30/08/2011

Ninguém Sabe dos Gatos Persas - retrato de uma revolução secreta


Ninguém Sabe dos Gatos Persas (Kasi Az Gorbehaye Irani Khabar Nadareth, 2009) é um filme do premiado diretor iraniano Bahman Ghobadi.

O estilo de filmagem (que durou 2 semanas) é câmera na mão, sem muita parafernália. Além disso, as externas são quase todas realizadas em algum veículo, pois o diretor não teve liberação para filmar no solo iraniano.

O elemento surpreendente deste filme é que ele foge ao estilo e formato do cinema iraniano, Ghobadi não aborda em nenhum momento o bucolismo.  

Mesclando cenas de ficção e realidade. Moderno, sem forçar a barra. Simples, sem ser simplório. E com o dinamismo presente nos grandes centros urbanos.

A Teerã mostrada na tela nada tem a ver com o retrato já estereotipado pela mídia tradicional, então se o leitor comprou (e acredita) no modelo de uma cidade terrivelmente horrenda, feia, sem cultura e subdesenvolvida, não assista a este filme. Bahman Ghobadi conseguiu captar a beleza da capital iraniana, os aspectos culturais e, sobretudo, a preocupação em criar arte.

Mas... Sim, sempre tem um mas, porém, contudo, no entanto... Infelizmente, a produção artística sofre com as barreiras impostas pelo governo do Aiatolá Khamenei. O governo local exerce forte censura em todos os aspectos culturais e os artistas necessitam disputar permissões para se reunir, produzir e ensaiar. Quem é pego ensaiando ou com filmes e músicas ‘proibidas’ é preso, deve pagar uma pesada multa e punido com chibatadas.

A trama do filme se desenvolve em torno do casal de músicos Negar e Ashkan, que decidem montar uma banda indie e deixar o Irã logo após serem libertados da prisão. O destino: tentar a sorte na Europa e se apresentar em um show previamente agendado.

Porém, seguir o sonho e deixar a clandestinidade é complicado. Passaportes, vistos serão necessários, além de encontrar outros instrumentistas dispostos a sair do país e arriscar tudo na perigosa fuga.

Durante a busca pela documentação e músicos, Negar e Ashkan fazem amizade com um personagem peculiar: um produtor/pirata de CD e DVD/picareta que abastece o mercado negro com mercadorias proibidas ou consideradas impuras pelo governo do Irã. O papel deste ‘faz-tudo’ é brilhantemente interpretado por Hamed Behdad, que por vezes, rouba o filme para si. Como na seqüência (ao mesmo tempo antológica e absurda) em que ele vai preso e recebe sua sentença ou quando ele se encontra em momentos de negociações. 

As bandas são apresentadas em formato de videoclipes captados na atmosfera do submundo da música, e é justamente, na busca por outros integrantes é que se conhece a cena musical iraniana, alem do indie, surgem grupos de heavy metal, rappers que ensaiam sem permissão em locais insalubres, como currais, terrenos vazios, becos, tavernas e prédios em construção. Inclusive mobilizando platéia. Fica claro que são comuns os shows secretos, com o sempre presente fantasma da polícia e com a possível delação por vizinhos ou transeuntes.

Contudo, a formação da banda de Negar e Ashkan encontra outra dificuldade: alguns dos músicos se negam a sair do país, porque se consideram como combatentes de um movimento de resistência.

O grande mérito de Ninguém Sabe dos Gatos Persas é ser filme-guerrilha que mostra o contraste entre desenvolvimento e conservadorismo ligado à religião como justificativa para regular a vida de um povo* e a tristeza de uma juventude oprimida, porém, guerrilheira no meio urbano, armada com instrumentos e letras.

Prever o futuro dos músicos apresentados no filme é impossível.

No entanto, o que pode ser previsto é que a resistência artística permanecerá e a revolução da juventude avançará pela música.

Definitivamente, Bahman Ghobadi, em duas semanas de filmagens, consegue apresentar ao mundo um cenário musical inédito e demonstra que a arte, não só produzida pelos jovens, resiste às restrições, amarras, censuras, barreiras e proibições.

*Vale fazer a ressalva: o ‘islamismo’ do regime iraniano não traduz e nem é o islamismo real. Pois se percebem influências milenaristas no discurso apresentado pelos Aiatolás e por Mahmoud Ahmadinejad.



Trilha Sonora de Ninguém Sabe dos Gatos Persas :
Take It Easy Hospital
Rana Farhan
Hichkas
The Yellow Dogs Band
Shervin Najafian
Ash Koosha
Mirza
The Free Keys
Mahdyar Aghajani
Darkoob
Hamed Seyed Javadi
Nik Aein Band

Em tempo:
- Foi premiado na mostra Un Certain Regard do 62nd Cannes Film Festival (francês: um certo olhar);

- As autoridades iranianas perseguiram o filme, em virtude disto, Bahman disponibilizou para download o torrent, por não poder exibi-lo nos cinemas do próprio país;

- Vale destacar a grande surpresa da trilha sonora filme: Rana Farhan, uma cantora que mescla o blues/jazz, com a tradicional poesia persa. E tem uma bela voz.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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