19/03/2012

Comércio ilegal de animais selvagens: predadores capturados


A reportagem a seguir foi publicada no ano passado pela Revista Geo. Por acaso, na sala de espera do dentista, tomei contato com a reportagem e resolvi publicar em meu blog. Sem dúvida, um belíssimo trabalho de jornalismo investigativo, traduzido em uma grande reportagem que nos mostra como grandes empresas norte-americanas e européias contribuem ou sustentam esse mercado ilegal de animais. Boa leitura!

O mercado ilegal de animais selvagens movimenta US$ 20 bilhões por ano, calcula a Interpol. A faixa de lucro das quadrilhas? Exorbitante. O risco de serem pegas em flagrante? Quase zero. Inclusive no comércio de tigres. Nesse negócio criminoso, os raros felinos são a mercadoria mais cara e cobiçada; comercializados a preço de ouro. Uma equipe de GEO seguiu as pistas dos traficantes


Por Anke Sparmann (Texto) e Patrick Brown (Fotos)

Ao concluirmos nossa pesquisa não teremos visto tudo, mas teremos escutado o suficiente para podermos dar nomes a alguns supostos intermediários e traficantes do comércio ilegal de espécies ameaçadas. Entre os suspeitos estão um abade budista e uma empresária ativa no comércio internacional. Peixes grandes; ou, como se diz na Ásia, macarrões gordos.
Templo dos Tigres, Tailândia
FELICIDADE E FALTA DE DISCERNIMENTO LADO A LADO

Uma jaula de 25 metros quadrados. Dentro dela, um pneu velho, uma corda, um cobertor sujo e três filhotes de tigres. Diante da jaula estão quatro pessoas; dois casais em lua de mel. Um sonho de vida os trouxe até aqui: “dar mamadeira a bebês de tigres”.

É meio-dia e a temperatura oscila em torno dos 40ºC – um dia quente até para os padrões tailandeses. Há pouco mais de uma hora esse estranho lugar, a duas horas de carro da capital Bancoc, abriu seus portões. Estamos em Wat Pa Luangta Bua Yannasampanno; mas como ninguém – nenhum turista pelo menos – consegue pronunciar esse nome, o lugar é chamado apenas de “Templo dos Tigres”.

Os dois casais são o segundo grupo que se deixa trancafiar na jaula hoje. Cerca de 20 turistas pagam diariamente por essa experiência; isso significa 140 pessoas por semana e cerca de 1.000 até que os bichos ultrapassem a adorável idade de um bicho de pelúcia vivo.

As mulheres dão a mamadeira; os homens fotografam. Matt, um voluntário de Londres, conta: “Quando os filhotes completam 3 semanas, nós os separamos de suas mães. Eles devem se acostumar o mais cedo possível com seres humanos. Só lhes damos carne cozida, para que não desenvolvam o gosto pelo sabor de sangue”. E acrescenta: “Nós criamos os tigres para preservar a espécie; mais tade, eles serão reintroduzidos na natureza”.

As palavras de Matt não revelam emoção; ele as decorou. Além disso, elas parecem não fazer sentido: reintroduzir na natureza? Como é que isso vai acontecer?

Matt não sabe; e os turistas fascinados por tigres também não têm a menor noção de que um animal predador criado na mamadeira jamais poderá sobreviver na natureza. Não existe uma única tentativa bem sucedida de reintroduzir um tigre manso na floresta – e por boas razões. Em liberdade, ele faria a única coisa que aprendeu em sua curta vida em cativeiro – mendigar comida para a primeira pessoa que encontrasse.

Mas o que acontece de fato com os tigres crescidos do templo? Dizem que eram mais de 50 em meados de 2010. Mas o número varia. Nesse exato momento temos apenas uma vaga suspeita. E perigosa: o Templo dos Tigres poderia estar envolvido em uma atividade criminal. No crime organizado e lucrativo.

Fala-se em “ faixas de lucro exorbitantes” no ilícito comércio de animais selvagens. A Interpol avalia o movimento anual global desse negócio em até US$ 20 bilhões, e as autoridades afirmam que a situação piora a cada dia que passa e que os perseguidos já não têm mais onde se esconder – ou sobreviver. Em nenhum lugar.

