13/12/2010

É coisa pra se guardar...

Muitas vezes um texto não é pensado e elaborado. Ele grita dentro da gente, como quem quer sair, como quem precisa e sai. Ganha vida por si só, uma outra vida, e já não nos pertence mais. Logo não se sabe onde circula e nem por quais meios o faz.

Hoje, por exemplo, grita dentro de mim a história verídica e pessoal que tenho com um amigo. Por certas razões o chamarei apenas de P.B.. Conheci P.B. este ano, por conta do trabalho. Ele ficava incumbido de me levar para dentro de algumas comunidades cariocas (favelas). Eu iria apenas fotografar enquanto ele fazia vistoria das obras, pois era engenheiro.

Nestas idas e vindas conversamos sobre nossas vidas, sonhos e histórias. Disse que quando se casou foi morar num conjunto habitacional na Cidade de Deus. Trabalhava durante o dia, estudava de noite e chegava tarde em casa, sempre com receio de algum conflito ou algo do gênero. Tempo depois teve uma filha, sua única filha, objeto de todo seu amor e atenção. Ela formou-se pouco tempo atrás e logo em seguida passou num concurso público. Sempre falou dela com imensa alegria.

Ultimamente encontrava-se muito ocupado, pois trabalhava bastante durante a semana e nos sábados e domingos ia vistoriar a casa que estava construindo na região dos lagos. Faltava pouco para se aposentar e naquela casa passaria o resto de seus dias, com sua esposa e filha. Não é fácil tocar uma obra dessas, muitas vezes com dinheiro contado, mas seu projeto valia a pena. 

Outra feita, mostrou-me feliz uma mochila que tinha ganhado de presente de sua menina. Uma mochila linda, perfeita para o que precisava. Nela cabia seu notebook e todo o reto que usava para trabalhar no dia-a-dia. E mais, era impermeável e lhe servia bem para andar de moto, sua outra paixão.

O bom humor sempre caminhou lado a lado com P.B.. Na expressão popular, pra ele não havia tempo ruim. Embora os cabelos e cavanhaque lhe denunciavam a maturidade, sua aparência física jovial nos confundia. Responsável, objetivo e focado em seu projeto de vida, de passar seus dias numa casa na região dos lagos, infelizmente veio a falecer num acidente de carro. Ele e sua esposa. A filha, no banco de trás do carro, conseguiu escapar com vida.

Durante esta manhã de trabalho, fui ao banheiro para chorar escondido as lágrimas que saltavam de meus olhos. Agora, sentado e acompanhado desta impotência humana, gostaria de brincar de Deus e fazê-lo receber estas palavras como sentimento que guardo e guardarei por ele, certo de que tudo vai ficar bem. Afinal, aqui e agora sou Deus e lhe ofereço paz e amor. 


Um comentário:

  1. Criativa e esclarecedor. É para uma reflexão mais elaborada.
    A Canção da America é de prima a interpretação de Elis.
    Parabéns e abraço.

    ResponderExcluir

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.