03/12/2011

Ensaio sobre a imprensa, o ativismo e as mídias sociais

Primeiro, quero deixar claro que neste ensaio não se debaterá posicionamentos contrários ou favoráveis à este ou aquele tema polêmico em voga no Brasil atual.   Aqui se pretende expor as novas formas que a comunicação social está tomando no país.  O que se entendia por solidez de um pensamento ideológico, político ou social, a cada dia que passa, está cada vez mais líquido e mutante, de acordo com a situação e os fatores que o permeiam.

Ainda existem setores da sociedade que mantêm seus posicionamentos ideológicos e políticos, mas estes, de certo modo, são sorrateiramente levados a se confundirem com outros antagônicos, ainda que nem sempre o façam. E existe um elemento essencial para o entendimento desse cenário: a internet.


Douglas Rushkoff, ao falar sobre a rede mundial de computadores, coloca a descontinuidade, a aleatoriedade e a noção de caos como elementos característicos da pós-modernidade, também presentes na internet como características que a definem sua estrutura. Os antigos métodos lineares de pensamento, análise e crítica da sociedade já não são capazes de compreender e explicar a realidade que nos cerca.

A imprensa no Brasil (entenda-se aqui por imprensa as onze famílias que dominam cerca de 90% de toda a comunicação brasileira como rádio, televisão, impressos e internet), demorou não somente na compreensão destas mudanças surgidas com a internet, mas principalmente em sua reação. Esta demora para reagir explica-se principalmente por causa da lentidão evolutiva do acesso de brasileiros à internet, principalmente quando comparamos nossos números com outros países da Europa ou os EUA.

O lento crescimento do número de pessoas com acesso à internet também provocou a demora nas mudanças de paradigma de nossas comunicações. As quedas constantes de audiência na televisão e nas vendas de impressos, por exemplo, reflete-se em 2011 nas demissões de centenas de profissionais brasileiros na Editora Globo, Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Rede TV, etc. Embora estas quedas não necessariamente signifiquem perdas na arrecadação com a publicidade, pois em alguns casos houve até mesmo aumento das verbas publicitárias. No caso da publicidade paga governamental, houve certa pulverização na quantidade de veículos, mas esse é um outro debate.

O fato é que a imprensa brasileira, na política, poucas vezes deixou de emplacar seus candidatos ou preferências, como foi em 1950 com Getúlio Vargas ou com Luiza Erundina na prefeitura de São Paulo. Recentemente temos a eleição e reeleição de Lula na presidência, que ainda fez sua sucessora, Dilma Rousseff. Apenas para registro: as onze famílias que dominam 90% das comunicações no Brasil são notadamente de direita, mas declaradamente, somente o Estado de São Paulo.

As perdas em audiência e, principalmente, as perdas no terreno político, estão provocando a reação não somente da imprensa, mas também de partidos políticos. O PSDB, ainda que esteja em crise estrutural e ideológica, tenta se reformular numa direção de cunho mais social, cooptando sindicatos, como fez largamente em Minas Gerais, na tentativa de imitar a estratégia de sucesso eleitoral do PT. O Partido dos Trabalhadores, por sua vez, está tomando a dianteira do debate sobre o Marco Regulatório das Comunicações, que visa a cumprir leis que já estão na Constituição do Brasil desde 1988, mas que na prática, são sumariamente ignoradas. Este Marco Regulatório causa o temor daquelas onze famílias, pois significa perder o poder majoritário que hoje esbanjam.

A imprensa brasileira, por sua vez, primeiro tentou emplacar uma mudança gráfica e visual como , por exemplo, fizeram a Folha, o Estadão e o site da Globo recentemente. A perda de prestígio do jornalismo por conteúdos com farsas, dados manipulados e outras manobras, agora tenta se reinventar num remanejamento jornalístico sem precedentes: vide os jornais Bom Dia Brasil e Jornal Nacional na televisão; no jornalismo impresso, a contratação de articulistas polêmicos; em quase todos os veículos, a troca dos profissionais que fazem a direção jornalística; etc.

Um outro fato notório é que a imprensa estava perdendo sua posição de centralidade nos temas debatidos no Brasil. Em grande parte, isso se deve ao poder dialógico da internet, algo com o qual nenhuma imprensa havia lidado de modo tão direto e avassalador. Os veículos de comunicação brasileira, desde a popularização do rádio até pouco tempo atrás, sempre colocaram em discussão nacional os temas de seus interesses. Isso era feito de modo consideravelmente simples.

Na última década, com a popularização da internet, do dialogismo e da autocomunicação das massas (conceito de Manuel Castells), impor suas "verdades" e suas pautas ganhou um grau inédito de complexidade e, embora seja mais complexo e dinâmico, não signifique que a imprensa não o consiga fazer. Mas é preciso maior velocidade no tempo de resposta e maior capacidade de impressionar o público, com recursos pseudo-dialógicos e pseudo-democráticos. Compreender a transição que sofremos do marketing de impressão para o de expressão também ajudará.

