornal publica uma informação proveniente de um relações públicas e que mais tarde se revele errônea ou parcial, de quem é a responsabilidade? Não é da origem efetiva, de alguém que faça alguma coisa na empresa ou repartição, pois essa pessoa, embora tenha de fato originado a informação falsa, permaneceu oculta.
A responsabilidade seria então do relações públicas? Também não, porque esses de fato não pensam nada, não geram nada, só intermedeiam, sendo por isso inimputáveis.
Resultado: na prática, como quem aparece é inimputável e como quem seria imputável não aparece, ninguém é de fato responsável. É isso o que acontece toda vez que aparece no jornal a frase "segundo a assessoria de imprensa de não sei quê, tal coisa".
Os mais deletérios Entre os relações públicas existe uma subcategoria que engloba os indivíduos que fingem não sê-lo. Esses são particularmente deletérios. Esse tipo de sujeito pode estar em redações, recebendo propina de empresas para contrabandear noticiário que lhes seja favorável. O risco de isso acontecer é alto, e qualquer empresa jornalística minimamente organizada vigia os sinais o tempo todo.
Outros montam suas próprias empresas de relações públicas e as disfarçam como órgãos de imprensa. Esses são os piores, não porque a sua venalidade seja maior do que a de outros picaretas, mas porque têm mais recursos para praticar o seu embuste.
Diferentemente dos assessores de imprensa, que exercem a sua atividade honestamente (a maioria, quero crer), esses outros sujeitos trabalham no esgoto. Alguns vivem de achacar políticos e empresários. Aproximam-se do camarada e mordem: "Se não me pagar, publicarei sua foto saindo do motel com a secretária".
Outros existem para fazer o trabalho sujo de seus clientes. Funciona da seguinte maneira: digamos que um ministro, presidente de estatal, governador ou prefeito queira atingir alguém. Fará isso pessoalmente? Jamais. Mobilizará os relações públicas que emprega oficialmente na folha do governo ou da repartição? Também não, pois isso deixaria pegadas inconvenientes.
O que esse pessoal faz é pagar um desses pseudojornalistas desclassificados, via laranjas ou empresas "amigas", para que estes assinem com seus próprios nomes aquilo que o cliente quiser. Assim é que desinformação é veiculada como se fosse informação.
O único contrapeso para os efeitos corrosivos da atividade desses indivíduos é a existência de outros veículos, que cubram os mesmos assuntos com isenção. A comparação dos leitores deveria, ao menos em tese, permitir identificar quem é quem.
O diabo é que isso mal acontece quando se trata de assuntos recônditos; como, por exemplo, a cobertura da Justiça brasileira, ou dos bastidores do mundo financeiro, ou dos subterrâneos das agências reguladoras, ou da criação de peixes da espécie Myxocyprinus asiaticus.

(Publicado no Observatório da Imprensa)

6 comentários:

  1. Então, perdeu-se o verdadeiro papel de jornalistas e relações públicas.
    O bom senso é de quem dá mais.
    E olha, que ainda hoje, criticam as prostitutas por venderem seus corpos.Estas, ao contrário daqueles, são verdadeiros na sua profissão.

    ResponderExcluir
  2. Acho que antes de falar de qualquer assunto precisamos dominá-lo! E me desculpe amigo mas vc nada conhece nem de Assessoria de Imprensa e muito menos de Relações Públicas!! Em primeiro lugar a Assessoria de Imprensa é uma atividade de Relações Públicas, e isto está na Legislação da profissão. Em segundo lugar, vc sabia que o jornalista que migrar para a assessoria de imprensa deve perder, enquanto permanecer nessa função, o registro e o direito de atuar em um órgão de imprensa? Pois é, segundo o Tribunal Superior do Trabalho: "Assessor de imprensa não exerce atividades típicas de jornalistas, pois o desempenho dessa função não compreende a busca de informações para a redação de notícias e artigos, organização, orientação e direção de trabalhos jornalísticos, conforme disciplinado no artigo 302, § 1º, da CLT, Decreto Lei nº 72/69 e Decreto nº 83.284/79. Atua como simples divulgador de notícias e mero repassador de informações aos jornalistas, servindo apenas de intermediário entre o seu empregador e a imprensa".
    Portanto, exercida por este ou aquele profissional, a assessoria de imprensa é parte do composto de Relações Públicas.

