A luta de uma mãe contra um distúrbio, o preconceito e o descaso

Eu, M.A.D., conheci na sala de aula a Carla Cristina, mãe deste lindo menino da foto abaixo. Conversando com ela, fiquei sabendo um pouco d...

Eu, M.A.D., conheci na sala de aula a Carla Cristina, mãe deste lindo menino da foto abaixo. Conversando com ela, fiquei sabendo um pouco de sua luta contra a Dislalia e contra o descaso de alguns setores públicos e privados. Por isso publico uma carta de sua autoria, na tentativa de colaborar com o debate educacional sobre esse distúrbio e chamar a atenção de políticos, advogados, professores, crianças e mães que possam ajudar a compreender o que diz a lei brasileira (se é que diz) e o que acontece na prática.


Foto publicada no jornal Extra em 2009

"Cesar foi meu primeiro filho (tenho um casal), nasceu prematuro de 27 semanas, desde sua alta hospitalar, fui orientada a observar tudo em seu desenvolvimento (coordenação motora, visual, auditiva e fala). Quando chegou aos 2 anos, observei que era difícil compreender sua fala. Levei-o a uma fonoaudióloga, ela me disse que na sua idade era cedo para iniciar o tratamento, mas devido seu histórico de vida (usou durante 3 meses oxigênio), enfim poderíamos começar. 


Prosseguimos nossa jornada semanalmente: fono, exercícios com a orientação dela, realizados em casa. Matriculei-o em uma escola (Colégio Marechal Hermes), lá ele era muito bem assessorado, assistido. Na época, duas coordenadoras, Mariângela e Mônica, deram ao meu filho, além de educação, carinho e cooperação. Mas o colégio foi vendido, elas saíram e resolvi matriculá-lo no colégio Santa Mônica, em Bento Ribeiro. Fui ao colégio e antes da matrícula, conversei sobre ele, levei relatório da fono no qual constava que ele possuía uma disfunção fonoaudiológica (DISLALIA), fazendo com que a criança distorça fonemas, escreva como fale. Foi feito um teste para verificar em qual série ele poderia iniciar seus estudos. Ali puderam detectar o que havia informado. Disseram-me (psicologa, coordenadora, direção) assim: "não, mãezinha, se ele souber o conteúdo (das matérias), ele não será prejudicado (nas notas)". Fiquei, mediante estas palavras, tranquilizada. Mas veio o 1º bimestre e meu filho teve muitos pontos descontados por todos os seus erros ortográficos.

     Iniciou-se, naquele momento, minha luta. Dirigi-me até a professora, questionando-a pelo ocorrido e ouvi as palavras mais dolorosas, injustas e preconceituosas de minha vida: "mãezinha, se eu der certo nos erros ortográficos do Cesar, ele írá ser o melhor da turma e ele não pode, porque ele não fala certinho".
     
     Perplexa, não acreditando no que ouvi e movida por tamanha revolta, dor e desespero, respondi. 
- Não exijo, professora, nunca, de meus filhos, a obrigatoriedade de serem os melhores da turma. Não os crio com tamanha pressão; cobro sim que sejam bons, mas se meu filho foi, ninguém irá tirá-lo deste direito.

     No mesmo momento, fui a diretora e a coordenadora (as mesmas com quem conversei na matrícula) e ouvi: "Carla, não podemos alterar o método de avaliação do colégio por causa do seu filho" e que não poderiam dar certo em uma palavra que estava incorreta. Questionei se o conteúdo estava correto, por exemplo, para "au, au "  a resposta de Cesar foi "lacido de um cajoro" (latido de um cachorro, visto que o erro de ortografia era em função da DISLALIA).

     Disse a elas que colocassem a grafia correta ao lado para que ele visualiza-se, mas tirar-lhe o ponto era injusto. Mostrei a elas os cadernos de Cesar, mesmo ele copiando a matéria do quadro, escrita pela professora, ele copiava da maneira que falava; mesmo visualizando o certo, seu cérebro trabalhava desta maneira. Como poderia responder certos fonemas corretos, se ainda não conseguia articulá-los?

 Foram afirmações em vão. Disseram-me que meu filho é que tinha que se incluir na escola e não o contrário, que somente mudariam suas notas caso "o homem do martelo" (juiz) mandasse. A questão é que não existe uma lei específica para este caso. Cesar não tinha que ser incluído. A escola é que deveria adequar-se a ele, considerando sempre suas dificuldades da língua. Ele, na verdade, estava sendo excluído, passou a ficar constrangido, a alegria que tinha, quando conseguia emitir um som "impossível" para ele, depois de tantas tentativas, se perdeu, já não existia mais. Certa vez disse-me que era "burro", por mais que evitássemos falar sobre o assunto próximo a ele, já tinha noção do que estava acontecendo.

