03/05/2010

Viva a quebra do sigilo

A situação do jornalismo brasileiro é tão irreal, fantasiosa, que está permitindo novas manifestações. Uma delas é comemorar uma notícia publicada ou veiculada, que seja real, e sem manipulações. Essa deveria ser a prática de todo o nosso jornalismo, mas não é. Sendo assim, vivemos sedentos pela ética e esperando por algo que deveria ser corriqueiro, comum e cotidiano.
O jornalista Alberto Dines demonstra certo espanto pela nota do Jornal Nacional e a matéria publicada no dia seguinte em O Globo. A prática do silêncio adotada pela imprensa nacional fica patente no título: O sigilo que se esvai. Infelizmente, como tem acontecido, o importante fato foi ignorado por outros jornais de nosso país.
Cidadãos brasileiros parecem viver sob essa tal "liberdade de expressão" da mídia brasileira, tenha ela o significado que tiver. Quando a "liberdade de expressão" permite que uma notícia seja veiculada pelas empresas do jornalismo tupiniquim, surgem comentários, pois vivemos acostumados ao silêncio, à notícia fragmentada e sem contexto, à análise pontual e nada estrutural dos acontecimentos.

Sábado à noite, feriado nacional (1/5), descontração, nenhuma tragédia à vista – a não ser a tragédia grega – e eis que o Jornal Nacional solta uma bomba: o Vaticano assumiu o controle da Legião de Cristo, condenou o seu fundador, o sacerdote mexicano Marcial Maciel, por abusos sexuais e o classifica como "homem sem escrúpulos".
Um mês antes, os interventores da Santa Sé na Legião de Cristo anunciaram os resultados de uma longa investigação e, embora a mídia internacional acompanhasse o caso de perto, no Brasil ficou sob embargo, sobretudo porque a condenação de Maciel atinge diretamente o papa João Paulo II, seu protetor, verdadeiro padrinho.
O que levou os editores do Jornal Nacional a liberar a notícia? Desatenção? Impensável. Tudo indica que acabou a política do sigilo e a prova foi dada no domingo (2/5), pelo Globo: apenas o jornalão carioca noticiou o desmonte da ordem.
Na surdina Como nada acontece por acaso, nem isoladamente, os novos ventos logo soprarão nas demais redações. Para os privilegiados leitores do site do Observatório da Imprensa, o padre Maciel é figura manjada, mas convém lembrar aos demais leitores e ouvintes que o mexicano não foi apenas um pecador, delinqüente e tarado, era também um militante político de extrema importância.
Os Legionários de Cristo eram o braço armado da ultra-direita católica. A Legião prosperou durante a longa ditadura franquista na Espanha, expandiu-se no Novo Mundo e em parte dos Estados Unidos. Apesar dos votos de celibato e castidade, Maciel amasiou-se com pelo menos duas mulheres, teve três filhos e abusou sexualmente deles.
Grandes mudanças muitas vezes são noticiadas em surdina, sem estardalhaço. O tranqüilo noticiário sobre a ruína da Legião de Cristo pode significar profundas modificações na imprensa brasileira.

Um comentário:

  1. Nossa que confusão! Depois voc~e me explica mais porque eu fiquei interessada! Boa notícia, querido! Parabéns!

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