24/03/2010

Menina 25.225 e outros direitos

Por Luciano Martins Costa - Trata-se de uma questão de direitos humanos, mas não do tipo que a imprensa adora noticiar e comentar: uma menina de onze anos é internada no Hospital Psiquiátrico Pinel, em São Paulo, porque não tem com quem ficar. Sua mãe foi presa por roubo e tráfico de drogas, a avó não a quer por perto e, segundo uma avaliação preliminar, ela apresentava "transtorno de conduta". O diagnóstico que justificava sua internação dizia: "Inteligente, agressiva, indisciplinada, fria e calculista". Agora, pense o leitor atento: quem não teria algum transtorno de conduta nessa circunstância?
Pois a menina ficou lá, internada num manicômio, por quatro anos e três meses. E a Folha de S.Paulo acaba de revelar que ela foi estuprada por um segurança da instituição no mês passado.
Durante esse período, a menina foi frequentemente medicada com uma droga usada em pacientes psicóticos, que provoca sonolência, letargia e torpor. Na maior parte do tempo, ela é incapaz de se defender, o que agrava o crime de estupro que sofreu por parte de quem deveria protegê-la.
Os abandonados A prefeitura de São Paulo não conseguiu, nesse tempo todo, encontrar um abrigo de crianças onde hospedá-la, apesar de haver uma decisão judicial determinando que ela não pode continuar no manicômio, porque não é louca. O mal dela, segundo uma médica citada pela Folha no domingo (21/3), é abandono. E, com exceção da Folha de S.Paulo, a imprensa parece não achar muito importante a história dela.
A menina do Pinel não pode ser chamada pelo nome. Para efeitos oficiais, ela é a paciente 25.225, e seu diagnóstico é definido pelo código internacional F19. A nomenclatura fria reflete bem como tratamos aqueles que se encontram no último círculo da periferia social, aqueles que perderam tudo.
Afinal, nossas grandes cidades vivem cheias de deficientes mentais vagando pelas ruas, porque suas famílias não têm condições de lidar com eles, ou já desistiram, e o Estado nunca construiu instituições adequadas para abrigá-los.
Já é hora de a imprensa começar a questionar por que o Brasil abandona seus transtornados mentais.

Um comentário:

  1. Ótimo a divulgação que você fez. Poxa, o mais tem uns problemas graves! Pior do que ler isso é se imaginar numa situação destas...

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