09/12/2010

A primeira vez que a mídia vence a guerra

Foi a pirmeira vez em toda a história da humanidade que a mídia venceu uma guerra. Aliás, pensando bem, não foi a primeira vez e para dizer a verdade, também não houve um vencedor e, além do mais, nunca foi uma guerra. Mas já que o negócio é fazer sensacionalismo com manchetes e textos que impressionam, então: "lá vamos nós". A mídia venceu o tráfico no Rio de Janeiro.

Se bem que acho melhor parar por aqui, pois a realidade não é tão engraçada quanto um texto jornalístico possa ser. O fato é que a Globo e a Record, no evento envolvendo o Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, conseguiram vencer uma guerra. Mas antes, para que fosse possível vencer, tiveram que inventar uma. "A guerra do tráfico", "o dia D" e todo esse blábláblá midiático. Eu sei, a vida real não é tão engraçada, mas como explicar isso pra quem só passa pelo Complexo do Alemão quando está a caminho do Galeão? Difícil. Por isso mesmo eles se acham no direito de inventar uma guerra e logo em seguida vencê-la.

Para que existisse uma guerra no Rio de Janeiro seria necessário que policiais, civis e militares, estivessem no lado oposto ao tráfico de drogas, aos jogos ilícitos, máquinas caça-níqueis e outras extorsões. E não é isso que vemos na vida real. Claro que existem bons policiais, assim como existem bons jornalistas, mas nesse episódio, pairou o desejo insano de uma paz fictícia. 

Para que houvesse um vencedor teríamos que ter cerca de 600 criminosos presos, sem contar "o outro lado da gueraa", em ótimos presídios que promovessem a ressocialização de pessoas que nasceram à margem da sociedade. Mas na vida real, distante do William Bonner e Paulo Henrique Amorim, quase ninguém foi preso, nem bandido e nem policial saqueador de casebres de morros.

Nenhum diretor de presídio que porventura permita a entrada de celulares e drogas nas celas foi preso. Nem mesmo aquele que acusou as famílias dos bandidos como sendo culpadas pela ordem de retaliação do tráfico. E nem aqueles advogados que riram muito ao ouvir esta declaração nas rádios cariocas. Sim, pois parece que os familiares de bandidos, ao entrarem no presídio, são revistados, mas advogados não. Ou estou enganado?

Nos morros dominados por milícias também ninguém foi preso. Aliás, milicianos devem viver em paz no Rio de Janeiro, porque a FABULOSA e VENCEDORA e INÉDITA política de segurança carioca só instala suas UPP's em morros do Comando Vermelho. Ou será que estou enganado? Será que até 2075 surgirá alguma política para combater a corrupção nas instituições públicas e morros milicianos? 

Quem sabe. Os Estados Unidos, quando inventou a Guerra do Iraque, também a venceu pela televisão, pelo menos por determinado tempo. No Brasil, dividimos um grave problema social em dois lados: o do bem (policiais) e o do mal (traficantes). Assim divididos, inventamos uma guerra e tratamos logo de vencê-la com uma cobertura midiática lucrativa e espetaculosa. Homeopaticamente, oferecemos agora ao grande público notícias de sucesso, ocultamos tiroteios, homicídios, agressões, roubos, extorsões, mentiras e pronto: vencemos.

Agora, para deixar a segurança pública carioca perfeita só falta a PEC 300. O que se deve fazer com a polícia que mais mata no mundo? Treiná-la? Educá-la? Fazer melhores triagens e exigir nível superior? Não. Basta aumentar o salário que num passe de mágica todos se tornarão fiéis escudeiros do povo brasileiro. Assim vamos longe. Longe mesmo.

Li artigos dizendo que existem, hoje, muitos pontos positivos na segurança pública do Rio de Janeiro. Um deles é o fato de ter um cronograma a seguir, nas instalações de UPP's, e realmente seguí-lo. Pela primeira vez se tem alguma espécie de planejamento na segurança pública no Rio de Janeiro. Ufa! Agora sim estou tranquilo. 

O governo estadual diz: amanhã estaremos instalando UPP no morro do "sei lá o quê". Bandidos fecham acordo com alguns policiais, afinal têm algo em comum, e fogem com suas armas, em grande maioria, para outros locais, inclusive Niterói e Baixada Fluminense. Conseguiu perceber a positividade?

