15/03/2011

Mesa manchada de sangue

Ralo de matadouro. Foto de Daniel Marenco. BD: 19/06/2008
Toda escolha é moral. Para o escritor americano Jonathan Safran Foer, 33 anos, isso inclui comer animais — mesmo que muitos prefiram não pensar no frango em seu prato como a ave real que será torturada para se transformar em produto para consumo. Essa é a tese central que o autor defende no misto de ensaio, reportagem e memória Comer Animais (Tradução de Adriana Lisboa, Rocco, 320 páginas, R$ 41,50).

Foer, autor dos elogiados romances Tudo se Ilumina e Extremamente Alto e Incrivelmente Perto, começou o escrever livro depois que ele e a mulher, a também escritora Nicole Krauss, tiveram um filho. Entre as muitas reflexões provocadas pela condição de pai recente, estavam aquelas sobre como alimentar sua cria. Depois do nascimento do filho, o autor mergulhou em uma pesquisa de quatro anos sobre a indústria alimentícia e o tratamento que esta dispensa aos animais como forma de entender seu próprio vegetarianismo para explicá-lo ao filho. Comer Animais é uma reportagem de fôlego que também se apresenta como uma narrativa de sujeição, a dos bichos ao homem. O resultado é um livro do qual é preciso muito sangue frio para permanecer impassível.

Foer relata histórias de horror. A hegemônica indústria da carne norte-americana alcança produtividade recorde com torturas: frangos geneticamente modificados cujo peso fragiliza os ossos ao ponto de se quebrarem, encarcerados em gaiolas coletivas sem poder se mexer; animais de grande porte criados em galpões fechados com iluminação artificial e sem nenhuma vegetação, porcos entupidos de hormônios, animais tão manipulados geneticamente que só sobrevivem ao custo de muitos antibióticos – e o uso indiscriminado de medicação do tipo em animais para abate como porcos e frangos torna cada vez mais próximo o dia em que um micro-organismo resistente a antibióticos possa pular dos animais para o homem, com um resultado devastador. O autor não apenas maneja frias estatísticas (que estão lá e são impressionantes mesmo atrás da face fria dos números. Ele também vai a campo, entrevista uma militante de direitos animais que, usando as brechas da lei de propriedade no que diz respeito a crueldade animal, invade fazendas para alimentar animais deixados em condições degradantes; fala com produtores menores, cada vez mais raros no pantagruélico cenário da produção de carne por meio industrial – qualquer um que já viu uma galinha de verdade sabe que elas são muito diferentes entre si e menores do que as que andamos comprando no mercado.

Aclamado como um dos mais talentosos autores de sua geração, Safran Foer faz de Comer Animais um livro “engajado” – palavra que assumiu conotações diversas no século 20, nem todas positivas. Mas o engajamento do escritor não compromete a forma. Seu livro é escrito com muito da perplexidade que o autor tornou característica de seus romances. Ele não tem a engenhosidade e a elegância formal de um J.M. Coetzee, mestre da literatura que também milita pelos direitos dos animais em artigos ou obras ficcionais como Elizabeth Costello e A Vida dos Animais. Mas o texto de Safran Foer é franco, aberto, direto, alinha estatísticas sombrias sem deixar que elas tomem conta da prosa, é veemente sem ceder à indignação histérica. É na verdade de sua comoção serena que ele se diferencia e por vezes se destaca em uma comparação com o cerebral Coetzee.

Ponderado, Foer insiste em um ponto que ficará martelando na cabeça de qualquer um de seus leitores honestos, onívoros ou não: um consumidor ciente do que passam os animais em abatedouros e fazendas industriais que escolha continuar consumindo carne e tocar a sua vida numa boa está fazendo a escolha moral de aceitar a tortura animal como um “mal menor” necessário para a alimentação humana. Uma escolha que afeta o que há de humano em qualquer consumidor de gôndola de supermercado. Sabendo o que se sabe sobre o que os animais passam para chegar à mesa dos humanos, não se pode alegar ignorância nem afetar inocência sem constrangimento. Ou, como o escritor coloca, com propriedade, a certa altura de seu livro: “é sempre possível acordar alguém que está dormindo, mas nenhum barulho vai acordar alguém que finge estar”.

(Publicado no blog Mundo Livro)

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