Retirando os mitos da mídia

Beatriz Kushnir é uma mulher que todo cidadão deve conhecer, obrigatoriamente. Vi seu nome, pela primeira vez, associado ao brilhante livro ...

Beatriz Kushnir é uma mulher que todo cidadão deve conhecer, obrigatoriamente. Vi seu nome, pela primeira vez, associado ao brilhante livro "Cães de guarda", que reconstrói o universo dos censores durante a ditadura militar brasileira. Mais que reconstruir, retira todos os mitos dessa época histórica e mostra uma verdade indigesta: os jornalistas eram os maiores censores daquele período. Publico abaixo uma entrevista que ela concedeu ao Fazendo Media, essencial, como sempre. Depois, recomendo: pesquise sobre os trabalhos de Beatriz Kushnir.

“É muito estranho que numa cidade como o Rio de Janeiro a gente só tenha um jornal”

Beatriz Kushnir é doutora em história social, escreveu o livro  Cães de Guarda, uma obra com vasta pesquisa que é considerada referência sobre um  dos aspectos fundamentais do regime militar no Brasil:  sua relação  com os órgãos de imprensa, da censura à colaboração.
Kushnir conversou com o Fazendo Media após a sua participação no ciclo de debates “A imprensa e o golpe de 64″, na livraria da Travessa, no centro do Rio. Na entrevista ela aponta as dificuldades no acesso aos arquivos do regime militar, a cultura de autocensura da mídia brasileira e apresenta um livro sobre a imprensa brasileira organizado por ela e lançado em setembro de 2009.
Gostaria que você falasse sobre a censura da imprensa na época da ditadura militar no Brasil e da autocensura dos jornalistas a que você se referiu
O que eu acho importante colocar é que sempre se tem uma ideia da censura como se fosse feita por pessoas de baixa qualidade educacional, jocosamente, e tal. Essas pessoas não são extraterrenas, fazem parte da sociedade brasileira, foram colhidos entre nós para trabalhar dentro do aparelho do estado.
Elas recebiam ordens expressas do ministro da justiça, a censura era diretamente ligada à polícia federal e ao ministério da justiça, então elas sabiam exatamente o que eles podiam ou não fazer. Para essa estrutura dar certo, com tão poucos censores no país, a única maneira era você ter um vínculo forte nos meios de comunicação. E grande parte dos meios de comunicação vive de publicidade estatal, então se tendo esse fato ficava muito fácil perceber como circulou essas ideias.
Só a partir dessa ideia de autocensura, que só ficava no jornal quem compactuasse com a autocensura, é que poderia ter dado certo esse sistema todo. Mas isso faz parte do caldo autoritário da sociedade brasileira.
Você acha que essa cultura permanece até hoje na dinâmica da produção da mídia brasileira?
Com certeza, é igualzinha e está cada vez mais.
Dê um exemplo
Quando tem pessoas pensando um pouco diferente, você vai fazer o Brasil de Fato, Caros Amigos, Bravo. É muito estranho que numa cidade como o Rio de Janeiro a gente só tenha um jornal, porque o Jornal do Brasil não conta mais. Eu sou de uma época em que na minha tese de doutorado, por exemplo, em 1996 na Unicamp, se eu não comprasse o Jornal do Brasil a minha cabeça não arrumava.
Você atribui isso à dinâmica de produção ou à própria estrutura empresarial do Rio com seus aspectos econômicos?
Acho que à parte econômica, e também uma apolitização muito grande da sociedade e da universidade brasileira: isso justifica muito.
Você mencionou que o que mais precisa se discutir hoje é a abertura dos arquivos. Por quê?
A historiografia tem mergulhado muito nas pesquisas da história do Brasil do tempo presente, tem uma grande produção na UFF, na Unicamp e URFJ, por exemplo, sobre isso. Mas a gente foi atravessado por uma questão do acesso, que tem sido pouco discutida. Eu mesmo lancei um artigo em 1997 sobre esse tema, e ele já está na quarta revisão porque toda vez que sai um debate novo eu refaço essa discussão e republico. Um pouco para ver como isso vai estar dialogando especificamente com essa seara.
Eu vou dar aula de história e arquivologia para os alunos de graduação exatamente para que eles consigam criticamente entender o que é um arquivo, não é uma coisa monolítica: como aquela documentação toda foi colhida? Porque eles têm que entender isso antes de começar a pedir as pastas.
Você disse que o acesso piorou nos últimos cinco anos, e esse projeto Memórias Reveladas do governo?
A partir da lei 11.111, que prolonga as interdições de acesso, você pode ver muito menos coisa do que você via. Isso tem passado muito ao largo das discussões. O Memórias Reveladas vai digitalizar toda essa documentação, mas se tiver alguma documentação ali que esteja classificada, que só pode ser vista daqui há 60 anos, esse documento não vai ser aberto. Você tem que se dirigir para aonde o documento vai estar, mas aí o documento vai estar classificado como confidencial, que não pode ver por “xis” anos, e então infelizmente você não vai poder ver isso.
E esse livro que você lançou há pouco tempo, o Maços na Gaveta?
É uma coletânea de artigos de professores que trabalham comigo num grupo de trabalho sobre história e comunicação. Quando eu soube do edital da UFF eu fiz uma chamada e nós reunimos 15 trabalhos que abordam exatamente história e comunicação na república brasileira. Ele apresenta vários trabalhos sobre história de comunicação, do Pará até Brasil contemporâneo, gente que trabalha a ditadura, Estado Novo, etc.
São vários trabalhos sobre como é que historiadores podem se aproximar da temática da comunicação, tentando trabalhar a imprensa não como uma fonte mas como um objeto de pesquisa. O mais importante é mudar esse olhar, eu não vou aos arquivos procurar o jornal para que ele sirva de uma fonte para justificar uma determinada temática. A história daquele meio de comunicação, daquele rádio, Tv, imprensa justifica uma própria pesquisa.

(Entrevista publicada originalmente no sítio Fazendo Media)

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