24/06/2011

Folha, Estadão e O Globo: batalhões midiáticos do Bope

Muito se diz que a mídia dominante é reprodutora dos discursos das elites, e a publicação acrítica de releases policiais é uma demonstração quase diária dessa lógica. O apoio a ações repressivas contra a população pobre é uma forma de luta pela manutenção da hegemonia das elites. O Estado presente como agente repressivo é o sonho da mídia dominante para as favelas brasileiras, é a exclusão armada, a situação de guerra como pretexto para a dominação violenta, para a eliminação da pobreza através da eliminação das pessoas.

Na madrugada de quarta para quinta-feira (23), uma ação do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o famigerado Bope, acabou na morte de oito pessoas no Morro do Engenho, na Zona Norte do Rio. Os sites dos jornais O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo noticiaram o caso, todos da mesma forma: através de releases da assessoria de imprensa do Bope.

São duas as fontes que as três notas citam: a “Polícia Militar” e o comandante da unidade do Bope responsável pela ação, Alexandre Fontenele. Segundo os sites, as mortes teriam acontecido durante confronto com a polícia. Feridos, os supostos traficantes teriam sido levados ao hospital, mas nenhum sobreviveu. Em nenhuma das notas há qualquer questionamento sobre o fato de que, com oito pessoas que teriam trocado tiros com a polícia, foram apreendidas apenas sete armas. Ou seja, ainda que toda a versão da polícia seja verdadeira, ao menos um dos mortos estava desarmado. Fora a estranheza de todo o resto.

Há ainda a comentar as escolhas dos títulos e chamadas. O título do O Globo diz que “Traficantes são mortos em ação (…)”, mas seu texto abre com “Oito suspeitos foram mortos (…)”. A chamada da Folha é “Operação do Bope acaba em confronto e deixa oito mortos”. Sobre os textos, no Estadão, em sete parágrafos, há seis vezes “segundo fulano” ou “de acordo com fulano”, sendo que fulano é sempre o Bope, seu comandante ou sua assessoria. Na Folha, isso acontece três vezes em cinco parágrafos. No O Globo, três vezes em sete parágrafos.

Toda a notícia é, nos três casos, construída a partir das informações prestadas pelo Bope. Não só não há qualquer outra fonte, como também não há qualquer investigação jornalística ou qualquer preocupação com o factual. Teria, estaria e outros verbos conjugados no duvidoso Futuro do Pretérito do Indicativo conduzem os três textos do início ao fim. Zero de jornalismo, tudo pura assessoria de imprensa do Bope, publicidade da caveira.

(Publicado no jornalismob)

0 comentários:

DEIXE SEU COMENTÁRIO. SUA VOZ É IMPORTANTE.