26/06/2010

Novas plataformas de comunicação: um novo Renascimento

A descontinuidade, aleatoriedade, autosemelhança e o caos são alguns dos conceitos invocados por Douglas Rushkoff para explicar a realidade pós-moderna. O velho modo de pensar linearmente já não é suficiente para a compreensão de nosso tempo, assim como os sistemas contínuos e regulares não conseguem explicar uma realidade caótica. Vivemos um novo tempo que exige de nós uma nova postura diante do mundo.

“Encarar o caos pode não ser simples, pois exige uma alteração no comportamento, um desapego da dualidade reducionista, do pensamento linear e também das hierarquias, visto que o novo mundo também carece delas. Colocam-se, dessa maneira, requisitos que permitirão aos seres humanos passar a um próximo estágio de desenvolvimento em direção a uma evolução cada vez mais iminente.” – escrito por Murilo Machado, em Douglas Rushkoff: nos meandors do caos.

Diferentemente dos teóricos apocalípticos, Douglas não anuncia um “fim dos tempos” causado pelas novas tecnologias, mas um novo Renascimento, que readapta velhas idéias ao ambiente caótico. É possível até estabelecer paralelos entre o novo Renascimento e o dos séculos XV e XVI, no qual a navegação marítima provocou novos modos de entendimento do tempo e espaço, modificando as artes, a literatura e o comércio.

O Renascimento pós-moderno teria surgido com a ida do homem ao espaço, os hologramas, os computadores e até mesmo o LSD, ao confundir perspectivas individuais, revelando certa arbitrariedade dependente de experiências passadas e dos interesses do observador. Assim, o homem pós-moderno pôde inferir a existência de um universo multidimensional, além de valorizar pontos de vista individuais ao se defrontar com o caos. Murilo Machado diz que “não é à toa que as equações não-lineares e os fractais são usados hoje para ajudar a mensurar e a avaliar questões que antes não aparentavam ter a menor lógica, como os índices de trânsito, as quedas e os levantes das cotações em uma bolsa de valores e os níveis de violência e passividade de uma população.”

Os teóricos apocalípticos insistem em utilizar lógicas lineares para explicar esse novo cenário mundial, reduzindo a complexidade e a multiplicidade em uma dialética do bem e o mal, do certo e o errado, uniformizando experiências humanas. A mera possibilidade de fazer escolhas individuais não parece ser valorizada pelos velhos sistemas lineares e monológicos da mídia.

O fato é que vivemos em um período no qual as novas tecnologias permitem escolhas múltiplas e individuais a um só tempo, expressando visões subjetivas simultaneamente. Isso, por si só, depõe contra os velhos sistemas monológicos de mídia. Dialogar com o público geral é algo novo e a mídia e muitas empresas não estavam acostumadas a essa postura. Hoje têm a necessidade de adaptação ao dialogismo, à descontinuidade e aos ambientes caóticos.

É possível que o primeiro impacto na linearidade midiática tenha sido o advento do controle remoto, permitindo ao telespectador assistir o televisor de modo descontinuo, alternando entre dois ou mais programas ao mesmo tempo. Esse novo relacionamento com as telas se intensificou com a chegada dos computados domésticos e a rede de internet. Rushkoff denominou de screenagers essas novas gerações, formadas por pessoas que são os sujeitos de suas relações descontinuas com os meios de comunicação e percebem o caos como um habitat natural.

A dificuldade de focar atenção em uma única tarefa é mal vista por muitas pessoas, mas para Douglas isso é positivo, pois permite que os indivíduos sejam multitarefas e possam dar conta desse ambiente caótico. São essas pessoas, screenagers, que provocam pequenas ou grandes revoluções na mídia e nas empresas, principalmente através da rede mundial de computadores.

A internet traz um cenário de alta participação e colaboração, mas também de baixa organização, descontinuidade e caos. Foi essa rede que McLuhan previu décadas atrás, cunhando o termo “aldeia global”.

Os conceitos invocados por Rushkoff estão presentes na internet: descontinuidade, aleatoriedade, autosemelhança e caos. Agir e reagir em uma rede mundial com essas características não é tarefa simples. McLuhan já havia revelado que as forças dominantes desenvolveriam (ou tentariam desenvolver) grandes redes de comunicação, incorporando as novas tecnologias com intenção de cooptar o público em suas tradicionais ações monológicas e lineares. Mas essas atitudes acabam revelando pouca eficiência. “Um modem, um PC, e a intenção de desestabilizar poderiam provocar uma ameaça mais séria à ordem estabelecida do que qualquer invasão militar”, escreveu Rushkoff sobre o mundo dialógico no qual vivemos.

Blogs, Twitter, Youtube e tantas outras ferramentas, obrigam mídia e empresas a repensarem sua posição no mundo. As manipulações das grandes empresas de comunicação são desmontadas quase ao mesmo tempo em que são publicadas, graças a uma rede colaborativa, livre e dialógica. O mesmo acontece com as empresas que vendem produtos ou serviços. O consumidor já é chamado hoje de prosumer, uma palavra criada em inglês para definir uma mistura de produtor e consumidor.

A mídia e as empresas de produtos e serviços têm de lidar com indivíduos que são produtores e consumidores ao mesmo tempo, que consomem e geram informação na rede mundial de computadores. Com o passar do tempo, mais e mais pessoas devem acessar a internet, aumentando o contingente de prosumers e obrigando o abandono definitivo de velhas posturas.

É provável que nem todo mundo tenha se dado conta do quanto a vida online afeta direta e indiretamente até mesmo a vida de quem está offline. Um pequeno exemplo atual é o projeto de lei Ficha Limpa, como ficou popularmente conhecido, que teve grande movimentação popular na internet. O fato é que esse projeto chegou ao Congresso Nacional e foi aprovado, ainda que com algumas alterações. Em muitos blogs ainda se pode ver debates a respeito desse e de outros temas.

O Twitter já deu furos de notícias quando nenhum jornal ou agência sequer conhecia o fato ocorrido. O próprio Youtube foi incorporado pelas emissoras de televisão aberta, como fonte de notícias ou entretenimento. A livre circulação de músicas, livros, softwares e tantos outros produtos digitais, reacende o debate sobre diretos autorais e propriedade intelectual, conceitos que surgiram num mesmo período em que o capitalismo começava a se consolidar.

Empresas que possuem idéias retrógradas e monológicas podem se negar a dialogar com clientes e usuários de internet, mas nem por isso deixam de estarem presentes na rede mundial de computadores. Informações, opiniões e idéias sobre suas posturas não deixam de circular. A questão é: você pode interagir e minimizar ou anular os efeitos negativos e errôneos dessas comunicações ou simplesmente sofrer as consequências e reagir quando for tarde demais.

O que não se pode negar é que consumidores e prosumers possuem opiniões, idéias e pensamentos, e se comunicam ativamente em redes. A internet não é um ambiente facilmente palpável e controlável. Ao contrário, é um ambiente virtual caótico, não linear e dialógico, que influencia ativamente em nossas vidas. Se já estamos conectados em rede, resta-nos decidir se navegaremos dialogicamente ou se deixaremos o mundo digital nos afogar.

FONTES

Machado, Murilo. Douglas Rushkoff: nos meandors do caos. http://www.culturaderede.com.br/olharesdarede.pdf

RUSHKOFF, Douglas. Cyberia: Life in the Trenches of Hyperspace. Disponível em: http://www.rushkoff.com/downloadables/cyberiabook/

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