O Templo dos Tigres, a 160km a oeste da Bancoc: turistas apreciam a harmoniosa imagem dos monges budistas com seus grandes felinos peludos. Mas o que ocorre atrás das muralhas do monastério? Existem indícios de que alguns animais desaparecem subitamente; primeiro para o vizinho Laos, e de lá para a China. Mas ali eles não constituem mais um programa exótico para recém-casados: eles são imolados, desmembrados e comercializados em partes isoladas. A pele e a carne; os ossos e as garras – nenhum outro animal deixa-se aproveitar tão lucrativamente como o tigre. A espécie está ameaçada: calcula-se que existam apenas cerca de 3.000 animais ainda em liberdade


As informações colhidas sobre as vítimas na Interpol, no Fundo Mundial para a Vida Selvagem e Natureza (WWF), no Fundo Internacional pelo Bem-Estar Animal (IFAW) mostram que milhões de exemplares de antílopes, ursos, rinocerontes, elefantes, orangotangos, falcões, papagaios, tartarugas, serpentes, leopardos, cavalos marinhos são traficados pelo mundo por caminhos obscuros e ramificados – vivos ou mortos; em partes ou inteiros.

Nenhum animal é perseguido com mais persistência que o tigre. Os indivíduos dessa espécie ocupam, sozinhos, o topo da pirâmide no clandestino negócio do tráfico de animais. Não existe nenhuma outra criatura cujo corpo seja tão bem aproveitado: sua pele, a carne, os ossos atingem preços astronômicos, em dólares, no mercado negro. Mas suas patas, garras, vibrissas (os pelos dos “bigodes” dos felinos), dentes e o pênis são vendidos a preço de ouro – ou mais.

Os protetores de animais já não receiam mais pelo destino de felinos isolados.

Eles temem pela preservação da espécie.

Interpeladas sobre os responsáveis, a maioria das pessoas se cala; ou faz insinuações enigmáticas. Nenhum nome é citado no escritório de Peter Müller, agente da Interpol em Wiesbaden, na Alemanha. Jan Schmidt-Burbach, um veterinário alemão que controla o comércio de animais na Ásia para a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla em inglês), muda abruptamente de assunto. E, entre as autoridades em Bancoc, a pergunta “quem são os culpados?” é respondida com um prolongado silêncio constrangedor, como se estivéssemos acusando-os diretamente de alguma coisa.

Para relatar ao público a parte da história que todos poderiam ler, sem restrições, não pensamos que nos depararíamos com tamanha resistência. Queríamos ser observadores nessa viagem, mas subitamente nos encontramos no papel de investigadores. Quem são os manipuladores, os mentores do comércio internacional de vida selvagem? E por que é impossível interferir em suas ações?
Vientiane, Laos 
UM HOMEM FAZ UMA CRUZ NO CAFÉ JUMO


Um grupo de ocidentais debruçados sobre um mapa não constitui uma cena incomum no Café Jumo. Talvez tenha sido por isso que Troy Hansel sugeriu esse local como ponto de encontro. Pouco depois das 14h, Hansel brinca com os atendentes dizendo em laosiano fluente que vive no país há 14 anos. Ele trabalha para a Wildlife Conservation Society (WCS, na sigla em inglês), cuja sede situa-se em Nova York, mas que mantém um escritório na capital laociana, onde Hansel é responsável por controlar o comércio de animais selvagens.
Este crocodilo foi “sangrado” em um restaurante gourmet em Guangdong, na China. “Síndrome das florestas vazias” é como os ambientalistas chamam o efeito do comércio animal: em alguns países da Ásia, os animais desaparecem mais rapidamente que seus espaços vitais
A WCS cunhou a expressão empty forest syndrome – a síndrome da floresta vazia. Todos sabem que as espécies estão morrendo porque as florestas estão sendo dizimadas; mas a expressão refere-se ao fato de que agora os animais estão desaparecendo muito mais rapidamente que seus habitats. Principalmente os grandes felinos, primatas, cervos, elefantes – as primeiras vítimas são os mamíferos; alvos preferenciais desse lucrativo negócio porque rendem muito mais. O mapa de Hansel mostra grandes partes do Sudeste Asiático. A síndrome das florestas vazias, explica ele, é particularmente acentuada nos países vizinhos do Laos; no sudoeste da Tailândia, no nordeste do Vietnã, e bem mais acima, no norte da China. Ele desenha setas vermelhas no mapa, 10, 15, 20. Elas nascem no Laos e se espalham desordenadamente em todas as direções através das fronteiras. São as rotas do ilícito comércio internacional de animais selvagens. No mapa, o país parece estar sangrando.
Troy Hansel tem cerca de 40 anos, é loiro, com ombros largos e braços fortes. Fisicamente, ele poderia ser o herói dessa história. Ninguém hesitaria nem por um segundo em seguir as pistas de comerciantes clandestinos ao seu lado. Isso, porém, não está sendo cogitado; embora provavelmente ninguém conheça o cenário melhor do que ele. Mas seria impensável que ele, como estrangeiro no país, confrontasse os criminosos. A perseguição e a punição de atos criminosos são responsabilidade das agências nacionais. Ele aqui não tem direitos especiais.

