05/03/2010

Sobre dissidentes políticos

Reproduzo abaixo parte do artigo escrito por Fábio de Oliveira Ribeiro, publicado no Observatório da Imprensa com o título original Jornalismo "dissidente":

Semana passada, os telejornalistas da Rede Globo fizeram a cobertura da morte de um dissidente em Cuba (ver aqui). Vários textos sobre o assunto foram divulgados no Portal G1. Alguns visam claramente a embaraçar Lula, que chegou a Cuba no mesmo dia da trágica morte. A cobertura foi laudatória: o dissidente foi retratado como herói, uma vítima do regime autoritário cubano.

Escolhas revelam preferências

No princípio deste ano, a imprensa noticiou a descoberta de uma vala comum na Colômbia. A BBC, que noticiou o fato de maneira sumária, afirmou:

"Acredita-se que os cadáveres encontrados sejam de vítimas de grupos guerrilheiros e paramilitares do país" (ver aqui).

O portal G1 (Rede Globo) reproduziu a notícia da BBC.

Mais detalhista, a Carta Maior reproduziu entrevistas com autoridades que inspecionaram a vala comum:

"A delegação foi composta pelos deputados Jordi Pedret (PSOE), Inês Sabanés (IU), Francesc Canet (ERC), Joan-Josep Nuet (IC-EU), Carles Campuzano (CiU), Mikel Basabe (Aralar) e Marian Suárez (Eivissa pel Canví). `O que vimos foi arrepiante´, declarou Ramírez ao jornal Público. `Uma infinidade de corpos e na superfície centenas de placas de madeira de cor branca com a inscrição NN (sem identificação) e com datas de 2005 até hoje´. E acrescentou: `O comandante do Exército nos disse que eram guerrilheiros mortos em combate, mas o povo da região nos falou de muitos líderes sociais, camponeses e comunitários que desapareceram sem deixar rastro´. O governo anunciou investigações `a partir de março´, depois das eleições legislativas e presidenciais" (ver aqui).

A discrepância entre a cobertura da BBC/G1 e da Carta Maior é evidente. Para os primeiros, "acredita-se" – não se sabe quem acredita, nem quem foi que difundiu esta crença – que os mortos são "guerrilheiros e paramilitares". A revista entrevistou uma autoridade que afirmou que os mortos são "líderes sociais, camponeses e comunitários", ou seja, dissidentes do regime colombiano.

Acompanho, como observador, o telejornalismo global. Não lembro dos pupilos de Ali Kamel terem dado grande importância e atenção à vala comum colombiana. Curiosamente, os mesmos telejornalistas que lamentaram a morte de um dissidente cubano não foram capazes de dar importância aos cadáveres de centenas de colombianos, nem trataram os mesmos como dissidentes. As escolhas sempre revelam preferências. Mas em se tratando de fatos nem tudo pode ser objeto de preferência.

Apenas propaganda política

A distinção entre o caso do cubano e dos colombianos é evidente. O dissidente cubano morreu porque estava em greve de fome. Ele não morreu porque Cuba se recusou a alimentá-lo, mas porque se recusou a comer o alimento que lhe era fornecido pelas autoridades cubanas. Os colombianos, por sua vez, foram executados e enterrados numa vala comum sem identificação. A morte do cubano foi pública e noticiada, a dos colombianos foi secreta e revelada após a descoberta da vala comum. O cubano escolheu não comer e os colombianos não tiveram direito de escolher continuar vivendo – e, se depender da BBC/G1, os colombianos não têm direito nem mesmo de ser tratados como dissidentes.

Em razão da maneira como fez a cobertura dos dois eventos, o G1 escolheu esconder as vergonhas de Alvaro Uribe e mostrar a vergonha de Fidel Castro. Em razão disto, é impossível não questionar os critérios jornalísticos empregados pelos pupilos de Ali Kamel. O que eles consideram mais vergonhoso: executar centenas de pessoas e enterrá-las numa vala comum ou ficar impotente diante da resolução de um prisioneiro que morre porque se recusa a comer?

Felizmente, existe uma multiplicidade de fontes. Nem tudo está perdido. Enquanto o G1 faz apenas propaganda política, outros veículos de comunicação se esforçam para fazer jornalismo.

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