Jornalista, assessor de imprensa ou relações-públicas?

Por Claudio Weber Abramo - Gostaria de retomar um assunto que já abordei anteriormente neste Observatório , a saber, o papel de assessorias...

Por Claudio Weber Abramo - Gostaria de retomar um assunto que já abordei anteriormente neste Observatório, a saber, o papel de assessorias de imprensa na imprensa propriamente dita (ver "A praga das assessorias" e "Quando a fonte abre o jogo"). Não sou jornalista, mas já fui, nunca tendo realizado nada de notável ou relevante nessa área. Há mais de dez anos sou fonte da imprensa, por força da posição que ocupo. Sou também consumidor de veículos de informação.
Somando umas e outras coisas, fiz algumas observações ao longo da vida, que ofereço ao eventual leitor. Preliminarmente, convém definir os termos.
Jornalista é o sujeito que trabalha na imprensa e cumpre a tarefa de levantar informações para transmissão ao público. Seu compromisso fundamental é com o leitor, o telespectador, o ouvinte, o internauta.
Já assessor de imprensa é o sujeito que trabalha para uma empresa ou pessoa ou órgão público para "plantar" na imprensa noticiário simpático a quem lhe paga os serviços prestados. Seu compromisso é com o cliente. Não há nada de particularmente errado nisso, é claro.
O que importa é que assessores de imprensa não são a mesma coisa que jornalistas. Não é difícil compreender a diferença. Basta perguntar cui bono?, ou seja, "a quem interessa?".
A partir dessa pergunta elementar é fácil ver que assessoria de imprensa nada tem a ver com jornalismo. É mais fácil ainda perceber a diferença quando se designam assessores de imprensa pelo papel real que exercem, a saber, o de relações públicas.
Conheço uma porção de jornalistas, seja por ter sido colega deles em redações, seja por relacionar-me com eles enquanto fonte. Nunca conheci algum jornalista que fingisse ser relações públicas.
Já a recíproca acontece bastante. Há uma porção de relações públicas por aí que finge ser jornalista. São, nisso, estimulados por boa parte das empresas jornalísticas, em particular da imprensa escrita.
Ninguém é responsável Um dos mistérios que envolve o comportamento dos órgãos de imprensa brasileiros é a tolerância em relação a informações provenientes de relações públicas. Vira e mexe, jornais e revistas tascam lá: "Conforme a assessoria de imprensa do órgão tal, etc.".
Ora, os relações públicas não podem ser fonte. Não são responsáveis por coisa nenhuma. Meramente transmitem aquilo que alguém com real responsabilidade lhes passou. Não poderiam jamais ser referidos como fontes de informação.
Na maior parte dos casos, esses assessores não são identificados pelo nome. Os jornais mencionam-nos genericamente, talvez envergonhadamente. Pelo menos isso. Há, contudo, exceções. Vide, por exemplo, o deputado Paulo Maluf. Este nunca diz nada a respeito de contas no exterior, de ter seu nome na lista de procurados da Interpol e assim por diante. Quem diz, e inauditamente é publicado com identificação, é seu assessor de imprensa. Cui bono?
A questão de se atribuir informação a assessorias não é secundária, pois incide sobre a responsabilização atribuída pela imprensa à informação que veicula. Ao aceitarem que informações sejam originadas não de pessoas com responsabilidade real, mas de indivíduos que funcionam como leva-e-traz de empresas, políticos e órgãos públicos, os veículos fornecem pretexto para que essas empresas, políticos e órgãos se desvencilhem de responsabilidades quando isso lhes convém.
Assim, se um jornal publica uma informação proveniente de um relações públicas e que mais tarde se revele errônea ou parcial, de quem é a responsabilidade? Não é da origem efetiva, de alguém que faça alguma coisa na empresa ou repartição, pois essa pessoa, embora tenha de fato originado a informação falsa, permaneceu oculta.
A responsabilidade seria então do relações públicas? Também não, porque esses de fato não pensam nada, não geram nada, só intermedeiam, sendo por isso inimputáveis.
Resultado: na prática, como quem aparece é inimputável e como quem seria imputável não aparece, ninguém é de fato responsável. É isso o que acontece toda vez que aparece no jornal a frase "segundo a assessoria de imprensa de não sei quê, tal coisa".
Os mais deletérios Entre os relações públicas existe uma subcategoria que engloba os indivíduos que fingem não sê-lo. Esses são particularmente deletérios. Esse tipo de sujeito pode estar em redações, recebendo propina de empresas para contrabandear noticiário que lhes seja favorável. O risco de isso acontecer é alto, e qualquer empresa jornalística minimamente organizada vigia os sinais o tempo todo.
Outros montam suas próprias empresas de relações públicas e as disfarçam como órgãos de imprensa. Esses são os piores, não porque a sua venalidade seja maior do que a de outros picaretas, mas porque têm mais recursos para praticar o seu embuste.
Diferentemente dos assessores de imprensa, que exercem a sua atividade honestamente (a maioria, quero crer), esses outros sujeitos trabalham no esgoto. Alguns vivem de achacar políticos e empresários. Aproximam-se do camarada e mordem: "Se não me pagar, publicarei sua foto saindo do motel com a secretária".
Outros existem para fazer o trabalho sujo de seus clientes. Funciona da seguinte maneira: digamos que um ministro, presidente de estatal, governador ou prefeito queira atingir alguém. Fará isso pessoalmente? Jamais. Mobilizará os relações públicas que emprega oficialmente na folha do governo ou da repartição? Também não, pois isso deixaria pegadas inconvenientes.
O que esse pessoal faz é pagar um desses pseudojornalistas desclassificados, via laranjas ou empresas "amigas", para que estes assinem com seus próprios nomes aquilo que o cliente quiser. Assim é que desinformação é veiculada como se fosse informação.
O único contrapeso para os efeitos corrosivos da atividade desses indivíduos é a existência de outros veículos, que cubram os mesmos assuntos com isenção. A comparação dos leitores deveria, ao menos em tese, permitir identificar quem é quem.
O diabo é que isso mal acontece quando se trata de assuntos recônditos; como, por exemplo, a cobertura da Justiça brasileira, ou dos bastidores do mundo financeiro, ou dos subterrâneos das agências reguladoras, ou da criação de peixes da espécie Myxocyprinus asiaticus.

(Publicado no Observatório da Imprensa)

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