09/02/2012

O futebol e a política - Parte 3


Escrito por Diego Pignones
Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S. Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S. Livorno, Rayo Vallecano e o sentimento anti-franquista em relação ao Real Madrid, prossegue a viagem pelo outro lado da relação entre futebol e política.

Eu sei que já saiu uma matéria na Rede Globo sobre isso, mas só aqui você lê o que foi omitido pela mídia limpinha.


St. Pauli é um bairro portuário, boêmio e de raiz operária em Hamburgo, Alemanha. Até aí nada de anormal. Mas, St. Pauli é um ponto de convergência para diversas tribos urbanas e segmentos políticos, sua rua mais importante a Reeperbahn é conhecida pelos pubs, inferninhos e casas de strip-tease.

 Para os fãs do bom e velho rock n’ roll, o bairro é importante na história de gênero musical por conta da presença do Star Club. Lá desfilaram grandes nomes do rock, como: The Searchers,  Cliff Bennett and the Rebel Rousers, Cream, Lee Curtis, Dave Dee, Dozy, Beaky, Mick & Tich, The Graduates, The Jaybirds (participação de Alvin Lee do Ten Years After), Billy J. Kramer and The Dakotas, The Liverbirds, The Overlanders, The Pretty Things, The Remo Four, Richard Thompson, Soft Machine, Ray Charles, Bo Diddley, Fats Domino, Everly Brothers, Bill Haley, Johnny and the Hurricanes, Brenda Lee, Jerry Lee Lewis (que lançou album ao vivo no Star Club, Little Richard (com Billy Preston na banda), The Jimi Hendrix Experience, The Rattles, Jimi Hendrix, Earth (pré-Black Sabbath), The Who e The Beatles. O ultimo show dos The Beatles no Star Club foi gravada em uma fita cassete que foi remixada e lançada como álbum o The Beatles: Live! at the Star-Club in Hamburg, Germany; 1962.

Hoje o Star Club não existe em seu local original, para marcar o lugar tem uma pedra memorial. A casa foi removida para o outro lado da rua e virou um museu do rock.

No bairro há um time que está ficando mundialmente conhecido, o FC St. Pauli (Fußball-Club Sankt Pauli von 1910).

  
O clube é um caso a parte no que se refere à identidade. É uma verdadeira Babel, mas funciona. A torcida do St. Pauli se considera socialista, mas congrega punks, stripers, rockers, anarquistas e comunistas. Ou seja, nas arquibancadas, vemos um reflexo perfeito das ruas do bairro.


Durante o final dos anos 70 o movimento neonazista começava a se infiltrar nos estádios de futebol europeus, que tinham pouco caráter político. Aos poucos, e devido a sua organização, os neonazistas tomaram o controle de alguns estádios. Da noite para o dia surgiam novos grupos ultras de extrema-direita, como o Borussenfront (em Dortmund) ou os Hertafrösche (em Berlim). Os estádios de futebol se tornaram espaço para a circulação de propaganda nazifascista. E, quando a polícia conseguiu interceptar uma circular interna escrita pelo líder nazista Michael Kühnen, ficou clara a intenção política do movimento. Na circular Kühnen afirmara que "o futebol devia ser um campo de captação de recrutas para o movimento nazista alemão".

Enquanto o neonazismo crescia na Europa, o bairro de St. Pauli vivia sua efervescência ideológica com o aumento da ocupação dos prédios e casas abandonados (squatters). Famílias de baixa renda que pagavam aluguel começaram a se mudar para o bairro, trazendo consigo ideais de esquerda e aumentando o público no estádio do FC St. Pauli, o Millentorn.


A ocupação do bairro e dos squatters começa a chamar a atenção da extrema-direita. Em 1988 após o jogo Alemanha X Holanda realizado em Hamburgo pelas semifinais da Eurocopa, um grupo de fascistas decidiu celebrar a vitória da seleção alemã acabando com a Haffenstrabe, um conjunto de imóveis ocupados em St. Pauli. Moradores do bairro e antifascistas de Hamburgo defenderam os imóveis e impuseram aos fascistas enormes baixas. Essa defesa do bairro foi determinante para a adesão de mais antifascistas à torcida do FC St Pauli.


