16/04/2011

O Brasil não sabe enfrentar problemas

Não sei se é resquício dos tempos de colonização e escravidão ou do golpe que nos levou para a República. Talvez seja dos outros golpes que nos tiraram do sonho da democracia. Quem sabe é de agora, dos tempos em que estamos afogados na modernidade líquida tupiniquim. Pode ser ainda por conta do hábito, tradição ou cultura e seja por onde for, algo é fato: o Brasil não sabe enfrentar problemas.

Primeiro é preciso explicar que quando digo Brasil, refiro-me ao pequeno povoado que forma a grande mídia, o Congresso, o judiciário e seus afins. A maior parte da população vive atônita com tudo ou nada, esperando que alguém lhe diga o que fazer. O restante dos tupiniquins sabem dialogar, debater, ou seja, enfrentar problemas e criar soluções amplas.

No parágrafo acima dividi o povo brasileiro em três grupos: os que estão no poder e não sabem enfrentar problemas, os que estão atônitos esperando orientação e os que gostam e criam e provocam debates nesse país. A soma do primeiro e segundo grupo é o que inspirou o título deste texto.

Nas últimas eleições de 2010, muitos analistas concluíram que aquelas foram as piores que já tivemos e que as vindouras não poderiam ultrapassar o escárnio destas. Não sei se ainda pensam assim depois de ler o último artigo de FHC (também conhecido por FH) dizendo que é preciso deixar o povão de lado. Muito ainda está por vir até 2014 e nessa mania de copiar os norte-americanos, será que vamos eleger um artista presidente ou governador? Quem sabe um Luciano Huck vice-presidente de Aécio...

A revista Veja de 09/04 trouxe um artigo de Gustavo Iochpe atacando fortemente os sindicatos dos profissionais de educação. Sua proposta é ignorar esses sindicatos em qualquer discussão sobre educação. Saber lidar com as diferenças? Buscar o debate? Jamais. Em outras palavras, ele propõe a aniquilação de seus contrários. Simples assim.

Ana de Hollanda, ao assumir o Ministério da Cultura, não buscou nenhum debate sobre o Creative Commons, sobre a necessidade ou não de se manter a licença no site. Simplesmente tirou a licença e pronto, demonstrando que não sabe enfrentar os problemas sem apelar para atitudes autoritárias. Desde então, vemos colunistas, artistas e afins promovendo ataques e defesas sobre a atitude da ministra. Simples assim: ou você concorda com tudo ou discorda de tudo, levando a essência da questão para uma partidarização que empobrece o debate. Como se a cultura fosse propriedade da esquerda ou da direita política deste país.

Ricardo Noblat saiu em defesa de Jair Bolsonaro, o deputado racista e homofóbico com imunidade parlamentar e em pleno exercício político por ser brasileiro. Fosse num país sério, já teria sido caçado. O jornalista alegou que Bolsonaro tem direito a se expressar livremente. Sim, esta é a tal "liberdade de expressão", um conceito que quase ninguém mais entende o que venha a ser. Porém, Noblat se esquece que a população afrodescendente, homoafetiva e brasileira em geral, também tem o direito a tal "liberdade de expressão", assim como tem o direito de gritar contra suas declarações estúpidas e de pedir que este cidadão deputado não mais frequente o Congresso Nacional. Para o jornalista, isto não é liberdade, mas ataque interesseiro.

Na mesma linha de pequeno burguês hipócrita, Noblat promoveu ataques virulentos contra o blog de Maria Bethânia. Só esqueceu de citar que seu próprio filho também ganhou uma soma de dinheiro parecida para uma banda completamente desconhecida e sem expressão nacional, ou seja, ganhou quase um milhão de reais com o mesmo fim de Bethânia, promover cultura através da Lei Rouanet. A lei tem defeitos? Claro. Promover debates equilibrados para resolver estes problemas? Jamais. O Brasil não sabe enfrentar seus problemas.

A lógica que regula toda essa gente é a da aniquilação. Não sabem debater ou respeitar a opinião dos brasileiros, assim como o STF, num quase empate de 6 a 5, derrubou a lei Ficha Limpa para 2010. Simplesmente pisou em 2 milhões de brasileiros que lutaram por sua aprovação. Alguém pode dizer, mas ela pode ainda valer para 2012. Sim, tanto poderá valer quanto poderá não valer.

Numa narrativa semelhante, o STF fez algo parecido com o diploma jornalístico. E veja bem: não estou dizendo que sou contra ou a favor deste diploma, estou apenas dizendo que ele também foi jogado fora sem levar em consideração um debate amplo da sociedade, o que só aconteceu depois que o diploma foi queimado por homens togados de saber inenarrável.

Resquícios da colonização e da escravidão? Sobras de tantos golpes e ditaduras? Não sei dizer ao certo de onde isso vem, mas estou certo de que o Brasil não sabe enfrentar seus problemas sem recorrer a posturas autoritárias. Do mesmo jeito, não sabe punir torturadores que prestaram serviços obscuros ao Estado brasileiro. O Brasil é o único país que integrou a Operação Condor que não puniu ninguém. Os brasileiros sequer têm acesso aos documentos do período do golpe militar.

Vivemos sob uma democracia presidencialista? Não, estamos sob um regime autoritarista, falsamente disfarçado de intelectual e democrático, livre e em plena ascensão econômica. Culpa de nossa Presidenta? Claro que não, pois uma andorinha só não faz verão. Precisamos de mais pessoas que gostem de debater e enfrentar os problemas.

No mais, você por acaso sabe com quem está falando? Tem alguma autoridade para discordar de mim? Então engrosse meu coro e concorde comigo, pois no Brasil é assim: não se sabe debater ou enfrentar os problemas.

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