04/01/2012

Cem Passos: A história de um maio perdido

Escrito por Diego Pignones
Este texto veio, como eu mesmo digo, através de um alinhamento da conjuntura astral. Eu o listei em minha ‘fila de produção’. Ontem, ao terminar outro texto, escutava uma web radio e eis que veio o anúncio: “BUON COMPLEANNO, PEPPINO!”

Ao mesmo tempo, o alinhamento astrológico do destino me impõe uma tarefa difícil, triste e melancólica. Tentarei contar a biografia e fazer a voz libertária de um herói tombado no campo de batalha da luta ressurgir, longe das ondas do rádio, feroz e irônica neste texto.
                      
“Stornelli d’esilio” / “Versos do Exílio”
Nostra patria è il mondo intero / Nossa pátria é o mundo inteiro
nostra legge è la libertà / Nossa lei é a liberdade
ed un pensiero / e um pensamento
ribelle in cor ci sta' / rebelde há em meu coração.


Giuseppe ‘Peppino’ Impastato nasceu em 5 de janeiro de 1948 em Cinisi, cidade da província de Palermo, no sul da Itália. Seu pai, tio e outros parentes eram mafiosos. Sendo um de seus parentes o chefão Cesare Manzella, morto em uma emboscada com explosivos.

Apesar de morar a 100 passos da casa do chefão Gaetano Badalamenti, manteve sua consciência ideológica e caráter intactos. Certamente, essa distância deu mais força à sua voz.

Ainda jovem rompe com seu pai que o expulsa de casa. Se torna um ativista anti-máfia e importante liderança política. Funda o jornal L'idea Socialista (Ideia Socialista) e engaja-se e lidera a luta dos camponeses expropriados pela obra de construção da terceira pista do aeroporto de Cinisi, dos trabalhadores da construção civil e dos desempregados. Posteriormente, funda o grupo Musica e Cultura que realiza atividade de cineclubismo, música, teatro e debates. Porém, o grande marco da luta de Impastato foi a fundação da Radio Aut.

 
A Radio Aut era uma rádio livre, autofinanciada e libertária. Pelas ondas do rádio, no programa Onda Pazza (Ondas Loucas), com sua inconfundível voz, ora frenética, ora irônica, denunciava a mídia, as atividades mafiosas em Cinisi e Terracini, zombava dos políticos e autoridades corruptas, alertava o povo para a podridão e apontava os responsáveis para o atraso da região.

 

Impastato criou um universo satírico, La Cretina Commedia (paródia da ‘Divina Comédia’ de Dante) onde Cinisi era Mafiopoli, a cidade onde o chefão Tano Seduto (Touro Sentado), um apelido facilmente relacionado ao chefão Tano Badalamenti, tinha as autoridades ao seu lado, realizava acordos corruptos e mantinha atividades espúrias.


O principal alvo de suas denúncias, Badalamenti, liderou o tráfico internacional de drogas já que sua organização detinha o controle do aeroporto de Cinisi por conta de processo de licitação, previamente, fraudado.

No entanto, Peppino Impastato e seus amigos da rádio foram considerados pelas autoridades locais um ‘incômodo’ e ‘homens não respeitados como Don Tano’.

Em 1978, apesar das ameaças de morte, manteve sua candidatura ao Conselho para a Democracia Proletária.

Contudo, na noite entre 8 e 9 de maio, Impastato foi assassinado durante a campanha eleitoral. Seus inimigos esticaram seu corpo sobre os trilhos da ferrovia local e instalaram uma carga de explosivos sob o cadáver inerte.


Dois dias depois de sua morte, os eleitores o elegeram vereador. Inicialmente os magistrados, a polícia e a imprensa local acusavam Peppino de ser um terrorista de extrema-esquerda que levava uma bomba amarrada em seu corpo, cuja falha desta, causara sua morte. A versão do homem-bomba foi levantada porque, em uma reviravolta do destino, Impastato morreu no mesmo dia da descoberta do corpo em via pública do ex-Primeiro-Ministro e, então presidente da Democracia Cristã (DC, Democrazia Cristiana) Aldo Moro sequestrado pelas Brigadas Vermelhas.

Mas, após a descoberta de uma carta escrita por Impastato vários meses antes de sua morte, começou a se cogitar a hipótese de suicídio. Porém, graças aos esforços de seu irmão Giovanni Impastato, sua mãe Felicia (que publicamente rompeu relações com seus parentes da máfia), seus colegas ativistas e ao Centro Siciliano di Documentazione, a responsabilidade da máfia pelo crime é investigada.

 

Com base em todas as provas reunidas e as acusações públicas que foram feitas, o caso foi reaberto.

Mesmo tombado em sua luta e longe do microfone libertário da Radio Aut, o vereador Peppino Impastato deu seu centésimo passo e denunciou formalmente os inimigos públicos de sua região.

O universo satírico da mente libertária de Impastato fundia-se, finalmente, com a realidade.

Per non dimenticare. (Para que não esqueçamos)
Buon compleanno, Peppino. (Feliz aniversário, Peppino)
Centouno.

Anotação na Margem:

“Longa é a noite
e intemporal.
O céu inchado com a chuva
não permite aos olhos
verem as estrelas.
Não é o vento frio
que restabelecerá a luz,
nem o canto do galo,
nem o choro de um bebê.
Muito longa é a noite,
intemporal
infinita.”
Giuseppe ‘Peppino’ Impastato

- O pai de Impastato, mesmo tendo rompido relações com seu filho, aparentemente tentou protegê-lo de Tano Badalamenti. O chefão teria esperado a morte do Sr. Impastato (morto em um acidente de carro) para ordenar o assassinato de seu filho;

- A luta de Impastato permanece viva na Radio 100 Passi que transmite sua voz para o território italiano e para o mundo em sistema de web radio http://www.radio100passi.net/radio/ ;

- Em 2000, a história de Impastato foi imortalizada pelo diretor de cinema Marco Tullio Giordana em I Cento Passi (Os Cem Passos);

- Em março de 2001, o Tribunal Criminal reconheceu Palazzolo Vito culpado pelo assassinato de Giuseppe Impastato. Vito foi condenado a trinta anos de prisão.

- Em abril de 2002, Badalamenti foi condenado à prisão perpétua;

- O nome de Peppino Impastato é sempre mencionado junto aos de Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, a dupla implacável dos ‘super julgamentos’ da máfia. Estes dois últimos, também assassinados em atentados;


- A banda de ska/punk italiana Talco dedicou a Peppino Impastato as músicas Perdutto Maggio e Radio Aut;

- A mesma banda dedicou a Impastato o álbum La Cretina Commedia;

- A banda de combat folk italiana Modena City Ramblers dedicou ao ativista a música I Cento Passi (Os Cem Passos);


- Em 15 de maio de 2010, ao fim dos eventos alusivos aos 32 anos da morte de Impastato, o prefeito de Cinisi entregou oficialmente a chave da casa de Badalamenti para a Associação Cultural Peppino Impastato de Cinisi.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones




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