CAPRICHO: lições de mulherzinha

Capricho apresenta um universo de meninas onde se pratica o exercício da feminilidade, entendida aí de modo tradicional: ser vaidosa, cuid...

Capricho apresenta um universo de meninas onde se pratica o exercício da feminilidade, entendida aí de modo tradicional: ser vaidosa, cuidar de si mesma, ser antenada e trocar ideias sobre roupas, maquiagem e perfumes e gostar de meninos. 



É fácil perceber em veículos de comunicação voltados ao público adolescente como os valores sexuais vigentes são ensinados e reforçados. Uma pedagogia que modula o normal e aceitável em termos de sexualidade pelo silenciamento de outras possibilidades. No Brasil, várias revistas constituem exemplos disso. Tomemos como base, a revista Capricho, uma das mais antigas da Editora Abril.

Capricho foi criada em 1952 como uma publicação de fotonovelas e passou por vários reposicionamentos editoriais até assumir a fórmula que tem hoje: quinzenal, foca a menina de 12 a 18 anos, das classes A e B, e se propõe a ser uma amiga da leitora, trazendo várias pautas comportamentais e de aconselhamento.

Nesta direção, a sexualidade coloca-se como um ponto central na pedagogia proposta pela revista. Nos últimos anos, com a crescente espetacularização midiática, o fenômeno da sexualização tomou conta de diversos tipos de publicação e Capricho não escapou à regra. A revista é, sim, sexualizada. Com suas matérias sobre relacionamentos, garotos sem camisa estampados a cada edição e papos sobre primeira vez, paqueras e conquistas, a publicação estimula e orienta a libido da garota-leitora e faz do sexo um elemento caro ao seu universo.

Um quê de lesbofobia?
Mas se é preciso falar de sexo, numa sociedade onde cada vez mais ele é moeda de troca, este falar sobre é realizado em certos moldes, a saber, os moldes da heterossexualidade. Nas páginas da revista, através dos conteúdos publicados, descortina-se uma verdadeira cartilha que ensina a garota moderna a ser uma garota. Lições de mulherzinha, com todos os joguinhos, clichês e estereótipos que isso represente.

Desde cedo, aprendemos algumas diferenças básicas ente ser homem e ser mulher. Os pais, a escola, a Igreja e tantos outros meios disciplinadores existentes se apressam em explicar que para além da diferença física/biológica, existem também as comportamentais e, assim, surgem as chamadas coisas de menino e coisas de menina. Aquela história de azul para eles; rosa, para elas. Futebol, coisa de macho, moda, coisa de fêmea, e outras lições que vão mais tarde culminar em preconceitos e discriminações de todos os matizes.

Capricho apresenta um universo de meninas onde se pratica o exercício da feminilidade, entendida aí de modo tradicional: ser vaidosa, cuidar de si mesma, ser antenada e trocar ideias sobre roupas, maquiagem e perfumes e gostar de meninos. Sim, no universo de Capricho, ser feminina significa sentir atração por meninos, o que se por um lado rejeita uma possível condição homossexual da garota-leitora, por outro ajuda a reforçar o clichê de que toda mulher é feminina e se não for é sapatão.

E o incentivo à diversidade?
A revista acaba contribuindo para a manutenção das clivagens deterministas que configuram o masculino e o feminino na nossa sociedade e corrobora o heterossexismo reinante, ao desconsiderar uma possível leitora lésbica. Várias matérias presentes na revista parecem apontar essa questão: "Dicas para surpreender aquele fofo" (ed. 1103), "Descubra se você afasta os meninos" (ed. 1105), "Júlio Oliveira é o colírio da novela Ti-Ti-Ti (e o nosso também!)" (ed. 1102), "Teorias sobre a Lei da Atração: o que faz você se interessar por um garoto e vice-versa?" (ed. 1097).

Ao deixar fora do seu campo de atuação um enquadramento da condição homossexual feminina, Capricho, que se apresenta como uma revista tipicamente comportamental, não somente, de forma declarada ou não, enseja preconceitos como deixa de problematizar uma questão cara à fase da adolescência, que é o florescimento da sexualidade. Pasmem que uma revista que se define a todo tempo como amiga da leitora dê como dada a sua sexualidade e não discuta outras possibilidades de experimentação afetiva/sexual. Se por um lado, ela cumpre seu papel ao trazer o sexo para a roda de debates, por outro o papo não é tão aberto assim, pois parte de premissas pré-estabelecidas e não encampa a diversidade existente. Ao rechear suas páginas de "colírios" e ensinar suas leitoras a busca pelo outro sexo, está em jogo a afirmação da sexualidade heterossexual. Em suma, a problemática e defasada máxima de que homem gosta de mulher e vice-versa.

Será que não existem leitoras lésbicas no universo de Capricho? E se elas não gostarem de meninos, a quem vão recorrer? As "jornalistas-amigas" que assinam as páginas da revista estão preparadas para orientar, aconselhar e pautar essas meninas que fogem ao padrão equivocado do que significa ser menina? São perguntas que ficam e ensejam reflexões sérias a fim de se verificar as quantas anda a prática midiática de incentivo à diversidade, sobretudo, em veículos que pretensamente ajudam a formar as novas gerações.

(Publicado no Observatório da Imprensa e escrito por Fernando Barro)

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