Os HQ's e a propagação ideológica

Escrito por Diego Pignones M.A.D. (dono deste sítio - Comunica Tudo) e eu, por diversas vezes conversamos sobre histórias em qu...

Escrito por Diego Pignones


M.A.D. (dono deste sítio - Comunica Tudo) e eu, por diversas vezes conversamos sobre histórias em quadrinhos, seja trocando dicas de livros sobre o assunto, ou somente indicações de graphic novels. Em uma ocasião mencionei meu trabalho final de graduação, onde analiso o uso das HQ’s como meio de propagação ideológica. O material o instigou e várias vezes trocamos idéias sobre o tema. Lembrei dos papos enquanto analisava minha monografia buscando pontos para expansão do tema, e até mesmo, ampliar seu conteúdo para futuramente publicar um livro (em andamento).

Vamos então ao que interessa:

Quando nós recorremos aos quadrinhos?

Sem percebermos, os quadrinhos, além de servirem como lazer ou como mera distração do cotidiano, eles têm um papel “religioso”. Isso porque delegamos involuntariamente (ou não) aos quadrinhos e aos seus personagens papéis místicos. Neles estão nossos anseios, frustrações, medos, reivindicações, etc.

É possível afirmar isto, porque as HQ’s são mídia. E veiculam mensagens.

Dentro das mensagens veiculadas em um gibi é possível detectar desde a idéia de motivar a sociedade, o estilo de vida, até a cultura do país onde ele foi produzido. Mesmo com a tradução para o português.


Em Nossos Deuses são Super-heróis (Our Gods Wear Spandex), com título e capa provocativos, o autor Christopher Knowles, remonta parte da história dos comics, faz uma análise de arquétipos e super-heróis, a influência de mitos e religiões nos quadrinhos e a pesquisa cruza as vendas de HQ’s com determinados períodos históricos marcados por grandes eventos.

Christopher Knowles detectou que as vendas de gibis (pulps – gibis de baixo preço) durante a Quebra da Bolsa de Nova Iorque decolaram, e o conteúdo das histórias acompanhava o contexto social e econômico. Com o advento do new deal, os personagens lutavam contra inimigos que representavam as potências rivais e propagavam o modo de vida norte-americano.

Tal qual Knowles, durante minha pesquisa encontrei esse aumento nas vendas de revistas em quadrinhos durante a 2ª Guerra Mundial. Além disso, as capas desses quadrinhos ‘expressam a opinião’ dos americanos, condenam a ideologia do oponente, estereotipam os inimigos das frentes de batalha (chegando a ofender o povo dos países inimigos) e buscam manter a sociedade unida e coesa na defesa de seu país.

Nesse período é possível encontrar o Superman de capacete, com rifle cruzado no peito, “saltando de pára-quedas” junto com os soldados dos aliados em um front europeu. Vemos o Capitão Marvel esmurrando tropas e o território japonês tendo ao fundo o Monte Fuji. Ou, simplesmente, ‘dar um tapa na cara de um japa’ segundo a afirmação do homem de aço.

Mas os países do eixo ou de inspiração fascista (Portugal e Espanha) produziram seus quadrinhos. Durante a 2ª Guerra Mundial e durante os regimes de Franco e Salazar, foram aprovadas leis que impediam a importação de gibis dos EUA. Fato que impulsionou a indústria nacional de HQ’s da Alemanha, Espanha, Itália e Portugal, que se alinharam ideologicamente ao Estado e atuaram como mecanismo de propaganda. Na Itália o destaque são as histórias de Dick Fulmine, cujo personagem foi inspirado no boxeador e campeão mundial Primo Carnera (o mais alto e mais pesado campeão dos pesos-pesados, conhecido como ‘O Gigante de Sequals’). Fulmine era claramente racista, não resolvia seus problemas com a inteligência, resolvia através da força física distribuindo seus potentes socos.

As revistas de Dick Fulmine eram exportadas para Espanha, nas terras governadas por Franco ele virou Juan Centella. Apenas mudou o nome, o traço e o modus operandi do personagem permaneceram inalterados.

Com o fim da 2ª Guerra Mundial, após a partilha de territórios entres os Aliados, veio o cenário de Guerra Fria. Nos quadrinhos predominavam as temáticas futuristas e a ficção científica. Mesmo com histórias envolvendo espaçonaves e outros planetas, percebe-se o olhar sobre ‘inimigos em ascensão’. Por exemplo, nas HQ’s e no seriado de Flash Gordon o inimigo era o maldoso Ming, cujos trajes (e nome) são claramente inspirados na China, que entre 1949 a 1976 era governada por Mao Tse-Tung líder da Revolução Chinesa.

Em histórias em quadrinhos da Disney existe ‘um certo olhar’ sobre o Oriente Médio. Durante a Guerra do Golfo Pérsico em alguns gibis do Tio Patinhas ocorreram menções à miserável cidade de ‘Dagbá’, onde os habitantes são retratados como desonestos. Nada de anormal vindo de um dos símbolos do sistema capitalista.

Quando uma crise parecia se abater sobre o mercado dos quadrinhos ameaçando, inclusive, os grandes impérios de DC-Comics, Marvel e Vertigo, aconteceram os atentados de 11 de setembro e foi deflagrada a ‘Guerra ao Terror’ de George W(ar). Bush.