    ResponderExcluir
  3. Assessor de imprensa é jornalista? Segundo a lei, não há dúvidas. Assessor de imprensa é jornalista. Pelo menos, se a base legal forem os decretos 972/69 e 83.284/79, que regulamentam a profissão de jornalista. É o que afirma o professor (e mestre em Comunicação) Lucas Tadeu Ferreira, em artigo para o Instituto Gutenberg, explicando que estes decretos equiparam, "para fins de direitos trabalhistas e enquadramento profissional, as assessorias de imprensa às empresas jornalísticas, e conferem, ainda, todas as prerrogativas legais aos jornalistas assessores de imprensa".

    Nesse mesmo artigo, porém, o professor Lucas traz à tona uma decisão do Tribunal Superior do Trabalho, que julgou de forma contrária, quando uma jornalista que trabalhava numa assessoria de imprensa pretendia usufruir da jornada especial de cinco horas diárias, prevista na legislação que regulamenta a profissão. O TST considerou que as tarefas do assessor de imprensa não se enquadram na descrição das atividades do jornalista.

    A ementa do Acórdão do TST, aprovada por unanimidade pela Terceira Turma do Tribunal, é a seguinte, transcrita literalmente:

    "Assessor de imprensa. Enquadramento como jornalista. Assessor de imprensa não exerce atividades típicas de jornalismo, pois o desempenho dessa função não compreende a busca de informações para redação de notícias e artigos, organização, orientação e direção de trabalhos jornalísticos, conforme disciplinado no artigo 302, parágrafo primeiro, da CLT, Decreto-Lei 972/69 e Decreto 83.284/79. Atua como simples divulgador de notícias e mero repassador de informações aos jornalistas, servindo apenas de intermediário entre o seu empregador e a imprensa".

    Em seu livro Você na telinha, o jornalista Heródoto Barbeiro afirma: "Pessoalmente, não considero o assessor de imprensa jornalista. Ele representa sempre os interesses do seu cliente, com ou sem vínculo empregatício". Já os jornalistas Gilberto Lorenzon e Alberto Mawakdiye, em Manual de assessoria de imprensa lembram que "o fato de ter se originado da propaganda e das relações públicas e ter desempenhado um importante (e discutível) papel dentro de órgãos de governo, deu à profissão de assessor uma conotação algo artificiosa e antipática – de ‘plantador’ de notícias ou de censor de entrevistas".

    Afirmação temerária

    O estigma permanece. Ao se falar em assessor de imprensa, a idéia comum é a do profissional que vai "vender" o cliente, somente repassar informações "boas" a seu respeito e, em caso de crise, esconder os erros. Mas, como responder à pergunta inicial? Afinal, o bom assessor de imprensa usa as ferramentas jornalísticas, para apuração, pauta e construção de uma matéria e, finalmente, sua divulgação. Produz jornais, informativos, boletins e pautas. Que o digam as grandes redações, onde o material enviado pelas assessorias de comunicação muitas vezes não precisa nem ser cozinhado, pois já está pronto.

    Nesse ponto, fica uma dúvida. O assessor de imprensa, mesmo trabalhando jornalisticamente, sempre é um jornalista? Claro que ao produzir um house-organ ou trabalhar num jornal interno, essa função se tornará mais evidente. Mas o que dizer quando o assessor passa a ser alimentador de sugestões de pautas, abarrotando as caixas postais das redações, na intenção de que o cliente consiga destaque?