     Naquele dia, ao ir embora da escola, meu coração estava em pedaços. As lágrimas caíam e não conseguia contê-las. Relembrava meu filho desde o nascimento, sua luta para sobreviver, o crescimento. Para engatinhar e andar, fisioterapeutas vinham até minha casa para ajudá-lo. Depois a fala, sua força de vontade para superar todas as dificuldades e conseguir romper pilastras, (não digo nem barreiras, seria pouco para meu filho), se tornar um bom aluno, adquirir conhecimentos, aprender conceitos. Onde fica seu mérito, depois de tantos esforços?

     Enxuguei as lagrimas e fui lutar por meu filho, era minha obrigação como mãe e professora, para demonstrar para essas pessoas que educação não se faz desta forma e que o ser humano, independente de idade, raça, religião, nivel social, deve ter respeito; e educação é para todos, é para ser executada na prática semanticamente em sua essência, em qualquer circunstância, dificuldade. Para ser um educador, deve-se amar a educação, como tudo que realizamos em nossas vidas. Quando decidimos ser educadores, temos consciência que no pais que vivemos nem sempre somos bem remunerados, mas escolhemos por prazer, amor, carinho.

     Educar, para mim, é não somente nas escolas, mas na vida, diariamente. Se levássemos este conceito em consideração sempre, nosso país seria bem melhor. Não que eu seja dona da razão, tenho fraquezas, cometo erros, não sou e não me considero perfeita, mas pensar e agir desta meneira, vai além de meus conceitos, é o correto agir com justiça, caráter e dignidade. Na época, fui ao conselho tutelar, chamaram a professora, mas não tomaram nenhuma atitude, queriam que meu filho fosse a uma fonoaudióloga do governo, mas ele já estava em tratamento. Na CRE (Coordenadoria Regional de Educação), no Méier , abri um processo interno, mas também ficou por isso mesmo (não existe lei). 

     Por último, fui ao dono da rede Santa Mônica,  Sr. Albano Parente, em sua sala. Nos primeiros instantes, ao entrar, perguntou-me "onde a senhora deseja chegar?". Respondi: "o que o Sr. achou da opinião de sua professora?" Ele respondeu-me: "ela foi infeliz com suas palavras, mas não está errada". Eu disse: "irei responder a sua pergunta, o que eu quero é justiça e não irei desistir" e fui embora. 

     Fui a um advogado, mas não tive condições financeiras de ir a justiça, mas estava decidida, caso continuassem com os mesmos critérios de avaliação, venderia o que tivesse dentro de minha casa e iria entrar com um processo judicialmente. Sabia que não existia nenhuma lei específica para o problema, mas iria pedir, implorar ao juiz, que tivesse sensibilidade e ajudasse meu filho. 

     Nas provas seguintes não mais lhe descontaram pontos, mas não reconsideraram as provas anteriores. Refleti e comecei a me questionar: como ficariam aquelas crianças cujos responsáveis não possuem informação sobre o problema? As que possuem problemas ortográficos devido a problemas de fono e não fazem tratamento? Os professores que não estão atentos e acabam cometendo injustiças? O governo que não informa, detecta e trata estas crianças? Fazem-se tantas leis desnecessárias e as que fazem falta ao povo não são criadas. 

     Em fevereiro de 2008, consegui ser ouvida pelo então presidente da Alerj, Jorge Picciani. Ele me disse que estava muito sensibilizado com meu relato e que as melhores leis nasciam de experiência do povo, como a minha, e que na Alerj existia uma comissão de educação, presidida pelo deputado Contte  Bittencourt, e que por coincidência iria jantar com ele naquela noite e iria lhe pedir que marcasse uma reunião com a comissão para falarmos sobre o assunto. Passaram-se algumas semanas e não tinha retorno. Então entrei em contato com o gabinete do presidente e sua secretária me informou que ele estava muito ocupado, resolvendo problemas relacionados com os deputados que tinham funcionários fantasmas e que depois entraria em contato. Até hoje o Sr. Picciani não entrou em contato comigo. Gostaria de saber como esta sua sensibilidade hoje sobre o assunto? 