Outro ponto positivo é que na invasão do Alemão e Cruzeiro não houve um "banho de sangue". Mas pelo que sei, os bandidos que não fugiram, além de cerca de duas dezenas presas, foram mortos longe das câmeras e das contagens oficiais. Ao menos é o que se ouve longe dos "jornais nacionais" televisivos. Percebeu a positividade?

Outro ponto positivo foi a apreensão de toneladas de drogas e milhões de armas. Do mesmo modo como acontece periodicamente no México, o país que mais cala e mata jornalistas no mundo com um dos tráficos mais violentos também. Assim como no forte combate ao tráfico dos EUA, por décadas apreendendo de um lado e financiando de outro. Positivo?

Outro ponto positivo foi o pequeno número de "baixas civis", também conhecido por morte estúpida de gente inocente. Quem morreu? Umas pessoas ali do morro, mas isso faz parte da "lógica da guerra" que criaram, principalmente quando essas "baixas" não são da classe média. É fantástico?

Quer ver mais pontos positivos da vitória da guerra contra o tráfico, do esperado "Dia D" que, enfim, traria a paz eterna ao Rio de Janeiro? Reproduzo abaixo um trecho de uma entrevista da socióloga Vera Malaguti, secretária geral do Instituto Carioca de Criminologia e professora de criminologia da Faculdade de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

"O controle totalizante sobre as comunidades pobres dentro do paradigma bélico, que é um modelo muito usado pelos Estados Unidos nas ocupações que promove. E também é um modelo usado por Israel no tratamento do Estado Palestino. Isso significa que existe um atropelo das garantias, as áreas pobres ficam transformadas em territórios de exceção, onde não regem direitos e as garantias são completamente supérfluas porque trabalham com a ideologia da segurança nacional. É o que o grande jurista argentino Raúl Zaffaroni chama de direito penal do inimigo. O governo do Rio tem a polícia que mais mata do mundo, tem toda a ideologia do confronto. Eu pensava que a política do governo federal era diferente, apesar de ter críticas a ela também. Mas agora eu percebo que as políticas estão coordenadas mesmo, o paradigma bélico é comum, inclusive com o uso das forças armadas na segurança pública, que é uma coisa muito controvertida na discussão nas escolas superiores de guerra, por exemplo. As forças armadas norte-americanas jamais entram como polícia. A não ser em casos muito especiais, como numa situação em 1993, muito pontual, e saem imediatamente. Mas eles gostariam muito que as forças armadas da América Latina entrassem nessa função porque isso faz com que desmoronem, como é o caso do México, onde essas ações das Forças Armadas são um fiasco completo, como é um fiasco completo a guerra contra as drogas. Mas é um fiasco em relação aos objetivos a que ela se propõe, porque na indústria da guerra ela é um espetáculo: vende tanques e armas para os dois lados. O capitalismo é completamente alimentado pelas guerras. Se olharmos toda a história do capitalismo, a própria história dos Estados Unidos, percebemos que nas crises econômicas a guerra levanta a economia. E nós aqui estamos incorporando esse modelito, que é um modelo fracassado. Os Estados Unidos se retiraram do Iraque fracassados, estão se retirando do Afeganistão sem possibilidade de vitória, mas a indústria bélica e seus serviços são vitoriosos. E é essa indústria bélica que agora está sendo mimetizada para as políticas de segurança pública, porque política de segurança pública não tem nada a ver com o que está acontecendo, com a guerra. Tanto que o Nelson Sá, aquele jornalista da Folha de São Paulo, compara a cobertura da Globo sobre o que aconteceu no Complexo do Alemão com a cobertura que a Fox News deu sobre a guerra do Iraque. Então, é uma grande mercadoria, tanto que na véspera de transmitir o dia inteiro aquele horror, a Globo anunciou o noticiário do dia seguinte como Tropa de elite 3 . Há todo um mercado da violência e do controle da violência. Para o grande público, telespectadores de programas policiais, colocar as forças armadas nisso seria o ápice, mas para os estudiosos, para quem não está querendo aparecer muito, isso é uma coisa muito perigosa, muito controversa e acho que inclusive é irresponsável".

0 comentários:

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.