A partir da defesa dos squatters os punks se uniram ao clube para demonstrar solidariedade. Junto com eles vieram os skinheads do SHARP e RASH. A entrada do movimento punk foi importante ao FC St. Pauli porque posicionou de vez o clube como uma alternativa rebelde e trouxe para dentro do estádio a bandeira pirata. A bandeira pirata era utilizada nas fachadas dos squatters punks. No clube, ela é um símbolo de rebeldia, de compromisso contra o futebol negócio e de defesa das minorias.


Contudo, o futebol negócio tentou se apropriar do clube e, mais uma vez, a massa se organizou. Mas, com outra motivação: lutar contra a diretoria do clube, que queria colocar em prática uma série de projetos que transformariam o FC St. Pauli em um time grande à custa dos moradores do bairro. O mega-projeto compreendia um estádio novo, um centro comercial e uma cidade esportiva. Ou seja, os imóveis encareceriam, os moradores dos squatters deveriam ser removidos, o bairro operário seria burguês.


As torcidas do FC St. Pauli se organizaram. Foram ao Millentorn e deflagraram uma série de manifestações. O clube cedeu e as coisas continuaram como estavam.


O posicionamento forte e a organização dos torcedores do St. Pauli chamou a atenção de outros Ultras europeus que, de todos os cantos do continente, saíam para acompanhar aos jogos do clube. Nesta época foi formado o laço de fraternidade entre FC St. Pauli e Celtic Glasgow (Escócia).

Nos anos 90 o clube ainda tinha um grupo de torcedores fascistas que promovia manifestações políticas dentro do estádio. Mas a união dos torcedores do St. Pauli foi, mais uma vez, determinante para a desnazificação do clube. As brigas foram selvagens, mas no final, os grupos ultras limparam o Millentorn da presença neonazista. Para corroborar a posição dos torcedores, a diretoria clube tornou estatutário o compromisso contra o nazi-fascismo, contra o racismo, contra a xenofobia, contra a homofobia e de defesa de minorias.


Contra o futebol moderno. St. Pauli, mais que um time que um estilo de vida ou uma paixão. Um show de rock político.


Anotação na Margem:

- O FC St. Pauli entra em campo ao som de Hells Bells do AC/DC e a cada gol em casa do clube, o sistema de som do estádio toca Song 2 do Blur;



- Na década de 80 o clube quase faliu, foi salvo graças à organização dos moradores do bairro e de artistas de toda Alemanha. Recentemente, a falência ameaçou novamente o FC St. Pauli. Foi criada a campanha RETTER (salva-vidas ou salvador) com venda de camisetas e bonés;


- Glasgow Celtic e St Pauli possuem um vínculo de fraternidade tão forte entre suas torcidas que ambos os clubes vendem seus materiais licenciados.

- Para salvar o clube da falência, a diretoria decidiu licenciar diversos produtos com a bandeira pirata. A solução funcionou. Mas teve um efeito colateral, a torcida crê que o clube se vendeu ao sistema e lançou as Jolly Rouge manifestações com a bandeira pirata de Henry Avery (fundo vermelho e caveira preta);


- Em 2010 o clube subiu para a 1ª divisão alemã (1.Bundesliga), fato comemorado com um verdadeiro festival de rock nas ruas do bairro e no Millentorn;






- O ex-jogador do FC St. Pauli, Holger Stanislawski, foi o responsável por colocar o clube na primeira divisão. O então treinador Stanislawski aceitou treinar o time mas sem receber salário.


Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones




3 comentários:

  1. Que história incrível! Acho que agora já tenho um time na Alemanha! :-)))

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    1. Esse é o time. Maravilhoso mesmo. Obrigado pelo comentário Mari.

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  2. O Dia Mundial do Rock acontece todos anos no dia 13 de julho. Para comemorar a data, apresentamos um clube que é um dos grandes símbolos da cultura dos roqueiros. Trata-se do FC Sankt Pauli, equipe que atualmente disputa a segunda divisão do campeonato alemão.

    Veja, curta e compartilhe com os amigos: http://showdecamisas.blogspot.com.br/2012/07/st-pauli-futebol-e-rock-em-uma-so.html

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