O futebol e a política - Parte 4

Por Diego Pignones Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S. Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S...


Por Diego Pignones
Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S. Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S. Livorno (http://bit.ly/sjcuxS), Rayo Vallecano e o sentimento anti-franquista em relação ao Real Madrid (http://bit.ly/uY7hWK) e a Babel nas arquibancadas e no bairro de St. Pauli (http://bit.ly/xY9D20), prossegue a viagem pelo outro lado da relação entre futebol e política.

Década de 80, a ditadura militar que governava a Argentina com mão de ferro estava ameaçada pelos civis. O povo começava a cobrar a conta dos militares pelos problemas sociais, econômicos e pelas violações dos direitos humanos. E sendo o patriotismo, o último refúgio do pilantra, os militares precisavam de uma solução rápida para se manterem no poder.

A Guerra das Malvinas foi a solução encontrada. Desviaria os olhos do povo dos problemas, os militares teriam sua imagem recuperada pela guerra e o país estaria unido por um frenesi patriótico nunca antes visto.


Aproveitando a histórica disputa pelo arquipélago, já que a Grã-Bretanha ocupa as Malvinas desde o século XIX, ignorando o fato de elas terem pertencido ao império espanhol durante a colonização da América do Sul e de serem parte do território argentino desde 1820, os militares invadiram as Malvinas em 2 de abril de 1982.

Em um primeiro momento, a invasão foi vitoriosa e a Argentina assumiu o controle da capital Port Stanley e mudaram seu nome para Puerto Argentino. Na imprensa, a ditadura argentina alardeava seus feitos. No campo diplomático, a Primeira-Ministra Margareth Thatcher tentava negociar uma retirada dos argentinos. Diante da negativa do ditador Galtieri, a dama de ferro ordenou a guerra.


Em 14 de junho de 1982, a Inglaterra reafirma sua hegemonia pirata sobre as Malvinas.
Com o término do conflito e com uma inflação na casa dos 600%, os movimentos populares derrubaram a ditadura de Galtieri, realizaram o processo de redemocratização e em 1983 elegeram Raúl Alfonsín presidente.


O ano era 1982, a Guerra das Malvinas inventada pelos militares argentinos para permanecer no poder tinha acabado. Jogavam CADU (Club Atlético Defensores Unidos) e Almagro em Villa Fox. Antes da partida os capos das hinchadas de CADU e Almagro tinham se encontrado para cantar músicas contra o regime militar. Quando começou a partida, a torcida celeste do CADU cantou contra a ditadura como tinha sido combinado e desencadeou uma violenta repressão policial. Sem perder tempo, a torcida do então visitante Almagro, cantou junto e apoiou a torcida do CADU. 


Para a história e a estatística do futebol, ficou a vitória do CADU dentro das quatro linhas. No jogo de volta no José Ingenieros (estádio do Almagro) a hinchada do Almagro convidou a hinchada do CADU para um churrasco. Dentro de campo, nova vitória do CADU (0X1). Logo após o gol, os celestes do CADU derrubaram o alambrado e se confraternizaram com os tricolores. Estava selado um vínculo político e de solidariedade. Desde então é comum ver camisas e trapos tricolores junto aos torcedores do CADU e vice-versa.


Porém, nem tudo são flores. A rivalidade entre brasileiros e argentinos alimentada pela mídia tradicional esconde algo nefasto, que poucos veículos noticiaram.


Durante o conflito entre Argentina e Inglaterra, era comum ver os bombardeiros e aviões de suprimentos reabastecerem nas bases aéreas brasileiras durante a madrugada. Sim, apesar da Operação Condor (plano que unificava as ações das ditaduras do Conesul), a ditadura brasileira se voltou contra a ditadura argentina. Os motivos foram a pressão britânica e americana para o Brasil abandonar a Argentina e havia o temor entre os militares brasileiros de os argentinos estarem desenvolvendo seu programa nuclear.


Um desses reabastecimentos ocorreu na Base Aérea de Canoas/RS e foi fotografado. A Argentina enfim, detinha a prova cabal de que o Brasil abriu suas pistas para os britânicos bombardearem suas tropas.
Na Copa Libertadores da América de 1983, em 08 de julho, o Grêmio FBPA foi a La Plata disputar uma partida contra o Estudiantes. A foto do reabastecimento britânico em solo gaúcho reapareceu na mídia argentina e foi armada uma guerra. Era a Argentina, ainda se recuperando do conflito, contra o Brasil. Antes de começar a partida, o juiz deu um amarelo ao jogador Trobianni do Estudiantes por tentar deslocar seu braço durante o tradicional aperto de mãos. Dentro de campo, após um jogo épico, o Grêmio não suportou a pressão do estádio e acabou empatando em 3X3.

Outro episódio onde o conflito adentrou as quatro linhas foi em 1986. Durante a Copa do Mundo de Futebol no México em 1986 nas quartas-de-final se defrontaram Argentina X Inglaterra.


Na mídia o frenesi pelo jogo e o viés político foram tão fortes que se temeu por um jogo que não chegaria ao final. A comissão técnica da seleção da Argentina preparou o psicológico dos jogadores com o mote: “Vocês jogarão pelos argentinos mortos”. A estratégia deu certo.

Os argentinos abriram o placar com o famoso gol de la mano de Dios e ampliaram 3 minutos depois com o ‘gol del siglo’. Ambos de Maradona. A Inglaterra descontou com Lineker, mas não adiantou. O placar final foi Argentina 2X1 Inglaterra.


“O gol de mão contra a Inglaterra foi como se eu tivesse roubado a carteira de um inglês” Diego Maradona.


Em um raro momento político um país endividado de terceiro mundo superou uma superpotência mundial e seu credor, e o maior responsável por isto foi um argentino de origem humilde. Surgia a figura de ‘el D10S’.
Contra el Fútbol Moderno y Las Malvinas son Argentinas!

América latina unida!

(continua num próximo post)

Anotação na Margem:

- Um puta filme sobre as Malvinas é ‘Iluminados Pelo Fogo’ (2005) de Tristán Bauer;
- O Club Almagro possui sede social no bairro homônimo em Buenos Aires, mas por falta de espaço, seu estádio fica no partido (distrito) de Tres de Febrero da Província de Buenos Aires;
- Atualmente o Almagro disputa a Primera B, terceira divisão dos clubes filiados a Associação de Futebol Argentino (AFA);
- O Almagro adotou como hino o tango “Almagro” de Carlos Gardel; 
- Almagro e Grêmio possuem vínculo de fraternidade devido as cores e uniformes de ambos os times. É comum ver torcedores argentinos no Olímpico e torcedores gaúchos no José Ingenieros;
- Recentemente, o zagueiro do Grêmio Hugo de León declarou que o jogo em La Plata foi a única vez na vida em que sentiu que iria morrer;
- Os enfrentamentos entre Argentina e Inglaterra em outros esportes têm uma atmosfera diferente, devido ao conflito armado. Em 2010 no Mundial de Hockey Feminino em Rosário, na Argentina, jogaram Inglaterra e Argentina (Las Leonas). Durante o hino argentino o estádio tremeu com a demonstração de orgulho dos argentinos frente à seleção inglesa;
- A questão das Malvinas virou estádio. Na cidade de Mendoza o principal estádio é o Estadio Malvinas Argentinas. De propriedade do governo provincial de Mendoza, o Malvinas foi um dos estádios-sede da Copa América 2011;

 - Em eventos esportivos, é comum ouvir a torcida argentina canta o ‘El que no salta es um inglés’; 
- Texto escrito ao som de La Argentinidad Al Palo da Bersuit Vergarabat.
Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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