31/10/2011

O futebol e a política - Parte 1


Que o futebol se tornou sinônimo de escândalos de corrupção, maracutaias, falcatruas, manipulação de resultados e politicagem (pra dizer o mínimo), não é mais novidade para ninguém. Mas o que poucos sabem é que existe outro lado. Uma voz rouca e em uníssono contra os ladrões do esporte das massas surgiu nas arquibancadas européias, trata-se do movimento Contra o Futebol Moderno.




Na Europa, a relação entre política e futebol também é ideológica. Sendo muito comum encontrar símbolos em faixas, bandeiras e estandartes.

No entanto, é na Itália que acontece o ápice da politização do futebol, o Clássico Político (Livorno X Lazio). Tratado pelas autoridades como ‘espetáculo de extremo risco’.

 Contrariando a lógica da rivalidade geográfica, ambos são rivais ideológicos. De um lado o futebol operário da A.S. Livorno que congrega torcedores socialistas e comunistas. No outro lado, o time de coração de Benito Mussolini, com um grupo Ultra assumidamente de extrema-direita. E, ainda hoje, a Lazio é considerada como um dos times mais racistas do mundo. Em 1998, a sua torcida chocou o mundo quando exibiram uma faixa anti-semita com os dizeres: “Auschwitz vossa pátria, os fornos vossas casas!”

O lado curioso da rivalidade Livorno-Lazio é que ela possui elementos antagônicos perfeitos, além das ideologias.

O maior jogador da história da Lazio, o atacante Paolo Di Canio, é torcedor confesso do time, pertenceu ao grupo de fundadores dos Irriducibili (Ultras de extrema-direita da Lazio) e é fascista convicto (sendo comuns suas comemorações de gols fazendo a saudação facha).

Já no clube toscano, o craque Cristiano Lucarelli é torcedor fanático da A.S. Livorno, fundou em 1999 a Brigate Autonome Livornesi 99 (BAL99, Ultras de esquerda e extrema-esquerda da A.S. Livorno) e é comunista. Lucarelli, em todos os clubes que joga, usa o número 99 e comemora seus gols com a saudação do punho cerrado. Em um jogo pela seleção italiana, Cristiano Lucarelli marcou um gol e na comemoração exibiu uma camisa da BAL99 com a imagem de Che Guevara, ‘coincidentemente’ foi sua última convocação para azzurra. 

Os cânticos dos grupos ultras são formados por antigos hinos fascistas e anarco/comunistas, porém a agressividade de outros cânticos denota a seriedade deste jogo e justifica a ampliação da segurança na cidade do mandante. Por exemplo, se os laziali entoam o cântico ‘Se saltelli, muore Lucarelli’ (Se pular, morre Lucarelli), os livornesi respondem com ‘Paolo Di Canio a testa in giù’ (‘Paolo Di Canio de cabeça para baixo) em alusão a exibição do corpo de Mussolini nesta posição em praça pública.



Mas nem tudo são tensões.

Em 2009, o Contra o Futebol Moderno e os movimentos esquerdistas ligados ao futebol europeu tiveram uma importante vitória. Na época a A.S. Livorno disputava pela primeira vez a Série A e recebeu um inusitado convite para um amistoso contra um time da 3ª divisão turca, o Adana Demirspor.

O Adana Demirspor é um clube de raízes operárias da cidade de Adana fortemente identificado com a esquerda, sua semelhança com a A.S Livorno vai além das origens, também é comum encontrar nas arquibancadas bandeiras de Cuba, União Soviética e estandartes com a face de Che Guevara.

A chegada da delegação italiana a Adana foi apoteótica, os livornesi foram recebidos com o ‘Bella Ciao’, gritos de ‘Forza Livorno’ e faixas de boas-vindas e outras sinalizando laços de fraternidade solidária entre os dois clubes.


Em 6 de setembro de 2009, Livorno e Adana Demirspor protagonizaram um espetáculo único, as torcidas do Adana Demirspor e da AS Livorno estiveram juntas na curva atrás da goleira com suas bandeiras,  cantando o Bella Ciao; o estádio inteiro celebrou o nome do time visitante e a torcida do time turco utilizou sinalizadores para iluminar o estádio com as cores do Livorno (vermelho e dourado). Foi um belo espetáculo de solidariedade, fraternidade e união contra o futebol corrupto e elitista. O placar final foi 0X0.


Enquanto o futebol e suas entidades não passarem por uma reforma, o grito rouco do Contra o Futebol Moderno estará presente junto com a política.


O que ainda é bonito de ver é que mesmo com derrotas em campo a paixão nunca se perde, nunca acaba. Mas vejo o avanço do futebol-negócio a passos largos. Há muito tempo o ‘ópio do povo’ virou uma indústria corrupta e lucrativa nas mãos dos traficantes suíços e das confederações e deixou de ser um esporte das massas.

Sou Contra o Futebol Moderno.

Anotação na Margem:


- O filho de Benito Mussolini, Bruno, foi presidente da Lazio;

- O antigo Partido Comunista Italiano (PCI) foi fundado em Livorno, em 1921;


- Durante o XVII Congresso Socialista acontecido no Teatro Goldoni, em Livorno, a corrente de extrema-esquerda do Partido Socialista Italiano, liderada por Amadeo Bordiga, Nicola Bombacci e Antonio Gramsci, abandonou a sala e convocou o congresso de fundação do Partido Comunista Italiano. O episódio ficou conhecido como a Cisão de Livorno;

- O Teatro San Marco, local da fundação do PCI, foi destruído em um bombardeio durante a 2ª Guerra Mundial. Atualmente, resta sua fachada e uma placa sinalizando sua importância para a política italiana;

- As cidades de Livorno (Itália) e Adana (Turquia) se tornaram cidades-irmãs;

- No Brasil, temos como exemplo de torcida politizada a Ultras Resistência Coral, do Ferroviário Atlético Clube – CE e sua clássica faixa: NEM GUERRA ENTRE TORCIDAS,
NEM PAZ ENTRE CLASSES!
http://resistenciacoral.vilabol.uol.com.br/

- Texto escrito ao som do álbum ‘Baldi e Fieri’ da Banda Bassotti.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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