13/11/2010

O diabo está para a igreja assim como o medo está para nossa sociedade

Costumo dizer que uma das maiores invenções da humanidade foi o diabo, pois a criação de um mito como esse permitiu a dominação inquestionável de séculos e séculos sem pausa. Hoje, o capeta já não causa o mesmo furor de antes, pois desde a invenção de Gutenberg, algo importante tem acontecido no mundo: a disseminação de informação.

O fato é que séculos após, o sistema de dominação social não desapareceu, apenas se transformou. A igreja não é mais o centro do universo, mas ainda exerce enorme influência. O mito do demônio já não causa espanto em todos e também se alterou. Atualmente, o medo ocupa seu lugar, pois não possui posição religiosa, social ou ideológica e pode facilmente atingir qualquer pessoa que dispense temporariamente o pensamento.

O medo é um sentimento importante, pois nos ajuda a sobreviver e a evitar certos perigos, mas não deve nunca ser o único motor de nossas ações. Toda situação vivida deve estar amparada por diversas informações, pois as diferentes idéias nos ajudam a formar um pensamento próprio e afastar o medo.

O diabo representa para a igreja uma forma eficiente de controle, sem qualquer tipo de questionamento. Não se deve transar antes do casamento, diz a igreja, caso contrário sua alma irá pro inferno, pois isso é pecado. Perceba que nesse dogma não há qualquer espécie de pensamento ou possibilidade de abertura: é assim porque é assim.

Em nossa sociedade o medo representa também uma forma eficiente de controle. A pandemia da gripe suína, num passado recente, é um exemplo. Não era exatamente uma pandemia como chegou a noticiar a Folha de São Paulo na época, mas ajudou muito a se vender remédios em escala ensandecida e a enriquecer muito mais seu único fabricante. Se a disseminação do vírus da gripe foi uma armação ou não, pode render enormes debates, mas o fato é que o modo sensacionalista e amedrontador usado pela mídia para noticiar foi decisivo para abolirmos o pensamento e comprarmos remédio sem questionar. Bingo.

A violência na atualidade é outro tema gerador de muitos medos e mais uma vez, aparece a mídia sensacionalista contribuindo. A população amedrontada se afasta de seu semelhante, não se permite dialogar e apavorada, acaba sendo conivente com políticas ridículas e ineficientes de combate ao crime. No Rio de Janeiro a UPP é um exemplo disso, uma política paliativa que apenas altera a geografia do crime e obriga os criminosos a criarem outros modos de ganhar dinheiro, um quesito no qual os bandidos cariocas são bem sucedidos. O medo do povo e a ausência de uma análise mais profunda fez com que o governador Sérgio Cabral fosse reeleito com uma votação histórica. O que faltou e ainda falta é um debate público e social sobre essa política de segurança, pois a cada dia que passa, vejo aumentar outros tipos de crimes na capital.

A população, de modo geral, não está preocupada em dar condições dignas aos moradores de comunidades pobres. Normalmente, ela só quer ir ao shopping gastar seu salário sem nenhum tipo de infortúnio, custe o que custar, como gente pedindo dinheiro ou um bandido lhe roubando. Assistindo ou lendo jornais, a gente só consegue aumentar o nosso pavor. Debater possíveis soluções plausíveis não faz parte da agenda midiática, pois ela pensa e decide por nós, assim como os políticos, grupo no qual se encontra muitos proprietários de veículos de comunicação ou empresários. Essa gente ocupa hoje o lugar que a igreja ocupava na idade média e o diabo se diluiu em medo.

Num cenário social onde o medo ocupa um lugar central como fator de dominação, a comunicação libertária deve ser vista como um demônio e se não é possível controlar as pessoas apenas com reportagens disseminadoras de medo, usa-se mesmo a lei. Nesse ponto entra tentativas como o AI-5 digital, que segue em tramitação no Congresso Nacional, ou o ACTA (Acordo Comercial Anti-Contrafação). 

Quando o terrorismo psicológico é insuficiente para evitar que façamos sexo só por prazer, é preciso criar ferramentas mais opressoras. Nesses casos, a grande mídia fica em silêncio, pois só podemos ter noção da opressão quando somos minimamente informados ou você já viu alguma reportagem no Jornal Nacional sobre o AI-5 Digital ou o ACTA?

Manuel Castells, em entrevista para o El Pais, em 2008, definiu bem a relação entre poder, medo e comunicação: "A velha sociedade tem medo da nova, os pais dos seus filhos, as pessoas que têm o poder ancorado num mundo tecnológico, social e culturalmente antigo do poder que lhes abalroa, que não entendem nem controlam e que percebem como um perigo. E no fundo é mesmo um perigo. Porque a Internet é um instrumento de liberdade e de autonomia, quando o poder sempre foi baseado no controle das pessoas por meio do controle da informação e da comunicação. Mas isto acaba. Porque a Internet não pode ser controlada". Saudações para quem tem coragem de viver num mundo com menos medo e mais informação e pensamento. Seja bem-vindo.

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