17/11/2011

O futebol e a política - Parte 2

Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S.Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S. Livorno, prossegue a viagem pelo outro lado da relação entre futebol e política.


Por  Diego Pignones

A Espanha tem inúmeras questões políticas ainda não resolvidas e elas aparecem no futebol. Principalmente nos jogos entre Barcelona (catalão) X Real Madrid, Athletic Bilbao (basco) X Real Madrid, Sevilla (andaluz) X Real Madrid, ou seja, todos contra os madrileños.

O ‘ódio’ contra os madrileños se deve ao fato de o general-ditador Francisco Franco ter sido torcedor do Real Madrid e o governo ditatorial incentivou a população espanhola a adotar o time. Porque desse modo, o povo estaria mais ‘homogêneo’ e deixaria de lado as questões étnicas (processo semelhante ao ocorrido durante a ditadura militar brasileira com Santos e Flamengo).

Quando Franco iniciou sua política de perseguição e arrocho salarial contra a classe trabalhadora, a resistência de um bairro de Madrid foi determinante, tanto no futebol quanto na política. O bairro operário de Vallecas se tornou um enclave anti-franquista, os moradores se tornaram combativos, os movimentos lá presentes foram mais à esquerda e o Estádio Campo de Fútbol de Vallecas foi utilizado como local de manifestações. Além disso, tal qual os anarquistas argentinos de la Boca, anarquistas vallecanos declararam a Republica de Vallekas (grafado com ‘K’ para demonstrar a cisão com o Estado ditatorial espanhol e com brasão anarquista ‘VK’).

Por conta de seu histórico, Vallecas sofre com o ‘assédio’ dos grupos de extrema-direita espanhóis que vêem o bairro como ‘um território a ser conquistado’. Sendo comum o fato de as passeatas neonazistas passarem pelo bairro. Porém, os moradores denunciam a presença de policiais entre os neonazistas em passeatas pelo bairro.


Nas arquibancadas do Rayo pode ser encontrada, em meio ao estandarte de Guevara, a bandeira civil da Segunda República espanhola (pós-monarquia e pré-Franco) empunhada pelas tropas da Resistência durante a Guerra Civil Espanhola. Um sinal claro de ruptura com o Estado. O passado político de Vallecas ainda se faz presente dentro das quatro linhas, no clube de futebol do bairro, o Rayo Vallecano e em seus grupos ultras. O principal deles, o Bukaneros’92, tem o slogan ‘Contra el Racismo, la Represión y el Fútbol Negocio’ e o simpático cântico libertário de chamamento ‘A Las Armas’.

 

O clube não possui a antipatia dos espanhóis como o Real Madrid, é bem recebido pelos adversários, porém quando o jogo é contra o time de Franco, aí o bicho pega.



Rayo Vallecano X Real Madrid é um clássico de risco extremo, pois, ao contrário de Livorno X Lazio, reúne a rivalidade geográfica à rivalidade política. E não são raros os confrontos entre Bukaneros’92 (Rayo) e Ultra Sur (fascistas) do Real Madrid. Contudo, vê-se também a truculência e o abuso dos policiais contra os torcedores do Rayo Vallecano e sua conivência com neonazistas.



Com o aumento dos escândalos de corrupção envolvendo o futebol e suas organizações aliado a crescente da extrema-direita e da xenofobia na Europa, Vallecas ainda é um enclave da resistência Contra o Futebol Moderno e antifascista.

Que os ventos longínquos tragam o grito rouco e libertário de Vallekas ao Brasil em 2014.

Força Vallekas, orgullo obrero!

Anotação na Margem:

- O bairro de Vallekas possui também a alcunha de ‘Barrio Obrero’ (bairro trabalhador);

banda Ska-P
- Na década de 70, quando o Rayo Vallecano disputava a primeira divisão, o clube ganhou o apelido de Matagigantes devido às vitórias sobre os grandes clubes espanhóis;

- Entre os vallecanos ilustres destacam-se a banda Ska-P que gravou ‘Rayo Vallecano’, música que homenageia o clube e ‘Como um Rayo’, música em homenagem aos torcedores do Rayo;



 



- Em http://www.vallecasbombardeada.org  pode-se conhecer a história de Vallecas durante a Guerra Civil e ver a crueldade de Franco ao requisitar ajuda das Forças Aéreas de Itália e Alemanha contra um bairro;

Ayúdanos a recuperar la memoria vallecana from URIAFER on Vimeo.

- Texto escrito ao som do álbum ‘Payola’ da Berri Txarrak.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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