Poesia inventiva: o que é isso?

Caros leitores, hoje trago mais um colunista ao Comunica Tudo, que periodicamente fará publicações de textos por aqui também. Emerson Sitta*...

Caros leitores, hoje trago mais um colunista ao Comunica Tudo, que periodicamente fará publicações de textos por aqui também. Emerson Sitta*, além de meu amigo de longa data, também é doutorando em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC SP. Aproveitem a partir de hoje a coluna S I T T A.


Para tudo, esse tudo, ter um início, segue uma lista que não termina hoje de definições indefinidas de poesia.

O único ponto essencial a ser percebido e tentar ser compreendido é que a poesia que será dita aqui é conhecida como inventiva.

1 – A poesia e as indefinições

A busca por palavras é um ato impensado. Porém, é um ato subordinado à lógica compositiva do poeta.

O poeta quando se descobre, apresenta a si mesmo suas características em relação à linguagem. Portanto, por mais que viva novas experiências, sempre manterá suas qualidades formais. Ainda assim, pode se transformar, mas nunca totalmente e às vezes até a contra gosto.

Seja de cálculos ou urgentes emoções, a poesia é a expressão do homem.

Nunca a poesia deixou de ser expressão. Um tipo verdadeiro e único, pois disponibiliza para a humanidade presente e futura, a eloqüência do pensamento e a divagação do sentimento.

A poesia não se vinga da ignorância. Ela apenas a engrandece.

De uma maneira simples, como se fosse um instrumento de medida, a poesia pode ser a referência para se precisar a evolução de uma sociedade.

Se em seus meios mais comuns a forma lírica é dominante, ainda há vantagens. No entanto, se em seus meios mais complexos a forma lírica persistir, isso significa que há no seio dessa sociedade um ponto de estagnação.

Uma sociedade que despreza a beleza formal de um poema, ou é alienada ou ultrapassada. E se não vê na sua ignorância sua brutalidade, nunca perceberá o tempo agindo. E ele age especialmente quando um cidadão sequer manifesta sua incompreensão diante de um poema.

Somente aos incomodados a poesia terá repercussão. Ela é uma manifestação pura de inteligência, porque nela não há apenas força sonora, mas conflito, tensão entre todas as forças da linguagem.

A poesia inventiva é uma tentativa de recompor a confusão mental que sofreu o poeta no momento de sentir ou intuir o poema.

Aos poetas inventores também é comum a experiência. Eles não abandonam a intuição, apenas não permitem que seja ela a dominante em sua poesia. Se abandonassem a experiência não seriam poetas, se deixassem de lado a sensibilidade não seriam artistas.

Da mesma maneira que sofrem os emotivos, também os inventores. Turbilhões, viagens, desencontros, acasos, entendimentos etc. Ao poeta a vida se mostra completa, no entanto não permite entendê-la completamente. Nem o emocional nem o inventor deixam de experimentar e sentir as vibrações eloquentes e misteriosas da vida.

A questão é que os desejos poéticos não são iguais. Enquanto um apenas põe som, outro coisifica sua dor. O inventor tortura a forma até que ela lhe entregue a razão de sua expressão concretamente. É como se o poema fosse o próprio fogo, e não falasse apenas dele.

Sem permitir derramar-se, o inventor sofre a angústia de viver e outra angústia para se expressar. Cabe ao leitor remontar o sofrimento e fazê-lo seu, ao seu modo, como o poeta em busca de expressão.

O poeta inventor é um purificador de formas, não faz isso para ganhar notoriedade lingüística, mas para transformar seu lamento em razão, sua dor em coisa, sua vida em palavras.

O homem é um ser tolerante. A poesia inventiva é intolerante.

Pode o homem aceitar tudo, tudo mesmo já que aceita a própria morte.

A única qualidade do homem é seu poder de adaptação. É este o seu melhor instrumento de defesa.

Porém pode ser apenas um defeito, uma marca de sua submissão em relação ao mundo.

Se tirarem a cadeira, sentaremos no chão e seremos felizes. Se tirarem o chão, andaremos sobre as nuvens, felizes ainda.

A vida humana é uma cena sem corte feita por uma câmera apenas. É uma mistura de sentidos hipotéticos e coincidências que perdura infinitamente.

O homem, não sabemos, se real ou disfarçadamente, é um ser tolerante. O que pode fazer para viver é o fruto que colhe todos os dias. O que não pode fazer, são os frutos que caem naturalmente.

E tênue demais essa linha entre o sentido real e a magnitude. É uma beleza senti-la, no entanto é um temor não conseguir controlá-la.

Enquanto não pode mudar o que não conhece, o homem degusta a força que deseja na poesia. Livre das exigências da face e do olhar, a poesia questiona os limites e se impõe como precursora do controle, da força geradora, motriz, ela ilumina a si mesma.

Diferente das razões e das emoções, a poesia desenha a imaginação, faz filosofia de tudo e pulsa suas soluções por meio de palavras. A poesia é uma febre que não separa, agrega, ela faz o homem tocar em seus limites e sentir que pode viver com eles.

Sem se acomodar ou se adaptar, a poesia reclama forças novas a cada palavra. Ela não disfarça sua incompatibilidade com o mundo; ela o cerca e o refaz; ela determina e vibra, sem deixar de guiar.

É preciso esclarecer, a poesia não comanda, ela guia. Faz o homem experimentar tensões, soluções e mistérios por meio da linguagem. É como se o homem dissesse sua própria história, a vivida e a ser vivida, pela poesia.

A poesia não se cansa de transformar-se, ela é o canto que todos têm para um fim de tarde. Ela faz o sol palavra e sua energia pensamento. Tudo consequência da emoção de vê-lo cair ao final da tarde.



*Emerson Sitta, 34
Poeta, professor, Mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC SP e doutorando em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC SP.
@emersonsitta



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