O ativismo que ocorre nas mídias sociais, nos últimos anos, ganhou visibilidade e êxito em nossas sociedades. Basta ver a eleição de Barack Obama, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street ou as eleições brasileiras de 2010 e o Twitter, por exemplo. A capacidade de mobilização social com o dialogismo permitido pela internet, abala as velhas formas de poder, de impresa e de partidos políticos. Neste cenário é que surge também um 'remanejamento simbólico' nas comunicações.

Tomemos como exemplo a capa da revista Veja que foi para as bancas hoje, 03/12. Importante dizer que, para esta análise, não tomei contato com outra parte da publicação que não fosse a reprodução digital da capa.

Comecemos pelo canto superior esquerdo que anuncia 25 páginas (o Natal é comemorado no dia 25) de um Especial Tecnologia. Ali, a revista cumpre um de seus principais papéis, que é o de Assessoria de Imprensa do grande mercado capital. Logo ao lado, um interessante título sobre a cidade do Rio de Janeiro: O "humanista" da Rocinha é pego negociando fuzil. Aqui pode-se ver um caso típico de 'remanejamento simbólico'. O cidadão ao qual a revista se refere como humanista, salvo engano, nunca se proclamou como tal. Ele foi presidente da Associação de Moradores da Rocinha e isso em nada se assemelha com um 'humanista'. O proto-humanismo farsante é colocado ao lado do especial de 25 páginas do volitivo mercado.

No canto superior direito encontramos a essencial e urgente matéria sobre o que muda no Jornal Nacional com a saída de Fátima Bernardes. Pode-se entender essa reportagem como um texto de auto-ajuda do Instituto Millenium, uma velha troca de favores, também como parte do processo que tenta recuperar a imagem, a audiência e o prestígio dos veículos de comunicação. Vale lembrar que mês passado, uma das capas da referida revista foi uma personagem de uma novela da Globo.

Na parte principal da capa, o que mais me chamou a atenção foi o seguinte trecho da chamada: "o primeiro debate sério da internet brasileira". Segundo a revista Veja, tudo o que eu, você e mais outros milhões de brasileiros estávamos fazendo desde a década de 1990 até outubro de 2011 pode ser chamado de fútil, frágil, mal intencionado, mal colocado, vazio, soberbo ou imbecil. Agora sim, é sério.

Em todas as mídias sociais, brasileiros debatem muito (em quantidade) sobre Belo Monte e também sobre quais veículos de comunicação são contra ou a favor, como meio de corroborar sua própria opinião a respeito do tema. Esta atitude, por si só, mostra a fraqueza discursiva da grande maioria dos debatedores, a fraqueza dos debates em si e, ao contrário do anunciado pela Veja, a falta de seriedade ao tratar do tema, seja intencional ou por ignorância.

Importante: o polêmico e confuso debate na internet sobre Belo Monte não pode passar em branco na imprensa. Tenha ele ressurgido nos bastidores pela própria imprensa ou não, é essencial que se note que o dialogismo da internet também pauta a grande imprensa, num processo complexo e contínuo de retroalimentação. Lidar com este elemento tem se mostrado uma tarefa difícil para aquelas onze famílias que dominam 90% das comunicações brasileiras, mas não impossível.

A grande estratégia hoje utilizada pela imprensa é a mesma da maioria de partidos políticos e ativistas na rede: bombardear e confundir. Não necessariamente nessa ordem, mas bombardear e confundir são os novos modos (nem tão novo assim no que se refere ao confundir) de se comunicar socialmente.

Pode-se dizer que o bombardeamento não é novo em comunicação, visto que num passado recente víamos veículos da imprensa, em uníssono, gritando as mesmas ideias e denúncias. Mas naquela época, em números totais, não passavam de 20 ou 30 agentes comunicadores na sociedade. Hoje, dependendo do tema, temos milhões ou bilhões de agentes comunicadores (internautas, imprensa, blogues), que pesquisam, produzem e reproduzem informações na velocidade da luz. Em uma semana, qualquer análise numérica sobre as mídias sociais e a rede mundial de computadores torna-se ultrapassada, a ponto de ser preciso uma nova análise. Antigamente, as análises duravam meses ou anos.