As bancas foram inundadas de gibis com os heróis lutando contra terroristas ou o ‘inimigo invisível e apátrida’. Os cinemas lotaram com as muitas adaptações das HQ’s para a telona. E quem puxou a fila e inaugurou esse novo nicho foi o “Homem-Aranha”, por conta da cena da teia montada entre as Torres Gêmeas e dos materiais promocionais excluídos por estarem presentes no reflexo da máscara o complexo do Word Trade Center.

Trato como um ‘nicho de mercado’ porque desde então foram produzidos filmes, seqüências e o retorno de personagens já esquecidos. Teremos em breve o retorno de ‘Os Vingadores’ e já foram prometidos os filmes do Capitão Marvel, Vespa e Ant-Man. O que pode ser previsto, é o lançamento de mais títulos por parte da DC-Comics (para concorrer com a Marvel) e, por que não, especular sobre um filme da Liga da Justiça lutando contra terroristas ou contra a Coréia do Norte?

Vale destacar que os quadrinhos já foram utilizados como ferramentas de reivindicações políticas e sociais. Como o caso dos Panteras Negras que lançaram um gibi beneficente, o Conspiracy Capers, com verba disponibilizada por Abbie Hofman (autor de Steel This Book). A venda da revista ajudaria na defesa dos líderes no Julgamento dos Nove de Chicago. Na mesma época, os estudantes da Universidade de Nanterre produziram revistas e pôsteres em quadrinhos para divulgar suas reivindicações e denunciar o autoritarismo de De Gaulle. Mais recentemente, os refugiados timorenses se utilizaram dos quadrinhos para divulgar as violações aos direitos humanos e a prática de genocídio pelo governo indonésio de Suharto.

Portanto, diante dessa perspectiva, podemos afirmar que um gibi, além de ser um suporte de mídia, é, também, um bem de exportação cultural (assim como seriados, filmes, etc.) por trazer em suas páginas as opiniões, impressões e posições políticas do país onde foi produzida. O escritor uruguayo Eduardo Galeano afirmara em As Veias Abertas da América Latina: “Há anjos que ainda crêem que todos os países terminam à beira de suas fronteiras”.

Assim como no plano econômico, a colônia exporta matéria-prima, e importa o produto acabado, no plano cultural, a colônia é material etnográfico que vive da importação do produto cultural fabricado no exterior. Importar o produto acabado é importar o Ser, a forma como encarna e reflete a cosmovisão daqueles que a produziram. Ao importar o cadillac, o chicletes, a coca-cola e o cinema, não importamos apenas objetos e mercadorias, mas também todo um complexo de valores e condutas que se acham implicados nesses produtos. (ORTIZ, Renato. A Moderna Tradição Brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1991, p.183)

Muitas vezes, sem nem mesmo perceber, somos expostos a uma cultura, a um conjunto de idéias ou a um estilo de vida. Seja no cinema, na televisão ou lendo um simples gibi impresso em papel jornal. Mesmo assim, buscamos nos quadrinhos uma mera distração, um refúgio, um alento. Mas eles podem servir para trazer uma palavra de conforto para nossos medos, temores e reivindicações.

Muito mais que uma revistinha ou uma versão reduzida de um livro sagrado, os quadrinhos são o lítio de uma sociedade ou o coquetel molotov de um movimento social organizado.

Anotação na Margem:

- Um bom exemplo de influência religiosa nas histórias em quadrinhos pode ser encontrado em Pietà de Michelangelo e na morte de Superman e na morte do Capitão Marvel;












- Não dá pra falar de quadrinhos sem indicar os clássicos como Maus de Art Spiegelman, 300, Sin City, Rōnin de Frank Miller, Watchmen, Lost Girls, V for Vendetta, From Hell de Alan Moore;

- Para quem quiser ser aprofundar no assunto, um bom ponto de partida são os livros: Desvendando os Quadrinhos (2004), Reinventando os Quadrinhos (2005) e Desenhando Quadrinhos (2007) de Scott McCloud, todos saíram pela editora M. Books;

- O grande autor Moacy Cirne em A Explosão Criativa dos Quadrinhos levanta as variadas possibilidades de abordagens críticas sobre os quadrinhos, tais como: O Fantasma é racista? O Recruta Zero é antimilitarista? Diante dessa perspectiva pode-se acrescentar: Patópolis é uma cidade racista, ou um modelo de sociedade baseada na superioridade de uma raça, uma vez que só existem patos brancos?

- O roteirista Mark Millar lançou em 2004 uma minissérie em três revistas, entitulada: “Superman – Entre a Foice e o Martelo”, lançada no Brasil pela Panini. Na minissérie, o foguete de que trouxe Kal-El de Krypton caiu na União Soviética, nos anos da Guerra Fria e o menino kryptoniano foi criado em uma fazenda coletiva sob os ideais stalinistas;

- Recentemente saíram títulos sobre música e política em formato de HQ: Che, uma Biografia de Kim Yong-Hwe pela Conrad Editora é em manhwa (quadrinho coreano). Pela Editora 8 Inverso saíram Castro, Elvis (em parceria com Titus Ackermann) e Johnny Cash – Uma Biografia, todos de  Reinhard Kleist;

- Da terra dos mangás não tem como não mencionar Buddha de Osamu Tezuka (criador do Astro Boy), lançado no Brasil pela Conrad Editora.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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