13/08/2010

Vida a crédito - Zygmunt Bauman

“O capitalismo, exatamente como os sistemas de números naturais do famoso teorema de Kurt Gödel (embora por razões diversas) não pode ser simultaneamente coerente e completo. Se é coerente com seus princípios, surgem problemas, não pode fazê-lo sem cair na incoerência em relação a seus próprios pressupostos fundamentais.

Muito antes que Gödel redigisse seu teorema, Rosa Luxemburgo já havia escrito seu estudo sobre a ‘acumulação capitalista’, no qual sustentava que esse sistema não pode sobreviver sem as economias ‘não capitalistas’: ele só é capaz de avançar seguindo os próprios princípios se existirem ‘terras virgens’ abertas à expansão e à exploração — embora, ao conquistá-las e explorá-las, ele as prive de sua virgindade pré-capitalista, exaurindo assim as fontes de sua própria alimentação.

 
Sem meias palavras, o capitalismo é um sistema parasitário. Como todos os parasitas, pode prosperar durante certo período, desde que encontre um organismo ainda não explorado que lhe forneça alimento. Mas não pode fazer isso sem prejudicar o hospedeiro, destruindo assim, cedo ou tarde, as condições de sua prosperidade ou mesmo de sua sobrevivência.
 
Escrevendo na época do capitalismo ascendente e da conquista territorial, Rosa Luxemburgo não previa nem podia prever que os territórios pré-modernos de continentes exóticos não eram os únicos “hospedeiros” potenciais, dos quais o capitalismo poderia se nutrir para prolongar a própria existência e gerar uma série de períodos de prosperidade.

Hoje, quase um século depois de Rosa Luxemburgo ter divulgado sua intuição, sabemos que a força do capitalismo está na extraordinária engenhosidade com que as espécies anteriormente exploradas se tornam escassas ou se extinguem. E também no oportunismo e na rapidez, dignos de um vírus, com que se adapta a idiossincrassias de seus novos pastos.”

De Vida a Crédito, mais recente obra de Zygmunt Bauman a aportar nas livrarias brasileiras, pela Jorge Zahar (tradução de Alexandre Werneck, 252 páginas) . Bauman é um intelectual pop – a ponto de ter 21 outros livros já publicados no Brasil pela mesma editora, uma aposta que uma casa publicadora brasileira só costuma fazer em autores de não ficção que tenham especiais prestígio ou popularidade (ou ambos). O livro não é um dos ensaios ou estudos de Bauman, como a série “Líquida” iniciada com Modernidade Líquida e desdobrada depois em Amor Líquido, Vida Líquida, Tempos Líquidos, Medo Líquido (imagino que em breve Bauman deva concluir a série com a publicação de Água Líquida). Vida a Crédito é a reunião de diversas entrevistas concedidas à jornalista mexicana Citlali Rovirosa-Madrazo — embora essa informação só conste da folha da rosto. Pela capa e pela lombada, o livro poderia muito bem ser outra das obras solo de Bauman. Nas conversas, Bauman analisa a economia (em especial a recente crise do crédito de 2008), o papel do Estado nas atuais democracias, a transformação de uma grande massa da população mundial em “refugo humano” indesejado, os dogmas ideológicos e religiosos do século 21, questões de utopia. Nada que o próprio pensador não tenha escrito por si próprio em livros como Modernidade Líquida, Vida para Consumo, Capitalismo Parasitário ou O Mal-Estar da Pós-Modernidade. O livro funciona mais como uma grande entrevista, um balanço direcionado que Bauman faz da própria obra – embora, como costuma ser comum em livros envolvendo diálogos desse tipo (vide as entrevistas de David Barsamian com Edward Said), a contribuição do “entrevistador/provocador” seja oscilante, uma vez que Citlali elabora questões e comentários prolixos e pouco objetivos.

(Publicado em Mundo Livro)

Um comentário:

  1. É muito maluco para minha cabeço que quase sempre é sertinha.
    Risadas.
    Abraço

    ResponderExcluir

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.