19/07/2010

Na República de Cocanha tudo vai bem

Eu, por inúmeros motivos, gostaria de ter nascido na década de 60, nos anos de efervescência cultural e política. Comprar um LP inédito dos Beatles ou participar dos movimentos que ocorriam na época seria interessante, para dizer o mínimo. Mas nasci em meados da década de 70 e já estou no século XXI.

Ainda assim, distante dos anos 60, acabo por sentir a história se repetindo. Quer dizer, uma parte da história desse país que insiste em não passar. Refiro-me aos jornais impressos (a chamada grande imprensa), os jornais televisivos e os periódicos tupiniquins. O que se repete? Os ataques ensandecidos e direcionados a uma política de desenvolvimento.

Com certas diferenças, o Brasil já viu esta peça de mau gosto na época de Getúlio Vargas, de Jango, na década de 80, de 90 e agora em pleno século XXI. Os artifícios são os mesmos: dossiês inventados, denúncias vazias, jornalistas comprados e assim por diante. E as empresas de comunicação? Pasmem: também são as mesmas. Tudo tão repetitivo e tão chato num país de analfabetos funcionais.

As mesmas sandices e acusações tornam-se o modo de se fazer política nesse país. Programa de governo? Apenas se dá uma pincelada entre uma acusação e outra. Quem perde? Eu e você, cidadãos brasileiros.

Coloco para mim a posição de pensador, analista e crítico e, como dizia meu amigo Emerson Sitta, "não carrego bandeiras", sejam vermelhas, azuis ou verdes. Tão somente por isso, permito-me repetir: banqueiros, industriais, investidores e empresários continuarão a lucrar rios de dinheiro, seja com Dilma, seja com Serra ou Marina. Então, o que tanto eles temem? 

Perder as regalias ilegais que possuem enquanto concessões de telecomunicação. Ter de produzir material jornalístico para um povo educado, que por sua vez significa contratar profissionais que saibam escrever e não apenas reproduzir textos de assessoria de imprensa ou escrever notas informativas. Sair dos moldes infantilizantes das novelas brasileiras e ter de produzir material mais requintado para a televisão, como em outras partes do mundo. Fazer uma cobertura esportiva digna dos atletas e dos espectadores, ao contrário desse monólogo futebolístico infantil (as gostosas de antes estão perdendo espaço para os engraçadinhos). Ter de criar programas com debates e análises contextualizadas, ao contrário das crônicas débeis de um Jabor ou um Mainardi ou Azevedo. Enfim, comportar-se como uma empresa de comunicação adulta.

Nada disso será feito enquanto não se investir em educação. A revolução será poética, pois só a poesia traz consigo o símbolo dessa revolução: a língua, a linguagem elaborada, estruturada, expressiva e compreendida. Diferente desses discursos infantis produzidos por adultos formados que se proclamam profissionais e ganham montanhas de dinheiro para comunicar besteira.

Como levar minimamente a sério um candidato a presidente de um país com a importância do Brasil, que insiste em maldizer o partido de sua oposição, sem apresentar um plano sólido para a educação caótica que temos? Cidadãos brasileiros, pagadores de impostos, ainda morrem nos corredores dos hospitais públicos e candidatos ficam se atacando?

Nos últimos anos, o simples fato de ter existido uma CONFECOM, o PNDH 3 e outros debates nacionais, coloca toda essa gente em estado de alerta, ou melhor, de ataque. Não querem perder a República de Cocanha na qual vivem extasiados. Claro, em nenhum país do mundo, talvez, seja tão fácil ganhar dinheiro como aqui. As mais altas taxas de juros, as mais altas taxas de telefonia fixa e móvel, os mais altos impostos num país miserável. Só na paradisíaca Rio de Janeiro, 23% da população vive em condições miseráveis.

Como podemos nós, brasileiros, viver sem nenhuma indignação, com tanto conformismo, futebol, novela e carnaval? Temos que exigir desses pseudo-candidatos que exponham seus programas para educação, saúde, para uma reforma tributária e política. O país do futuro se contrói agora e eu estou cansado de ver se repetir a história. Já não quero mais viver na década de 60, já tenho a discografia dos Beatles e quero o fim dessa República de Cocanha, em eterno carnaval diante da falta de indignação de todo um povo.

2 comentários:

  1. Emerson Sitta20/07/2010 10:18

    Comprar um LP inédito dos Beatles seria espetacular.

    Quanto a Educação, não há ainda em prática um projeto que priorize a pesquisa e o desenvolvimento tanto social, econômico, tecnológico etc.

    Nosso papel ainda é de formar mão de obra. Hoje, uma mão de obra mais especializada é verdade. Mas insuficiente para alavancar nossa independência intelectual.

    Um exemplo. Depois que meu filho mudou minha vida, tenho a necessidade de comprar uma infinidade de produtos para seu conforto e segurança. Um de desses produtos é a cadeirinha, aquela para colocar no carro.
    Com a urgência, por causa de uma lei que entraria em vigor logo, mas depois foi adiada, corremos para Campinas para comprar uma cadeirinha melhor e mais segura do que já tínhamos.
    A questão foi a mesma com a maioria dos brinquedos que ele tem. A maioria das cadeirinhas eram importadas. E claro, eram as melhores. Elas cumpriam todas as fases da criança, de 0 a 7 anos. Enquanto que as poucas e miúdas nacionais cumpriam separadamente e insuficientemente as necessidades da criança.
    Fiquei pensando: Como aprovam uma lei, importante é claro, mas sem verificar ou investir na indústria nacional? Aprovaram a lei para beneficiar o mercado internacional. A indústria brasileira não tem condições de arcar com essa demanda.

    Aí está a Educação ou a falta dela. Sem crítica, aceitamos e entregamos tudo na mão de políticos, atravessadores e para o mercado internacional.

    E ainda temos que ouvir a propaganda da Hiundai (?) que o Tucson é brasileiro.

    Parace maravilhoso, mas é ridículo. Maravilhoso seria produzirmos nosso próprio carro.

    ResponderExcluir
  2. você colocou uma questão muito importante. vou abordar isso em outro texto.

    ResponderExcluir

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.