01/11/2011

A ingerência midiática no Brasil e o exemplo argentino

Escrito por @alexhaubrich
A arrogância da mídia hegemônica parece não ter limites. E acaba respaldada a cada situação em que o poder estatal cede ao poder de fato representado pelo aparato da mídia corporativa, cede à pressão dos grupos econômicos que controlam a comunicação brasileira. Esta última semana trouxe dois exemplos que, ao mesmo tempo em que se encaixam com perfeição, se distanciam. A vitória de Cristina Kirchner na eleição presidencial argentina, e a queda do agora ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB).

Cristina se reelegeu com o melhor resultado que o chamado “kirchnerismo” (que inclui as presidências de Nestor Kirchner) já obteve. E isso após criar a Ley de Medios, que tem lutado contra o monopólio do Grupo Clarín na comunicação argentina. Cristina fez toda sua campanha sem falar com os veículos do Grupo. O principal deles, o jornal Clarín, publicou, nos últimos 15 meses, 347 manchetes negativas sobre a presidenta, segundo levantamento de outro jornal, o Tiempo Argentino. Com a vitória do kirchnerismo, o processo de democratização da mídia argentina deve se aprofundar, com a regulamentação e a aplicação dos últimos artigos da Ley de Medios.

É claro que a mídia brasileira tem acompanhado com atenção os acontecimentos logo ao lado. A mídia independente, de modo geral, pede para o Brasil uma lei nos moldes da argentina. Por outro lado, a velha mídia treme, e não perde oportunidades de atacar Cristina. Em sua prepotência, já afirmou mais de uma vez que a derrocada do kirchnerismo e de todos os atuais governos progressistas da América Latina estava próxima.

Em 27 de outubro de 2010, quando da morte de Nestor, a jornalista política Miriam Leitão, uma das estrelas da mídia hegemônica, decretou em seu blog: “Assim, dividida, fragmentada, em delicado momento político, a Argentina perde o ex-presidente que a tirou da última e devastadora crise de 2001/2002. Sem ele, acaba o Kirchnerismo”. Mais de dois anos antes, em 17 de julho de 2008, outro nome forte da direita midiática brasileira, William Waack, escreveu sobre uma derrota do então presidente Nestor no parlamento: “Derrota do governo sinaliza o fim do kirchnerismo na Argentina”.

Para esse setor da imprensa brasileira, o kirchnerismo já deveria ter acabado uma dúzia de vezes. Mas o governo soberano da Argentina, que não faz acordos ou concessões aos grandes meios de comunicação, sobreviveu e segue se fortalecendo a cada eleição. A visão da mídia dominante brasileira sobre si mesma, como dona do passado, do presente e do futuro, não existe sem motivo. Ao contrário do governo argentino, o brasileiro segue legitimando e obedecendo as oito famílias que controlam a comunicação no país.

Esta semana, mais uma vez, o governo federal cedeu às pressões, deixou os conglomerados de mídia definirem os rumos do país, e derrubou mais um ministro, agora Orlando Silva, dos Esportes. É o sexto ministro a sair em menos de onze meses de governo. Cinco deles estiveram também no ministério de Lula. A estratégia é clara: minar Dilma e o PT frente à população, enfraquecer a militância e dividir as forças governistas.

Depois de passar toda sua campanha presidencial sofrendo com ataques da Folha de S. Paulo, Dilma Rousseff discursou no aniversário do jornalão paulista. Depois de ser atacada pela Rede Globo durante toda a campanha, correu ao Jornal Nacional, alavancar a audiência de quem foi o principal partícipe midiático da famosa “farsa da bolinha”. Com um início de governo assim, não se poderia esperar muito. As concessões ao poder da grande mídia se sucedem, e vivemos um momento de avanço midiático sobre o poder estatal, que se curva amedrontado e adoentado. Cristina Kirchner já mostrou que se pode fazer diferente. Trata-se de uma opção política.

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