21/04/2010

Uma obra chamada Rio de Janeiro

Moro numa obra de ficção chamada Rio de Janeiro. Escrita por milhões de pessoas, ao mesmo tempo, mas nem todas morando no mesmo espaço, nem todas com semelhante capacidade de compor essa obra coletiva. Essa pequena conclusão aflorou em minha mente depois de ter lido Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez. Entender algo mais sobre a América Latina e o Realismo Mágico propiciou-me essa visão.
Gabriel chegou a dizer, certa vez, que considera a referida obra como um livro de realidades, pois na América Latina tudo é possível. Pois bem, quando li essa declaração, poucos dias atrás, o Rio de Janeiro passava por um momento crítico, inundado e soterrado pelas chuvas de águas naturais e políticas. Infelizmente, pessoas de Niterói chegaram ao clímax do Realismo Mágico, ao serem soterradas por metros e metros de lixo. E não é só: o governador de nosso estado, o Cabral (que ainda não descobriu o Brasil, nem o Rio, nem Niterói), chorou pelos metais do petróleo, mas não derramou uma única lágrima pelos mortos nessa recente tragédia carioca.
Você, caro leitor, no início deste terceiro parágrafo deve estar se perguntando: isso é ficção ou realidade? Mas creia-me, faço a mesma pergunta. Veja bem, o Hospital Salgado Filho, no Méier, faz parte de meu caminho diário. Em algum dia desse mês de abril, voltando da faculdade, vi uma mulher caída, em frente ao hospital, com a cabeça na sargeta e uma pequena quantidade de sangue. Muitos curiosos amontoados ao redor, apenas olhando. E a mulher? Continuou caída, por um bom tempo e pasmem: em frente ao hospital que oferece serviço público de emergência.
Por falar em serviço público, esse mesmo hospital apareceu em noticiários de todo o país. Motivo: denúncia de corrupção, desvio de dinheiro público que deveria ser aplicado no tratamento de pessoas como eu e você. Agora, penso na mulher caída, penso no roubo das verbas e sabe o que concluo? Nada, assim como nada foi feito pelo povo. Aliás, acho que nos dois casos, os populares ficaram apenas amontoados ao redor, olhando e olhando e olhando.
Se Deus é brasileiro e favorece nosso país, só de sacanagem, Ele deve ter tirado de nós toda possibilidade de indignação. Temos amor, preguiça, alegria, tristeza, mas estamos fadados a nunca indignar-se com nada. Cem anos de não-indignação, dedicando nosso tempo para qualquer atividade fútil que nos permita escrever esse realismo mágico, essa obra fantástica e fictícia chamada Rio de Janeiro.

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