24/05/2010

O assombro de Drummond

(Publicado no genial blog Mundo Livro).

Pense lá em um poema de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) , daqueles bem conhecidos ou que todo mundo já ouviu por aí ao menos um verso ou uma estrofe. Pode ser até este aqui mesmo, que representou revolução temática e é controverso para muitos até hoje, pela maneira como transforma em matéria poética uma série de repetições de uma frase aparentemente banal:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Pode tentar lembrar de outro. Quem sabe Quadrilha, também muito popular, já parodiado e relido de ene formas, e do qual o “público em geral” costuma lembrar mais desta parte:

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém
.

Lembrou de outro? Claro, tem também aquele que começa assim:

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

Mais um? Que tal o belo belo Infância, cujos versos finais, bem conhecidos, ensinados no colégio – donde espero que a maioria aí ainda lembre – são:

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

O que esses quatro poemas têm em comum, além do fato óbvio de serem do mesmo autor, é que foram todos publicados no assombroso Alguma Poesia, livro que Drummond publicou em 1930, aos 27 anos – seu primeiro livro, melhor dizendo, uma estreia singular que está completando 80 anos agora. O livro saiu quando Drummond já beirava os trinta, mas os poemas datavam de muito antes, burilados com um perfeccionismo inseguro que o levou muitas vezes a questionar a própria validade da obra. Um daqueles casos raros de autor que já começa elevando o nível e as expectativas do que vem a seguir. Muitos deles ligados ainda à atmosfera do recente Movimento Modernista, os versos de Drummond têm, entretanto, um caminho próprio, que aproveita algumas das principais bandeiras do grupo, como a busca da poesia em situações aparentemente sem transcendência, um certo humor, o verso livre. Mas torna suas tais características, aliadas a um olhar evocativo, lírico, no qual aflora, também, raiva e amargura. Uma poesia de vigor e força que ganhou lugar no cânone da literatura nacional e ao mesmo tempo na memória popular – o que num país de educação precária como o Brasil é sempre um elogio a ser feito.

Justamente para marcar os 80 anos dessa estreia de fôlego invulgar, Alguma Poesia está ganhando nova edição no fim deste mês, organizada pelo poeta Eucanaã Ferraz, com patrocínio do Instituto Moreira Salles. A nova edição (Instituto Moreira Salles, 392 páginas, R$ 50), traz o fac-símile do exemplar da tiragem de 1930 que pertenceu ao próprio Drummond, e que, portanto, traz suas anotações de próprio punho, rasuras e emendas. O livro terá também uma apresentação crítica de Eucanaã Ferraz – autor de Desassombro e Cinemateca. E ele recupera justamente o fio que une Drummond aos modernistas de 22, em especial Mario de Andrade, mestre com quem o poeta de Itabira muito se correspondia e a quem dedicou o livro – pago do próprio bolso, a prestações.

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