Por fim, ele faz uma pequena cruz em determinado ponto do mapa. “Há boatos de que aqui existe uma fazenda, uma criação de tigres”, diz ele cautelosamente.

Seus animais viriam da Tailândia, do Templo dos Tigres.

Rota 13 Sul, Laos
DE INÍCIO TUDO CORRE CONFORME OS PLANOS

De Vientiane seguimos rumo ao sul, sempre pela Rota 13 Sul, uma das poucas rodovias asfaltadas do Laos. Se prosseguíssemos sem parar, chegaríamos ao Camboja por volta da meia-noite. Na direção oposta poderíamos estar na China no dia seguinte. O grande Rio Mekong, que faz fronteira com a Tailândia, nunca está muito distante. Do ponto de vista logístico, não há local mais vantajoso para um traficante de animais do que a Rota 13 – ao lado da qual Hansel marcou sua pequena cruz.

O motorista fala um pouco de inglês. Ele removeu a placa de “Taxi” de seu carro quando o contratamos em Vientiane. Sua mulher lhe deu uma bolsa com mudas de roupa limpa para a viagem. Ele parece ser gentil e confiável. E deve considerar seus clientes como simples turistas; pelo menos no início da jornada.

A República Democrática Popular do Laos é um país pequeno, com pouco menos de 7 milhões de habitantes. Existem poucos carros e agora, num domingo, às 18h, a rodovia está completamente deserta. Anoitece e tudo ao redor mergulha em um silêncio profundo.

Do lado de fora, nada indica a finalidade da propriedade que encontramos no meio do nada. Um edifício térreo e comprido, cercado por árvores e denso matagal. Na frente, um portão eletrônico de cerca de 10m de largura, com uma pequena guarita ao lado. O complexo todo é cercado por um muro impecavelmente caiado de branco.

Diante dele, quatro jovens jogam cartas. Eles se envolvem em uma rápida conversa conosco, traduzida por nosso motorista:


“Vocês trabalham aqui?” “Sim. Tratamos de 200 tigres e dois leões.” Por meio de gestos pergunto se os animais são pequenos ou grandes.

“Tigres grandes e pequenos”, respondem eles. “O que acontece com os animais?” “Eles são vendidos.”.“Para quem? Para onde?” “Para a China.”A sigla CITES, em inglês, significa Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção. Conhecido também como Convenção de Washington, este é um acordo multilateral assinado inicialmente por 80 países na capital norte-americana em 1973 para regulamentar o comércio de espécies ameaçadas. Atualmente, a CITES já conta com 175 países signatários.

O documento lista animais e plantas em três apêndices distintos. O “Apêndice I” inclui todas as espécies ameaçadas de extinção. A importação ou exportação delas, de suas partes ou de produtos derivados delas, são todas proibidas, sem exceção. Atualmente, a proibição comercial é válida para mais de 600 espécies e subespécies de animais, chamadas de “Espécies do Apêndice I” no jargão da proteção de fauna e flora.

A classificação faz sentido, mas ela apresenta uma grande desvantagem: no mercado negro, tudo o que está listado no Apêndice I é considerado um atributo de valor. Quando os delegados da CITES consideram a inclusão de uma espécie na lista I durante suas reuniões, a demanda, os preços e a pressão de caça aumentam instantaneamente. A expressão “ameaçado de extinção” pode ser considerada uma profecia que se autorrealiza.

