30/04/2010

Quem conta, aumenta um ponto...

Um pé após o outro, movendo-me pela metrópole. Nada especial naquele dia comum. Os barulhos, os cheiros, as visões eram as de sempre. Estava eu a caminhar pacificamente pelas linhas entrelaçadas de minha cidade, com suas cores envelhecidas desejando a modernidade, quando entre os normais e anormais metropolitanos, ouço um velho mendigo a discursar:
- Pedir-lhe para desligar o aparelho televisor para, finalmente, livrar-se da ignorância que assola o mundo, parece-me bobagem. Eu lhes digo que a ignorância não é um ponto, como podes pensar, mas vive dentro de uma linha que liga o discurso pontual da tv ao teu modo de ver, também pontual. Faltam discursos estruturais que contextualizem os elementos minimamente essenciais ao pensamento...
Para ser sincero, não entendi nada, mas isso é muito reticente. Era um velho que, a julgar pela sujeira, a aparência e o discurso enlouquecido, parecia ser um mendigo. Só poderia ser um. Suas estranhas palavras não me atingiram em ponto algum. Entendi apenas que o velhote gritava com o mundo como se o mundo estivesse a lhe ouvir.
O provável morador de rua era moreno e tinha a cara toda pintada por muitos pontinhos, como se fossem sardas. Seus olhos negros, dois grandes pontos no globo ocular, miravam firmemente o horizonte, como quem olha o sol nascer. Sua barba, quase branca, parecia um rabisco denso e mal feito em sua face. Em momento algum pensei em parar minha caminhada. Segui andando, um pé após o outro, porém, mais adiante, uma mulher interrompe meu caminhar:
- Qual o ponto que te perturba? Qual o ponto que te perturba? Qual o ponto que te perturba?
Quase gritei para ela sumir de minha frente. Saia sua gorda louca. Ora bolas, o mundo resolveu ficar circular, repetitivo e louco? Resolveram colocar pingo nos is da insanidade enquanto estou voltando pra casa? Aliás, não colocaram pingo em lugar nenhum, apenas resolveram me perturbar. Pura maluquice de uma sociedade a ponto de ruína.
Apressei meus passos ainda mais. Já estava cansado, com o sol queimando minha cuca por cima. O suor escorria gota após gota e eu só queria estar em minha casa, o meu ponto seguro. Ainda estava longe de minha morada, mas estava me aproximando do ponto de ônibus. Foi então que vi uma jovem belíssima e escultural, gostosa mesmo, com outra mulher nem tanto, apontando o dedo para sua própria cabeça:
- Sinto uma dor imensa aqui, bem nesse ponto!
Pronto. Aquela frase foi como um micro-ponto lisérgico em minha língua e eu alucinei. Comecei a ver tudo como num quadro pontilista. Todos os objetos e pessoas só eram visíveis de longe, como nas telas de pontilismo. Quando se aproximavam de meus olhos, ficavam pontilhados. Ao longe, pareciam reunir-se outra vez. Todo e qualquer elemento tornou-se pontual. Não era possível agarrar uma única estrutura a não ser por pontos.
Tudo só se via completo quando distante. Os atos mais simples da vida, como acender um cigarro, só eram possíveis de olhos fechados, na escuridão, pois a visão estava pontual demais. Digo isso porque tentei fumar. Tentei queimar um bastonete químico uma vez mais, enquanto o mundo se apresentava por minúsculos pontinhos.
Não pude evitar minha loucura e não queria falar nada pra ninguém. Tive vergonha de minha demência pontual, mas cheguei a pensar: será que estão vendo o mundo como eu? Achei difícil, mas não impossível. Claro, podem estar sentindo a mesma vergonha que sinto, o mesmo medo de vexame e por isso andam dissimulados como eu.
Nesse instante, já estava em meu ponto de ônibus, ainda confuso com o mundo pontilista. De certo modo, tudo se movia ponto a ponto. Meus olhos, meio perdidos, moveram-se para uma direção qualquer. Mais uma vez vi o velho mendigo barbudo, agora de modo pontual, porém, em outro ponto da cidade e a dizer:
- Pedir-lhe para desligar o aparelho televisor para, finalmente, livrar-se da ignorância que assola o mundo, parece-me bobagem. Eu lhes digo que a ignorância não é um ponto, como podes pensar, mas vive dentro de uma linha que liga o discurso pontual da tv ao teu modo de ver, também pontual. Faltam discursos estruturais que contextualizem os elementos minimamente essenciais ao pensamento...

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