19/05/2011

Argentina avança contra restos da ditadura. No Brasil, mídia obstrui debate

Escrito por Alexandre Haubrich 
Juan Cabandie é um deputado distrital (o equivalente argentino a vereador) de Buenos Aires. Ele tem 8 anos de vida, e é filho de Damián Abel Cabandié e Alicia Alfonsín. Nos 25 anos anteriores, anos em que o mesmo corpo já existia mais ou menos com a mesma forma, Juan não existia. Quem estava lá era Mariano Falco, filho de Luís Falco, agente da Polícia Federal argentina, agente da Ditadura Militar argentina. Em 1978, recém nascido, Juan foi tirado das mãos dos pais verdadeiros, mortos na ESMA (o equivalente argentino ao DOPS brasileiro), e sequestrado por Falco. O sequestrador nunca contou ao sequestrado a origem de seu nascimento como Mariano. Nunca contou da existência de Juan, filho de dois assassinados pelo Estado argentino.

Há oito anos Mariano descobriu que era Juan, que era neto de uma das Abuelas de Plaza de Mayo, movimento social argentino que busca as crianças roubadas das famílias pela ditadura. Em 2010, já Juan e já deputado distrital, entrou contra seu falso pai. Nesta terça-feira, uma grande vitória para a democracia argentina: Luís Falco foi condenado a 18 anos de prisão. Isso um dia depois da condenação de oito ex militares à prisão perpétua pela execução de presos políticos em 1976. A democracia argentina vai punido seus agressores.

Enquanto isso, por aqui, a velha mídia nacional, comprometida até o pescoço com os comandantes da Ditadura Militar brasileira, pouca repercussão destina ao que acontece aqui do nosso lado. Quando há algum tipo de cobertura sobre os avanços democráticos na América Latina (têm acontecido especialmente, nesse sentido, na Argentina) o que é publicado são apenas notas em cantos escondidos dos jornais. Os recentes percalços do Uruguai na revisão de sua própria lei da anistia, a Ley de Caducidad, ganhou, obviamente, um pouco mais de espaço. Nos telejornais, nada.

Têm ganhado força no Brasil as pressões para a abertura dos arquivos da ditadura e a punição imediata de torturadores e assassinos, a partir da revisão da Lei de Anistia. E essa pressão da sociedade organizada vem acontecendo contra a vontade e contra o silêncio da mídia dominante, que esconde o que ocorre no restante da América Latina, esconde a relação que esses fatos guardam com nossa própria realidade nacional e esconde o debate atrás do argumento doentio, neurótico e mentiroso do “revanchismo”.

A sociedade organizada e a mídia contra-hegemônica têm obrigação moral de encampar essa pauta em defesa da verdade e da história brasileira. É a defesa da sociedade, a defesa de quem lutou das mais diversas formas pelo fim da ditadura, a defesa do passado e do futuro. Bastião teórico da liberdade e da transparência, a velha mídia apoiou a Ditadura Militar e agora tenta impor-se como barreira à verdade histórica que o povo brasileiro tem direito de conhecer: sua própria história.
 
*Boas matérias sobre o caso de Juan podem ser encontradas AQUI e AQUI.

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