19/11/2011

Outra visão - Os belos contra Belo Monte

Publicado no Portal Terra por Marcelo Carneiro da Cunha*

Pois estimados leitores cá estamos, dependendo de onde estamos. Se estivermos em São Paulo, por exemplo, podemos aproveitar das maravilhas da Balada Literária, a criação do Marcelino Freire para mostrar que evento de literatura pode, sim, pode, ser muito legal, ter altíssima qualidade, e, ora vejam, ser grátis. Basta querer que todo mundo que queira entrar entre, não é mesmo?

E entre um momento e outro da Balada cá estava eu, ciscando no Tuiti e pronto, fui atingido por um vídeo gravado por muitos atores globais baixando o cacete na hidrelétrica de Belo Monte, garantindo que ela é o mal sobre a Terra, o exu, o capeta, o diabo em sua versão mais úmida, e eu me pergunto, como eles sabem de tudo isso? E mais, por que o vídeo deles é igual a um americano, dirigido pelo Spielberg para fazer os americanos tirarem a bunda do sofazão e irem votar?

Por que atores globais fizeram um vídeo contra? Eu não tenho nada contra atores globais, fora o sotaque e a mania de fazerem teatro comercial, mas não tenho nada a favor. Pra mim, são tão ignorantes em assuntos de represas no Pará como quase todo mundo com quem eu falei antes de escrever essa coluna, se bem que, admitamos, muito mais fotogênicos. Mas, mesmo sendo pra lá de mais bonitos e reconhecíveis do que eu ou o senhor aqui ao lado, eles falam tanta besteira quanto qualquer um, e isso me irrita. Energia eólica é mais limpa? Alguém já viu um parque eólico, que por demandar vento costuma ficar no litoral, onde também ficam as praias? Importante, necessário, talvez melhor, mas, limpo? Defina limpeza aí, seu global, porque eu talvez ache uma represa cheia de água no meio de uma floresta cheia de água algo mais natural do que cataventos altíssimos transformando por completo uma paisagem que antes era perfeita. Solar? Estimado espécime global, sua senhoria faz idéia da área necessária para produzir 100 megawatts de energia solar? Eu sei, e é um monte de área, que não vai servir para mais nada, montes de recursos, dinheiro pra caramba, e ainda temos os enormes custos de manutenção. Belo Monte são 11 mil megawatts, senhor ou senhora global. Faça as contas antes de vir ler texto dado por sei lá quem, e talvez eu realmente leve a sério o que dizem, o que o senhor ou senhora talvez mereçam, desde que trabalhem para isso.

Os bonitinhos dizem que Belo Monte vai criar um baita lago e afogar a floresta. Eu, feinho, fui estudar. O lago da represa vai ocupar uma área de 516 km2, me informa o Google. O mesmo Google me diz que o estado do Pará possui uma área de 1.247.689,515 km2. O que deve querer dizer que o lago a ser formado vai ocupar uma área equivalente a 1/2400 da área do estado do Pará, que por sua vez é um estado com 7 milhões de habitantes, com dois milhões deles morando em Belém e todos participando do Círio de Nazaré, pelo que vejo. Ou seja, uma represa vai alagar uma área de 1/2400, ou nada por cento, de um estado basicamente vazio e isso se torna um problema por que mesmo? Não dêem texto, provem. Do jeito que vocês falam, encenando, eu não tomo como sério o que é dito. A moça vem e diz "24 bilhões" e soa como o Dr. Evil falando "One billion dollars" com o dedinho na boca. Dona, diga aí qual é o PIB brasileiro em 2010, e quantos por cento do nosso PIB, a nossa riqueza nacional, a hidrelétrica vai custar, diluída por 50 anos? Vosmecê sabe? Ó aqui a minha boquinha enquanto ela diz, assim: D-U-V-I-D-O.

Leitores, me irrita, e muito, essa tentativa de fazer a minha cabeça por processos tão rudimentares. Se querem, mandem coisa melhor e terão toda a minha atenção. Isso aí é manipulação tola, boba, mesmo que muito bem intencionada. Isso tem cara de ONG que consegue apoio de um publicitário bonzinho e muita gente bacana e vamos lá, salvar as baleias do Xingu. Pois me irrita pra caramba, pelo desrespeito para comigo, que vivo no mundo real, não dos comerciais sejam eles do governo ou de ONGs. Eu não sou uma baleia, acho.

Eu vivo em uma sociedade industrial, que pode abrir mão de muitas coisas e do bom senso quase o tempo inteiro, mas não resiste a umas poucas horas sem energia. Vira gelo, sem gelo pro uísque. Vira fogo sem ar condicionado para resolver a vida na fornalha. Vira uma luta pelo pedaço de pão mais próximo, vira a impossibilidade de chegar até a nossa casa. Podemos ficar sem quase tudo, e eu poderia ficar muito bem sem axé, o Malafaia e a lasanha congelada, mas não podemos ficar sem energia. Podemos e devemos economizar energia. Podemos e devemos desenvolver energias renováveis, e o faremos. Podemos e devemos esquecer a maluquice de construir Angras 3, 4 o escambau, mas não o faremos. Angra 3 ou 4 são muito, muito piores do que qualquer Belo Monte e certamente piores do que Fukushima, especialmente se ficarem no Rio, que, digamos, não é o Japão.

Mas para chegarmos até as novas energias, precisamos de energia da que se produz agora e o resto é, infelizmente, poesia. Não a qualquer custo, mas a custos que valha a pena pagar. E essa avaliação tem que ser muito, mas muito racional e justa do que eu vejo nos youtubes que vêm e vão.