Os tigres entraram no Apêndice I em 1975. Nessa época, duas subespécies já haviam sido extintas e uma terceira desapareceu pouco tempo depois. Ao todo, a população total despencou drasticamente em comparação com o século passado – de 100.000 tigres livres na natureza restam apenas cerca de 7.000 animais. A espécie estava perigosamente em risco. Mas havia e ainda há motivos para se ter esperança. Felizmente, os tigres procriam com facilidade – o que poderia ser sua salvação ou sua sentença de morte.

A primeira fazenda de criação de tigres surgiu na China, em 1986. A economia da República Popular começava a florescer. Cada vez mais pessoas podiam ter acesso a produtos derivados de tigres: uma pele como objeto de decoração, uma garra como talismã da sorte, vinho de osso de tigre contra artrite, pênis pulverizado para a potência sexual. Atualmente, a posse de uma fazenda de tigres é comparável a uma licença para imprimir dinheiro irrestritamente. Embora a atividade envolva custos elevados até que um animal atinja a maturidade para o abate – jaulas, tratadores, comida –, os lucros são exorbitantes. E, ainda por cima, totalmente legais. Embora a China tenha aderido à CITES em 1981, a convenção só regulamenta o comércio internacional e não o que ocorre dentro das respectivas fronteiras nacionais.

Pressionada pelos escritórios da CITES, por cientistas e organizações protetoras de animais, a China resolveu proibir o comércio interno de tigres em 1993. Os negócios parecem ter adormecido; pelo menos é o que afirma um estudo da organização Traffic, baseada em entrevistas com farmacêuticos e comerciantes chineses.

Mas será que esses levantamentos correspondem à realidade? Ou as transações comerciais continuam – só que embaixo do pano?

O que se sabe ao certo é que o mercado de produtos derivados de tigres cresceu acentuadamente nos últimos anos – e não só na China. Em países como Cingapura, Malásia, Vietnã e Coreia do Sul a riqueza material também vem aumentando e com ela a demanda por produtos caros de animais selvagens. Na Europa e nos Estados Unidos cresce o número de pessoas que buscam a tradicional medicina chinesa, ou TMC, cujos preparados são parcialmente acrescidos de partes de tigres.

Sabe-se também que o número desses felinos mantidos globalmente em cativeiro não para de crescer: atualmente, calcula-se que sejam entre 15 mil e 20 mil animais. Descontando-se os exemplares que vivem em zoológicos, circos e residências particulares, ainda restam bem mais de 10.000 tigres, cuja existência só leva a uma conclusão: o comércio prossegue, embora de forma estrangulada.

A maior parcela provavelmente provém de criações, que agora comercializam tigres e partes de tigres ilegalmente. A pior consequência disso é que as fazenda selvagens são infiltrados nesse fluxo comercial sempre que surge uma oportunidade.

Consequentemente, a população de tigres continua encolhendo. Desde o ano 2000, a cifra caiu mais uma vez pela metade e hoje calcula-se que restem, no máximo, 3.200 tigres em liberdade.

A situação é tão dramática que o primeiro-ministro russo Vladimir Putin realizou uma reunião de cúpula sobre a preservação do tigre em novembro de 2010. Ao final do encontro, dirigentes de 13 países despediram-se em São Petersburgo com um plano de salvação e promessas de apoio financeiro. Além disso, a China e a Rússia concordaram em criar uma nova área de proteção conjunta na distante região do Rio Amur.

Ali, ao longo da extensa e distante fronteira de 3.600km entre as duas nações gigantes, os problemas são grandes – em janeiro deste ano a alfândega russa interceptou e deteve um traficante com 15kg de ossos de tigre.

A caça obviamente prossegue. Não só porque um animal selvagem só custa a isca envenenada usada para capturá-lo, mas também porque os consumidores preferem os exemplares selvagens aos criados em cativeiro. Além disso, muitos tigres são capturados vivos, porque as fazendas de criação necessitam de sangue fresco para seus cruzamentos; caso contrário, os sinais de consanguinidade se tornariam óbvios demais.

Essa também deve ser uma das razões que levam as fazendas a permutarem tigres entre si. Pelo menos em um caso essa troca foi comprovada.
Melbourne, Austrália 
UMA MULHER SE RECORDA


Sybelle Foxcroft atende ao telefone após o primeiro toque; sua voz é clara, mas um pouco ofegante. Ela estudou Gestão Ambiental na Universidade de Queensland e a criação dos grandes felinos no Templo dos Tigres foi o tema de sua dissertação de bacharelado. Hoje em dia, vive novamente em Melbourne. Ela fala sem parar durante uma hora sobre suas experiências na Tailândia. É o discurso de uma pessoa temerosa de não ser levada a sério. Porque a própria verdade contradiz suas declarações de que alguém está envolvido em algo muito mais grave e valioso.

