19/07/2010

Reportagem do Estadão mostra que o crime compensa

 Em qualquer país do mundo, essa reportagem seria um escândalo e renderia muitos debates. No Brasil, a ótima reportagem do Estadão parece não ter ganhado o merecido espaço na mídia. Na República de Cocanha, só se deve atacar a CONFECOM, o PNDH 3 e outras coisas mais.
O jornal O Estado de S. Paulo publica nesta sexta-feira [16/7] uma reportagem estarrecedora sobre a impunidade na capital paulista. Cruzando dados da produção do Ministério Público Estadual entre 2002 e 2009 com os registros de crimes na Secretaria de Segurança Pública no mesmo período, os repórteres constataram que uma pessoa que cometa um crime na maior cidade do país tem apenas uma possibilidade em vinte, ou 5,2% de risco, de vir a responder por esse crime na Justiça.Se não for apanhado em flagrante, a possibilidade de ser descoberto em uma investigação criminal é de apenas 2,5%. Ou seja, em apenas um em cada quarenta crimes – entre os que chegam a ser investigados – a polícia identifica o autor. Somada à conhecida ineficiência e lentidão do Judiciário, manietado pelo excesso de trabalho e pela imensa seqüência de recursos à disposição dos réus, completa-se o mapa da impunidade.
De certa forma, isso também explica o grande número de assassinatos em roubos de menor expressão: o ladrão sabe que, matando a vítima, corre menos risco de ser identificado. Essa é a origem das notícias que assombram a população, quando alguém é morto por causa de um telefone celular ou um relógio.
Praticamente não há solução para crime de furto, que na maioria dos casos nem chega a ser notificado. Dos furtos que são informados à polícia, apenas 3,1% chegam ao Judiciário, enquanto apenas 4,8% dos roubos evoluem até a fase de julgamento.
Problema ainda maior Segundo a reportagem do Estadão, a ineficiência da polícia paulista na resolução dos crimes pode ser ainda maior, uma vez que o levantamento considerou apenas os casos registrados nas delegacias. Outros estudos citados pelo jornal indicam que 70% dos crimes não são comunicados às autoridades.
A prioridade dos policiais é o flagrante contra delinquentes de menor importância que atuam nas ruas, enquanto as estruturas criminais mais complexas, que envolvem encomenda e receptação e caracterizam o crime organizado, permanecem intactas. Em alguns casos, como ficou demonstrado em reportagens anteriores, essas organizações que atuam em rede contam com a participação de policiais.
Recentemente, caíram um secretário de Segurança e seu adjunto, e muitos delegados estão sob acusação de irregularidades, mas esse é outro lado da questão que não tem saído nos jornais.
O fato de 95% dos crimes ficarem impunes e o pleno conhecimento de que a polícia paulista não costuma sequer abrir uma investigação quando não há prisão em flagrante deveriam estar provocando um escândalo de proporções nacionais e motivando outros jornais a fazer trabalhos semelhantes em seus Estados.
Vamos ver como essa reportagem repercute na mídia em geral.

(Por Luciano Martins Costa )

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