09/10/2011

A mídia, os objetos fóbicos e a indumentária do medo


Grandes ditadores chegaram ao poder devido às políticas de comunicação, satanizando algo ou algum grupo. Hitler calcou sua propaganda no juden komplot (o complô judeu para dominação mundial) que culminou com as políticas de segregação e com o holocausto. Os golpistas de 64 basearam sua comunicação no ‘ouro de Moscow’, no perigo comunista e da ditadura ‘dos ateus totalitários e comedores de criancinhas’ e iniciaram o banho de sangue e loucura dos anos de chumbo. Nos EEUU, George W(ar) Bush manipulava os níveis de alerta de ataque para induzir o medo aos cidadãos estadunidenses.

É plenamente correto afirmar que o povo se reúne em torno do líder que aponta um culpado ou algo a ser temido, o famoso bode expiatório ou objeto fóbico da teoria freudiana. Destaco três autores que afirmaram isso: Psicologia das Massas e Análise do Eu de Freud, Massa e Poder de Elias Canetti, A Rebelião das Massas de José Ortega y Gasset.

Trata-se da indumentária do medo: seja pelo assustador, bizarro, escatológico ou mera curiosidade mórbida, o ser humano vê coisas sabendo que irão causar medo. Na biografia de Ozzy Osbourne tem uma passagem interessante, quando o madman explica o porquê do Black Sabbath adotar o heavy metal e as letras e arranjos sombrios. Ozzy e os integrantes da banda perceberam que próximo ao local de ensaios e de shows havia uma sala de cinema que só exibia filmes de terror. Além disso, eles perceberam que a sala lotava mais que os shows da banda. Ora, se as pessoas pagam para sentir medo, o Black Sabbath deveria oferecer o mesmo.

Mas e o Brasil?

No Brasil, os debates sobre temas pertinentes à sociedade não devem ser encampados por movimentos sociais em manifestações em Brasília, pois logo serão desacreditados e taxados com algum rótulo.

Os temas devem partir (ou atingir) da ‘aristocracia’, devem aparecer em novelas e no noticiário elitista: desse modo o debate é mais ‘limpinho’.

Foi o caso do desarmamento, onde inclusive foi organizada uma passeata no RJ com os personagens da novela Mulheres Apaixonadas (em vez dos atores). Tempos depois, às vésperas do referendo do desarmamento, Fernanda Lima foi a garota-propaganda pró-desarmamento em “Bang Bang”. A novela era ambientada no faroeste, o enredo era de filmes western e Fernanda Lima interpretava uma cowgirl que não usava armas (?) e desarmava os adversários com chutes e chaves de braço.

O caso Caffé e Friedenbach (óbvio, não excluindo a gravidade e a barbárie) foi um crime cujo protagonista escolhido pela mídia era menor de idade. Menos de uma semana depois de tanto os ‘formadores de opinião’ (o casal 45 também) bateram na mesma tecla, em Brasília se discutia a redução da maioridade penal.

Mas, todos os dias quantas pessoas que não são membros da classe média alta, morrem pelas mãos de menores infratores e nem viram notícia?

Contudo, o ‘Massacre do Realengo’ foi o ápice dos objetos fóbicos apontados pela mídia. Primeiro, os ‘especialistas’ de plantão culparam os árabes. Depois, foram os portadores de Aids. Nenhum foi capaz de mencionar o Efeito Werther ou Copycat.

Outro fenômeno brasileiro é a relação entre mídia X política X licitações. Por exemplo, sediaremos a Copa do Mundo e Olimpíadas, um político poderá propor uma lei (só para aparecer) onde obriga todos os prédios públicos a disporem de detectores de armas. A justificativa será a segurança dos eventos. O precedente poderá ser o ‘Massacre do Realengo’, pois ocorreu em uma escola pública.

Mas o embasbacante seria o resultado, como a proposta seria apresentada às vésperas do evento, a licitação seria jogada no lixo porque “só uma empresa será capaz de cumprir o prazo por rápida e notória especialização”.

A mídia brasileira sobrevive apontando objetos fóbicos, cometendo ‘violência simbólica’ e induzindo medo à sua audiência. Proponho uma reflexão, qual é o primeiro pensamento que vem à sua cabeça:

Jihad.

Guerra Santa contra os infiéis?

Não, jihad é esforço.

Mensalão?

Pois é!

Corrupção?

Pois é!

Manipulação?

Então!

Plim-Plim!

Anotação na Margem:
- Violência simbólica é um conceito de Pierre Bourdieu, criticado por Jürgen Habermas que diz que violência equivale à agressão física, exterior ao simbólico. Mas a crítica de Habermas se restringe ao ato físico, ignorando questões como bullying, preconceitos raciais e de gênero;
- O Copycat ou Efeito Werther tem origem no romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther.

- As manifestações em Wall Street, além de demorarem a surgir no noticiário, foram desacreditadas pelas organizações Marinho.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones


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