Se vamos escapar do fogo ou do gelo, é pela inteligência, como sempre foi e será. E desse debate, por tudo que eu vi, ela está longe, muito longe, muito mais longe do que o Pará, e muito menos inteligente do que precisa ser para ser.

* Marcelo Carneiro da Cunha é escritor e jornalista. Escreveu o argumento do curta-metragem "O Branco", premiado em Berlim e outros importantes festivais. Entre outros, publicou o livro de contos "Simples" e o romance "O Nosso Juiz", pela editora Record. Acaba de escrever o romance "Depois do Sexo", que foi publicado em junho pela Record. Dois longas-metragens estão sendo produzidos a partir de seus romances "Insônia" e "Antes que o Mundo Acabe", publicados pela editora Projeto.



14 comentários:

  1. Este texto é ótimo pra levantar o debate de uma série de questões. Um jornalista, donos de blog, deve mesmo publicar várias visões a respeito de um mesmo assunto. O debate leva à compreenssão e contrução de crítica. Viva Sócrates. O filósofo, não o jogador. Rs..

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  2. Prezado amigo, como achei essa obra mais um descalabro do Governo, tentando, além de tudo o que é dito no vídeo, empurrar goela abaixo mais uma "continha" de R$ 30.000.000.000,00, postei também no meu blog.
    Forte abraço,
    Luiz
    opinardireito.blogspot.com

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  3. Nem UMA palavras sobre os escândalos do Governo Lul... digo, Dilma???

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  4. Meu caro amigo Luiz, do Opinar Direito, existem muitos descalabros nesse país. Por exemplo, com 30 Maracanãs (levando-se em conta o dinheiro gasto até agora), faz-se uma Belo Monte. Com 60 Cidades da Música - ex-Roberto Marinho - também se faz uma Belo Monte.A questão da geração de energia é muito delicada e deve ser amplamente discutida. Por isso publiquei a opinião de Marcelo Cunha, com a ideia de fomentar o debate. E cá estamos.
    Forte abraço pra ti também.

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  5. Meu caro Fabrício, o modelo denuncista de escândalos da mídia, que parece ter se tornado um tribunal da justiça, está se repetindo demais. Por isso, assim como fiz com a UPP na Rocinha, prefiro deixar a poeira baixar para poder emitir uma opinião mais consistente de uma só vez. O que sei de fato sobre os escândalos do governo Dilma, sejam os ministros culpados ou inocentes, é que a mídia do Instituto Millenium quer a cabeça de todos os ministros que fizeram parte do governo Lula, querem desvincular Dilma e Lula, caso contrário, eles não teram chance de fazer o candidato deles, o Aécio, sequer chegar ao segundo turno.

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  7. Onde escrevi TERAM leia-se TERÃO.

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  8. Bull shit, Marcelo! E você sabe disso! Denuncismo é o escambau. Ou quando FHC era presidente não havia denuncismo e sim o dever cívico sendo cumprido pelos esquerdinhas bastiões da moralidade? O Lupi foi pego MENTINDO várias vezes e você quer me dizer que a poeira tem que baixar para você fazer um comentário a respeito? Tá bom. A poeira do Palloci baixou. E aí? O que você me diz? Sem essa de imprensa golpista. Isso é jogar fumaça no tema para fugir do debate. O fato é: o governo Lula/Dilma é um farto produtor de escândalos, mas como vocês trabalham em favor da "causa", ficam esperando a poeira baixar... para varrê-la para debaixo do tapete. [Tô animado hoje! Timão com a mão na taça! :-D ]

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  9. Só concordamos em relação ao Timão. Seu discurso tem equívocos. E mais uma vez, já que lhe repeti isso tantas vezes, não trabalho pela causa deles, não sou filiado nem partidário de nenhum partido político. Pelo contrário, sou contra a existência de partidos. Mas essa é uma outra discussão.
    No mais, você insiste em não discutir o papel nefasto da mídia, seja na era Lula ou FHC, mas eu insisto em dizer que a mídia é quem joga fumaça em todas as sérias questões, políticas e sociais, desse país. Por isso sou a favor do Marco Regulatório das Comunicações e de outras coisas.

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  10. Este comentário foi removido pelo autor.

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  11. Marcelo, muito obrigada por confirmar que não estou doida ao criticar instantaneamente "protestos" como este.
    Sou Eng. Ambiental e até o presente momento não consegui concluir sobre a viabilidade ou não de Belo Monte devido à complexidade e extensão da UHE. No entanto, não me sinto confortável em assinar qqer coisa sem antes ter certeza do que penso ou estudei.
    Mais uma vez obrigada.

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  12. Olá Engenheira Ambiental Catherine, é sempre muito bom poder contar com a opinião de gente do setor. Obrigado.

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  13. Marco Regulatório das Comunicações aka Censura.

    No mundo civilizado, a imprensa tem papel importante no equilíbrio do poderes. Infelizmente, no Brasil, há muitos "militantes" e poucos jornalistas. Um exemplo é o caso do Mensalão. Um MEGA escândalo de compra de compra de votos, o presidente da República envolvido e o que acontece? Rigorosamente nada. A oposição, notadamente o PSDB, amarelou, a imprensa não apertou como deveria e cá estamos.

    O Brasil é o país dos absurdos. Veja o caso do Genoíno, metido até o pescoço na história e lá está ele no governo. E o Dirceu, então! Pelamordedeus.

    Você diz que não trabalha pela causa "deles" mas eu não vejo você fazer uma crítica sequer a "eles". Suas palavras não combinam com seus posts. ;-)

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  14. Se não consegue ver nenhum contra, então faça diferente, separe os posts nos quais elogio. Simples assim.

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