     Marquei uma audiência com o deputado Contte Bittencourt, fui recebida por sua assessora, Marilda, que me demostrou a mesma sensibilidade do Picciani, dizendo que logo  entraria em contato. Passaram-se meses e nada sendo marcado ou feito. Nossas crianças sendo tratadas daquela maneira era cruel, mas real. 

     Sem conhecer ninguém, com a cara e a coragem, liguei para o jornal Extra. Octávio Guedes, editor do jornal, disse-me que iria publicar uma matéria, que foi publicada no dia 04/01/2009 e foi redigida pela jornalista Patrícia Sá Rego. Não tenho palavras para explicar e agradecer a estes profissionais que foram de tamanha sensibilidade. Recebi e-mails de pessoas que se identificaram com a matéria e estavam comigo nesta luta! A emoção tomou conta de mim.

     Domingo, dia 15/03/2009, foi publicada outra matéria no jornal Meia Hora, para continuarmos informando à população. Estive no Conselho Estadual de Educação e lá me informaram que o Estado possui pessoas qualificadas para qualquer criança especial ser tratada, que existe informação, qualificação, etc. Deram-me uma deliberação que fala sobre crianças especiais, cita disfunções, (não especificamente fonoaudiológicas, como quero). Enfim, o Estado é competente, mais que as escolas particulares, eles não possuem noção de como agir. Sabemos que não é funcional desta maneira, as escolas não possuem professores, muitas vezes falta merenda , o ensino cada vez mais sem qualidade e por aí vai...

     Minha amiga leciona em Duque de Caxias e me disse que você liga para este setor tão bem preparado para atender estas crianças e nunca tem vaga, não existe informação aos pais sobre o assunto. Ela tem um aluno com 10 anos, com muitos erros ortográficos. Ela conversou com a avó para levá-lo a uma fonoaudióloga e ela nem sabia do que se tratava. A criança tem 10 anos e se realmente for detectado algum problema fonoaudiológico, quantas dificuldades ele pode ter passado ao longo destes anos? Quanto tempo levará para ela superar os problemas e o quanto irá prejudica-lá em seu futuro? Será que esta minha amiga, se não conhecesse minha história, também iria se atentar? E eu se não fosse orientada pelos médicos desde o nascimento de meu filho, iria também ter conhecimento de problemas fonoaudiológicos?

     São vários problemas que me levam a lutar por uma lei que ofereça respaldo legal para estas crianças em questão, não somente na avaliação diferenciada, mas também no que diz respeito à obrigação dos governantes de informar, detectar, cuidar e superar.   

     Depois da matéria do jornal Extra, enviei um e-mail para o Contte Bittencourt, com minha revolta com o descaso dele e da assessoria do Picciani. Disse-lhe que tinha vergonha dos deputados do meu estado, que era lamentável ver a casa onde se deveria criar leis para beneficiar o povo (ALERJ) ser presidida por um demagogo insensível. Que ele e todos os outros deputados, incluindo o Picciani, poderiam se fazer de cegos, surdos e mudos, que eu iria ignorar tudo isso e iria continuar lutando. Agora não estava mais sozinha, não era mais "eu" e sim "NÓS", todas as crianças e pessoas que possuam ou não problemas, mas clamam por educação, justiça, direito e ser respeitado por isto. 

     Tenho certeza que este velho ditado "a união faz a força" pode realmente se fazer valer, basta nos unirmos, deletarmos dos pensamentos que não adianta desejar fazer algo bom, porque virá um outro para tentar impedir, com descaso, ignorância, desumanidade. Temos é que desejar do fundo mesmo do coração, termos esperança, assim superamos todos os obstáculos. Temos que cobrar destes politicos o que eles têm por obrigação de seus cargos fazer em prol do povo. 

     Não poderia acontecer de um cidadão, que sustenta estes políticos, desejar falar com um deles e ser atendido por um assessor: não votei nele e sim no deputado eleito. Um deputado não ter tempo de retornar, para dar satisfação de uma solução para problemas? Não importa se são ocupados, porque se ocupam com problemas em prol de si mesmos, pois faz parte de suas funções atender o povo.

     Diante deste e-mail, a tal assessora Marilda me ligou pedindo desculpas (por mim não aceitas), dizendo-me que eles possuem tantos problemas sérios que o meu caiu no esquecimento. Eu disse a ela que este problema não era meu e sim de todos e que não tinha menos seriedade do que outros, como ela acreditava.

   Disse-me que iria marcar uma audiência pública na ALERJ e que iria combinar comigo. Estou aguardando até hoje. 

     Atenciosamente, 

CARLA CRISTINA"



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