21/07/2010

As várias Repúblicas de um mesmo Brasil

Estudar comunicação, filosofia e linguística mudou minha visão de mundo, definitivamente. Observo os fatos, as notícias, os discursos e transformo tudo em narrativas dentro de minha cabeça. Então, começo a analisar o que se passa. Pouco importa o nome dos personagens ou suas características específicas: a análise deve se centrar na linha narrativa. Tanto faz se a narração é ficcional ou realística, pois hoje entendo que a ficção fala mais verdades que a própria realidade, visto que comunicar é simbolizar, mas isso é assunto para um outro texto.

Agora imagine todas as pessoas que formam a nação brasileira, quase 200 milhões de habitantes. É de se pensar que todos vivam na República Federativa do Brasil, certo? Mas o fato é que existem várias Repúblicas em um mesmo Brasil, e é provável que existam milhares delas em nosso país. Cada uma representa uma descoberta.

A mais recente que descobri é a República de Cocanha, da qual poucos brasileiros podem desfrutar. Não sabe o que é Cocanha?

"A cocanha era um país imaginário localizado em algum lugar da Europa Medieval. Lá o seu povo vivia feliz e cheio de amor, não faltava emprego para ninguém, até por que não era necessário trabalhar, tudo era fácil e de graça. Nos rios corria vinho tinto da melhor qualidade, dinheiro dava em árvore e não tinha valor, não havia doença nem fome e tinha uma fonte de água que rejuvenescia as pessoas, ou seja, não havia idosos, ouro virava tijolo para as construções das casas, de dia e de noite tudo era festa com muita bebida e comida." - publicado por Osvaldo Meira Trigueiro, Doutor em Comunicação. Link AQUI.

Essa descrição de Cocanha cabe exatamente em uma parte do Brasil para a qual não falta emprego, dinheiro, todos são lindos e bem educados, tudo é alegria e sorrisos. Mesmo quando uma denúncia de crime ou algo desagradável chega até a mídia, Cocanha mexe seus pauzinhos e logo tudo fica bem.

Vejamos a mais recente narrativa envolvendo o goleiro Bruno do Flamengo. Você deve se perguntar: Bruno faz parte de Cocanha? Eu digo não, claro que não. Bruno não tem o sangue da linhagem azul para ser protegido por essa República. Já o Flamengo sim, é um dos times que faz parte de Cocanha. Por isso o goleiro foi preso por um homicídio sem corpo e, provavelmente, será condenado. Na época de Getúlio Vargas, também tivemos presos por homicídio sem corpo: o caso dos irmãos Naves. O fato é que o morto não estava morto e reapareceu mais de dez anos depois.

E o banqueiro Daniel Dantas? Esse sim, faz parte da República de Cocanha, assim como ministros do Supremo, empresas de comunicação e políticos, muitos políticos. Já pensou se Dantas fosse realmente preso e a polícia realmente investigasse e realmente punisse os envolvidos? Mais da metade da República de Cocanha iria cair no xilindró, mas isso nunca vai acontecer. 

Eleições 2010. Vejamos: a grande maioria dos candidatos, se analisados profundamente, não tem competência para ser síndico de um condomínio, quem dirá presidente, governador ou senador. Como fazem campanha? Levantando factóides e acusações bobas, que de real só possuem uma coisa: começam em nada e sempre terminam em porra nenhuma. Assim se faz política de dentro da República de Cocanha.

Bem, enquanto a campanha política segue, contratos bilionários são assinados nesse país, e a maioria deles nem ficam escondidos, pois são minimamente noticiados em jornais. Mas quem sabe dos fatos? Poucos brasileiros, pois a maioria do povo, ou exatos 75%, é analfabeta funcional, não lê jornais e quando lê, não passa da manchete e do primeiro parágrafo. Só quando a "desgraça" é irreversível é que chega no Jornal Nacional. A população sente-se enganada, de mãos atadas, mas encerra o assunto dizendo "fazer o quê".

Mas é de se entender, um povo tão sofrido como o nosso, pobrinho, sem infra-estrutura básica, sem transporte digno, sem hospitais que mereçam os impostos que pagamos, trabalhador, quando chega em casa, quer mesmo é assistir novela. Quem sabe um Jornal Nacional, o junk-food das notícias, do pensamento político e da cultura brasileira.

Sem mais delongas, pergunto: essas narrativas são novas? Não, claro que não. Tudo tão velho quanto esse país. E a República de Cocanha? Vai bem, muito bem. Aliás, veja bem: a mídia impressa tupiniquim não tem como público-alvo eu e você, consumidores, mas sim os integrantes da República de Cocanha. Na rebarba sim, entram eu e você. O motivo é simples: os cocanhenses (se é que existe essa palavra), são os que decidem nosso futuro, porque o próprio povo não toma conta de sua história, de seu destino. O "terrorismo informativo" é direcionado para essa gente, como aconteceu com Dunga no comando da seleção. O recado global foi direto: se o próximo técnico não permitir exclusivas entrevistas para a Fátima Bernardes, será surrado por nossas empresas de comunicação.

A República de Cocanha entendeu o recado e renovou a manutenção de seu poder. O povo brasileiro, aquele que fica na rebarba, acreditou que tudo foi por causa do mau humor do técnino e da briga com o jornalista global.

No Brasil, o Congresso Nacional e, raramente, a iniciativa popular, criam leis. A República de Cocanha, além de não respeitar e não ser punida, ainda as derruba. Tramita no Congresso a volta do diploma jornalístico, mas Cocanha já deu seu recado: se entrar em vigor, a gente derruba. Se não derrubar, a gente ganha liminar na justiça. Nos últimos anos antes da queda do diploma, Cocanha conquistou mais de 14 mil liminares.

Recentemente, com o Ficha Limpa, pode se ver a mesma narrativa. A iniciativa popular fez todo um movimento para aprovar a lei. Colheu assinaturas e ganhou. Mas na República de Cocanha muitos ganharam liminares na justiça e continuam sujos. Provavelmente, serão reeleitos. A mídia do Millenium e alguns políticos repetem um dito nada popular: mais vale um Supremo na mão que dois Congressos voando.

Você percebe, essas narrativas não são novas. A República de Cocanha é apenas uma, das tantas que se fartam em solo tupiniquim. Enquanto isso, eu sigo lutando e acreditando que o Brasil pode ter novas narrativas, mais criativas, melhores e reais.

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