02/02/2011

Ensaio sobre as novas faces de uma economia em rede mundial

Ao se conectar na internet, dois bilhões de pessoas no mundo inteiro se tornam alvo de um imenso mercado de produtos e serviços que a cada dia fica mais barato. Para sobreviver neste cenário de infindáveis ofertas e gratuidades, as empresas do mundo todo são obrigadas a se reinventar.


A rede mundial de computadores, além de influenciar em hábitos e relações interpessoais, também atinge de forma vigorosa a economia mundial. Muitas lojas oferecem preços menores em compras online. O consumidor, por sua vez, também ganha em conforto, pesquisa maior e tempo menor nessas compras. As longas caminhadas pelo centro da cidade cheio de gente estão perdendo espaço.

Um dos casos mais revolucionários dos novos tempos é o dos arquivos em formato MP3 e a indústria fonográfica. O arquivo MP3 foi um dos primeiros tipos de compressão de áudio com perdas imperceptíveis ao ouvido humano. Ficaram conhecidos rapidamente pelo pequeno tamanho e grande qualidade, permitindo a maior troca gratuita de músicas já vista na história e alterando diretamente o faturamento da indústria musical.

Em 1999, Shawn Fanning criou o Napster, o primeiro programa a popularizar a troca de arquivos em rede. Shawn ficou rico em pouco tempo. Em 2000, o Napster possuía cerca de 50 milhões de usuários e seu criador havia se tornado uma celebridade, comparada hoje ao Mark Zuckerberg, criador do Facebook.

 A fama não ficou impune e logo sofreu um ataque fervoroso da indústria fonográfica. O processo começou com a RIAA (Recording Industry Association of America), mas com a entrada do Metallica e outros artistas, a ação ganhou fama. Em 2001, a indústria e os metaleiros tiveram sua vitória. O Napster praticamente foi à falência.

 A vitória da indústria durou pouco. Hoje existem vários modos de compartilhamento e é quase impossível vigiar e punir os quase 2 bilhões de usuários de internet em todo o mundo. A rede mundial de computadores modificou a circulação de capital e negócios pelo planeta. A indústria fonográfica perdeu espaço, mas ainda tenta se reinventar, assim como outros setores do mercado.

A internet como alavanca de negócios

A internet altera todo comércio de bens, como: imóveis, alimentos, celulares e etc. Isso quer dizer, enquanto alguns setores sentem-se ameaçados, outros enxergam oportunidades de expansão. Sobre essas relações, Luis Nassif, introdutor do jornalismo de serviços e eletrônico no país, explica: “a internet será uma forma a mais de comercialização desses bens, seja através da publicidade na net ou através de sistemas de compra em realidade virtual. Ela alavanca a venda de bens reais”.

Outra tendência que parece ir em direção contrária é deixar de circular como um produto físico e limitar-se apenas à esfera virtual. Após 119 anos de circulação impressa, O Jornal do Brasil, famoso periódico do país, agora circula apenas na rede. A internet criou inúmeros canais de informação gratuita, dividiu o público leitor e causou severas perdas no faturamento. Um dos mais importantes jornais americanos, The New York Times, também assumiu recentemente que deixará de circular na versão impressa num futuro breve. O que acontecerá com a receita desses jornais? Terão de se reinventar num mundo em que a circulação de graça de informação é gigantesca e incontrolável.

O Acordo Comercial Antifalsificação (em inglês, ACTA: Anti-Counterfeiting Trade Agreement) é mais uma tentativa de minimizar essa característica da internet: a livre troca de arquivos autorais ou não. Chris Anderson em seu livro Free, fala sobre conteúdos gratuitos distribuídos em rede e aponta isso como tendência mundial. A pergunta é: tudo o que se tornar digital será gratuito num futuro breve?