O bombardeamento dentro das comunicações visa a extinguir o oponente ideológico (o interlocutor é visto como um oponente a ser combatido e destruído). Se na Grécia Antiga, para Sócrates, o diálogo (embate entre duas lógicas) deveria nos levar até a sabedoria (que pode aqui ser entendida como uma terceira lógica), atualmente o debate visa a destruir sumariamente o sujeito que pensa diferente. Não é uma questão de chegar ao consenso, pois o consenso passa por outros mecanismos como a "espiral do silêncio", a "engenharia do consenso", a "midiologia", o "agenda-setting" e outras teorias que abordam o tema. A questão é produzir conhecimento e sabedoria, mantendo a tensão intrínseca que o pensamento traz em si. Longe de qualquer simplificação que emburrece e em nada contribui; longe de qualquer manipulação ou criação de consenso na opinião pública; longe de qualquer tentativa de se criar conclusões: o pensamento e a sabedoria não devem ser concluídos por sofismas, nem manipulados ou simplificados. Devem ser mantidos como realmente são: complexos e transdisciplinares.

Já a confusão presta-se a retirar das palavras e dos símbolos seus sentidos verdadeiros e históricos. Faça-se uma pesquisa junto ao grande público sobre o significado da palavra 'anarquia' para se comprovar que ela terá tantos significados quanto a imaginação, o conhecimento e a ignorância possam criar. Etmologicamente falando, há apenas uma resposta. Historicamente, algumas. Mas nada se aproximará dos incontáveis sentidos atribuídos ao anarquismo, comunismo, socialismo, luta, liberdade, libertário e assim por diante.

A intensa e constante confusão simbólica, entre significados e significantes, que os grandes veículos de comunicação promovem por décadas (ou séculos) não é despropositada. Ao contrário, é criada para dividir os indivíduos, para gerar discórdia e separação entre setores que deveriam se unir para combater um inimigo comum: aqueles que promovem os valores de desumanidade.

No caso dos debates em mídias sociais sobre Belo Monte, por exemplo, não se coloca em questão que hoje o Brasil tem 158 usinas hidrelétricas (somos a 5ª[ potência mundial neste setor) de grande porte em pleno funcionamento e que a construção de cada uma delas gerou, além de alagamentos, injustiça social, violências e violações de direitos nas regiões atingidas. Mais: até 2017 teremos finalizada a construção de 28 usinas hidrelétricas: 15 na Bacia do Amazonas e 13 gigantes na Bacia do Tocantins-Araguaia (uma delas é Belo Monte). E as usinas de energia nuclear? Alguém sabe dizer quantas existem no Brasil e quantas estão em construção? Em nenhum dos vídeos polêmicos vi abordarem a MAB, por exemplo, que ao longo dos últimos anos conseguiu minimizar muitas injustiças, lutando intensamente e presencialmente em cada uma dessas construções. Na última semana de novembro de 2011, cerca de 2.800 operários de Belo Monte estavam em greve. Não vi e nem li esta notícia em nenhum dos grandes pseudo-debates na internet. Será que a esquerda brasileira deixou de se interessar pelos operários e passou a cuidar somente do próprio fisiologismo?

No parágrafo acima, como já citado no início do ensaio, não debati posionamentos contrários ou favoráveis a Belo Monte. Apenas coloco alguns pontos que estão fora daquilo que a Veja chama de o primeiro debate sério da internet brasileira. Qualquer leitor poderia adicionar mais algumas dezenas de itens exclusos. E mais: neste momento, nas mídias sociais, estão a discutir por qual motivo o PT é a favor de Belo Monte, a Globo é contrária e a Veja a favor. Bombardeamento e confusão que em nada contribuem para o debate de Belo Monte ou qualquer outro deste país. A Globo, a Veja, o PT, o PSOL e os ativistas, embora façam parte de nossa democracia, não são eles os únicos integrantes dessa democracia. Até onde sei, a democracia é do povo e o povo todo é o ator social e político primordial nesse processo de construção de uma nova sociedade.

Muitos veículos da imprensa e até mesmo blogues independentes, por exemplo, discutem se o Marco Regulatório das Comunicações é censura ou não. Ora bolas, qualquer idiota sabe que não é censura, mas a grande imprensa conseguiu, através do bombardeamento, introduzir a confusão simbólica. E o sentido original do debate? Neste momento está sendo retomado por setores da sociedade, mas a cada nova tentativa de se desfazer a velha confusão, surge um novo bombardeamento simbólico.

Bombardear e confundir tem um único objetivo: mudar as aparências para a manutenção do poder como está agora. Somente isso e nada mais. Portanto, seja um ativista dito independente, um veículo da imprensa, um teórico ou qualquer indivíduo ou setor da sociedade que, de modo dissimulado e sorrateiro, provoque bombardeamento e confusão, saiba você, leitor, que tudo o que ele quer é poder. Para obter ou manter o poder se prestará a qualquer confusão, e o bombardeamento que promovem sempre será feito em nome da pseudo-defesa de bens maiores, de direitos humanos, da democracia, etc. Como sempre foi feito em qualquer guerra santa, guerra fria, 1ª e 2ª guerras mundiais e assim por diante.

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