    Afirmar que todo assessor de imprensa é jornalista seria, então, temerário. Um jornalista pode se tornar um assessor de imprensa. E um assessor pode trabalhar jornalisticamente. Mas, a grosso modo, muitos assessores de imprensa – até os que já foram grandes jornalistas – abandonaram sua função social, seu espírito investigativo (e não sua experiência) em troca de um futuro mais seguro, muitas vezes até em decorrência das oscilações de mercado nas redações.

    Por Fábio Davidson

    ResponderExcluir
  4. Assessor de imprensa é jornalista?
    Por Eugênio Bucci em 10/9/2010
    Reproduzido de O Estado de S.Paulo, 9/9/2010; intertítulos do OI
    Quanto a isso persiste uma confusão que compromete todo o resto. Ainda se acredita no Brasil que jornalistas e assessores de imprensa desempenham uma única profissão. Isso não faz sentido algum, nem aqui nem em nenhum outro lugar do mundo. Desconheço países de boa tradição democrática onde jornalistas se vejam como assessores de imprensa ou vice-versa. Ambas as atividades são essenciais e dignas, por certo, mas totalmente distintas uma da outra. No Brasil, no entanto, são vistas por muita gente como se fossem uma coisa só. Por que fomos cair nessa confusão?
    Essa teoria se expressa de modo escancarado no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). Venho sustentando há vários anos – e venho sustentando isso dentro da Fenaj, à qual sou filiado – que o nosso código está assentado sobre um conflito de interesses insolúvel. Dou aqui apenas dois sintomas desse conflito que o código não consegue – por mais que tente – ocultar.
    O artigo 7º, inciso VI, diz que "o jornalista não pode realizar cobertura jornalística para o meio de comunicação em que trabalha sobre organizações públicas, privadas ou não governamentais, da qual seja assessor, empregado, prestador de serviço ou proprietário (...)". Note bem o leitor: o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros proíbe que, como repórter contratado de algum jornal, o jornalista escreva sobre o órgão em que também seja contratado como assessor, mas, e aí está o dado espantoso, o mesmo código admite que o jornalista mantenha duplo emprego, podendo ser repórter num jornal e assessor de imprensa num órgão público, ao mesmo tempo, como se isso fosse normal num regime de imprensa independente.
    O outro sintoma: o artigo 12 afirma que "o jornalista deve, ressalvadas as especificidades da assessoria de imprensa, ouvir sempre, antes da divulgação dos fatos, o maior número de pessoas e instituições envolvidas em uma cobertura jornalística". Nesse artigo o código confessa que a ética jornalística não vale sempre, do mesmo modo, para os assessores: os primeiros têm o dever de ouvir todos os envolvidos numa história; os segundos, não. Mesmo assim, a despeito dessa franca distinção, o código pretende valer para ambos os profissionais.
    Vale repetir: o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros está assentado sobre um conflito de interesses. A Fenaj, a maior defensora da PEC 33/09, chama assessoria de imprensa de jornalismo. Sintomaticamente, outra vez, a Justificação da PEC, assinada pelo senador Antônio Carlos Valadares (PSB-SE), embarca na mesma lógica e corrobora a teoria de que o ofício da imprensa se estende por várias funções, "do pauteiro ao repórter, do editor ao planejador gráfico, do assessor de imprensa ao fotojornalista". Segundo essa lógica, enfim, a assessoria de imprensa, assim como o fotojornalismo ou o planejamento gráfico, é função jornalística.

    ResponderExcluir
  5. Relações-públicas não pensa nada? Muito pelo contrário! Cuidado com as palavras; você é um formador de opinião! Pelo texto, nota-se que você deixou de exercer o jornalismo por ser incompetente, já que você mesmo revela que nada de especial trouxe para a área.

    Realmente, para o jornalismo você não é especial, mas você é um grande representante da falta de respeito. Lamentável seu artigo, assim como sua atitude.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. O artigo, escrito por Claudio Weber Abramo, é lamentável por qual motivo? Não entendi, mas agradeço a visita ao blog, um espaço para reflexão e debate.

      Excluir

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.