Luis Nassif responde: “alguns provedores de conteúdo cobrarão pelo direito à primeira leitura. O sujeito faz a assinatura ou compra o livro ou CD na frente dos demais, sabendo que dali a algum tempo aquele conteúdo estará disponível”. Na era da informação, obter um conteúdo com certa exclusividade tem suas vantagens, assim como terá também o seu preço.

Esse nicho de mercado está mais acessível para os grandes sites, grandes empresas. Pequenos blogues e lojas virtuais podem arrecadar dinheiro com publicidade ou venda. “Lembro que apenas os grandes serviços de busca ou grandes agregadores têm massa crítica para faturar em cima de audiência e Internet. Por isso mesmo, os provedores de conteúdo tratarão de diversificar a forma de comercialização de seus produtos. Outro caminho será vender conteúdo exclusivo para determinados clientes corporativos”, explica Nassif.

Os primeiros da fila

Rupert Murdoch, presidente da News Corp (segundo maior conglomerado de mídia do mundo, atrás apenas de The Walt Disney Company), não mediu esforços, em 2010, para elogiar a companhia de Steve Jobs (multinacional dos EUA do ramo de aparelhos eletrônicos e informática, famosa pela fabricação do Macintosh), e aposta nos aplicativos do Ipad e similares como grandes fontes de renda. A Apple é considerada por alguns analistas como uma espécie de doutrina religiosa do século XXI com seus fiéis seguidores. Jobs, o dono da maçã, lança sua profecia e o mercado praticamente a segue como tendência. Para cada lançamento de um novo produto formam-se filas imensas no mundo todo: são consumidores enlouquecidos para ter algo como a vanguarda da tecnologia.

Provavelmente, Murdoch está se associando com a Apple por trás dos bastidores. Afinal, são dois gigantes unindo forças para fugir ao máximo da queda de faturamento. Pode-se imaginar que a empresa de Jobs tem menos a temer, pois vende aparelhos celulares e computadores que são mais difíceis de piratear. De qualquer modo, não deve ser mau negócio associar-se ao segundo maior conglomerado de comunicação do mundo.

O fato é que a web é mais lucrativa que a internet. A diferença é: internet é uma rede de redes que interliga bilhões de computadores mundo afora, já a web é uma das maneiras que se tem para acessar a internet, usando o modelo HTTP, que é uma linguagem, e serve-se de browsers para acessar homepages ligados por hiperlinks. Assim, a web é uma parte da internet e tanto Jobs como Murdoch se interessam muito por ela.

A internet possui várias linguagens e modos de acesso e, por isso, é mais fácil de disseminar conteúdo gratuito. Muitos sites acessados no Internet Explorer, da Microsoft de Bill Gates, nem sempre (ou dificilmente) são acessados em Linux, o sistema operacional com plataforma gratuita. Para fazer uma reclamação de alguma operadora no site da ANATEL, por exemplo, você precisa ter obrigatoriamente o Internet Explorer, pois nem o Firefox, outro programa de acesso gratuito, é aceito. Resumindo: a web é muito mais controlável que a internet e, por consequência, mais rentável.

Mas muitos anarquistas em rede gostam da internet pelo caráter gratuito e revolucionário que ela traz em si, a ponto de alguns teóricos enxergarem na rede mundial uma linha de fuga do modelo econômico vigente, como um projeto anticapitalista. Dizem que quando a maioria da população mundial tiver acesso será insustentável a manutenção do capitalismo como hoje conhecemos. Em A Economia Política da Internet e sua Crise, César R. S. Bolaño escreveu: "mais informação e comunicação, no mundo do trabalho e no mundo da vida, pode tornar-se, sob determinadas condições, mais informação e comunicação a serviço de um projeto libertador, alternativo, anticapitalista." O jornalista brasileiro Luis Nassif discorda um pouco dos mais empolgados: “a Internet dá grande vitalidade ao chamado trabalho colaborativo, em rede. É um movimento que prioriza o caráter coletivo contra o individualismo exacerbado do mercado. Lá na frente, ganhará dimensão para alterar as relações de produção, mas não a ponto de instituir um novo sistema.”

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