30/09/2010

Sobre a campanha eleitoral 2010

O que definiu as últimas quatro eleições presidenciais foi a economia. Nesse ano de 2010, li muitos artigos dizendo que o povo brasileiro está mais consciente de suas posições políticas e que a mídia se daria mal ao tentar manipular informações e assim por diante. Prova disso seria a falta de eco do denuncismo midiático nas pesquisas.


De certo modo, em boa parte do mundo, o que determina a vitória numa eleição é o fator econômico. A crise econômica, em 2008, estourou nas mãos de Bush, o que permitiu eleger o candidato da oposição, Obama. Claro que a campanha realizada nas mídias sociais teve bastante eco, mas certamente não foi ela quem determinou o resultado. O povo norte-americano queria se ver livre da crise e Barack disse: "yes, we can".

No Brasil, o analfabetismo funcional de alguns políticos permitiu acreditar que a imitação da campanha de Obama nas mídias sociais seria vitoriosa. Erraram. Acreditou-se que o forte denuncismo de muitos factóides e poucos fatos faria a cabeça do povo mudar seu voto. Erraram novamente e tudo o que conseguiram foi sujar ainda mais a imagem política do país. O que mudou na estrutura política do Brasil?

Durante toda a campanha, quase nada se falou sobre projetos políticos. O debate que realmente interessaria ficou reduzido aos ataques e defesas pessoais. Isso é uma perda para quem acredita num futuro melhor e uma vitória para quem deseja que nada se altere num país de imensa desigualdade social.

Durante todo esse período eleitoral, candidatos de direita junto com a mídia millenium fizeram questão de exalar o cheiro de golpe. Nos bastidores da política, ao menos aqui no Rio de Janeiro, muitos intelectuais e ativistas sentiram o medo de um retrocesso democrático, ainda que por pouco tempo. Os ataques midiáticos foram tão vorazes que até pessoas de razão abandonaram a lógica momentaneamente e temeram um golpe. É quase certo que alguns setores da sociedade brasileira adorariam, mas é preciso de apoio internacional para que o absurdo se concretize. Nada é tão simples quanto parece.

Não consigo vislumbrar um projeto de país vitorioso sem a democratização da mídia no Brasil. Essa degeneração constante que se faz de valores é altamente prejudicial. Parte da população tupiniquim não crê na política: "são todos ladrões". Por isso prestam-se a votar em massa em candidatos aburdos para deputado federal e estadual. Para presidente, não vão arriscar perder o avanço econômico.

A mídia hegemônica não debate projetos sociais, não oferece espaço aos movimentos sociais, não prioriza a educação nem coloca assuntos em questão. Apenas acusa, denigre, mancha e finge ser imparcial. Sem repensarmos a mídia, será difícil conquistarmos qualquer autonomia e avanço.

Muito provável que a eleição presidencial seja definida em primeiro turno, mas o desgaste político e midiático no Brasil foi imenso. Pouco ou nada restará de credibilidade para os políticos e mídia hegemônica no país do carnaval.

2 comentários:

  1. Emerson Sitta30/09/2010 15:22

    Eu vejo a mídia hoje, infelizmente ou felizmente, com um poder maior que a própria justiça. O caso da ministra da Casa Civil, por exemplo, não há nenhuma denúncia da justiça ou de qualquer partido. É agora, a partir da denúncia de uma revista que tudo será investigado.

    Se a justiça ou os fiscais do governo não conseguem detectar nenhuma irregularidade, por que a mídia consegue?

    Em quem nós devemos confiar? Na justiça que é lenta ou na mídia que é imediata?

    Fazer denúncias não é papel da mídia?

    Como podemos equacionar, equilibrar a mídia que presta com a mídia que não presta?

    Afinal, o que é essa tal liberdade de imprensa?

    Quem é que pode ser contra a mídia? Quem pode fiscalizá-la? Cidadãos bem educados, talvez? Eu penso tanto, falo tanto para meus alunos sobre isso, sobre exemplos, sobre transformar, revolucionar. Falo que a língua é poder, mostro, provoco. Mas estou esperando. É difícil lutar contra um sistema de idiotização que existe há séculos. Às vezes penso que não há mais nada a fazer. Muitas vezes não consigo entender a vontade do povo. O mesmo povo que eu formo, que formamos no nosso trabalho.

    ...

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  2. Belíssimas palavras meu caro. Acredite, a situação é grave e merece mobilização. Acaba de ter uma tentativa de golpe em Equador. O cheiro aqui ainda é forte...

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