Dizem que Phra Acharn, o abade do Templo dos Tigres, tem certa semelhança com o Dalai Lama. Mas ela se limita apenas à cabeça raspada, ao manto cor de açafrão e aos óculos antiquados. Em 1999, ele acolheu oito filhotes de tigres em seu templo – quatro fêmeas e quatro machos. Órfãos, garante Phra Acharn.

O abade explica a docilidade dos felinos e de seus descendentes com uma “transmissão de almas”. Os animais seriam reencarnações de parentes em uma vida pregressa. De fato, eles são tão mansos como gatos domésticos e os turistas são estimulados a dar beijinhos nos predadores ou deixar que eles repousem suas enormes cabeças em seus colos. O abade insiste em deixar claro que seu templo é o último refúgio dos tigres contra caçadores e comerciantes clandestinos. Como uma arca na qual a espécie poderá sobreviver. Essa também foi a versão divulgada pelo documentário internacional de TV O Templo dos Tigres.

Mas Foxcroft discorda dessa versão com veemência. O relato da australiana começa em 2007, quando ela viaja à Tailândia. Ela só tinha lido e escutado coisas positivas sobre o Templo dos Tigres. Em 2006, a revista Time até o incluiu em sua lista The Best of Asia, “O melhor da Ásia”; e o guia de turismo Lonely Planet também recomendou a visitação.
A cidade de Th akhilek, na fronteira entre a Tailândia e o Mianmar, é considerada o ponto de partida para caçadores ilegais. A diversidade de espécies do Sudeste Asiático reflete-se na variedade de produtos oferecidos nesta loja – animais inteiros ou desmembrados, crânios ou peles, pós ou tinturas. Ao fundo, uma pele de tigre


No dia 18 de agosto de 2007, entre as 19 e 20h, Foxcroft está a caminho dos dormitórios. Nesse horário, os monges em geral meditam. Por isso, ela se surpreende ao ver alguns deles andando agitadamente com walkie-talkies pela área. Ela escuta o ronco de motores. Na manhã seguinte, a jaula de Fa Rung, uma fêmea de 3 anos, está vazia.

Em seguida Mek, Famai, Darika e Phayak desaparecem de forma igualmente misteriosa. Em seus lugares aparecem animais jovens; alguns ainda tão minúsculos que são incapazes de se manter em pé sozinhos.

Foxcroft acredita ter reconhecido um padrão nessa atividade: são principalmente os animais mais complicados, em parte doentes, que somem da noite para o dia. Mas ao examinar alguns documentos que o templo havia colocado à sua disposição para a tese, ela encontra um formulário – e o copia. É um contrato de permuta envolvendo dois tigres: Dao Rueng em troca de Phayak.

Os signatários do documento são um tal de Sr. Boonrueng, proprietário de uma fazenda de tigres no Laos, e Phra Acharn, o abade do templo.

Foxcroft fica indignada. Laos? Será que Mek, um dos primeiros tigres do templo, também foi parar lá? Fora de si, ela cerca Rodrigo Gonzalez, guia de tigres no templo. “Gritei com ele”, conta ela ao telefone. “Mek! O que aconteceu com Mek? Me conte: Mek ainda está vivo?”
Fazenda de tigres na Rota 13 Sul, Laos 
UMA PORTA SE ABRE – POR ALGUNS SEGUNDOS


Prosseguimos em nossa viagem. Dessa vez, o motorista para o carro em um pedaço de floresta, a cerca de 300m de distância da fazenda de tigres. Mek era um macho corpulento, que gerou numerosos descendentes no templo. Se ainda estiver vivo, talvez esteja atrás desses muros, como animal padreador. Ou será que Mek já está morto há tempos; seu cadáver despachado para a China?

Nosso plano A era investigar o terreno pelo lado dos fundos, talvez até penetrar na fazenda sem sermos vistos.

Tudo o que pudesse nos identificar como repórteres ficou no carro: cartões de visita, celulares, blocos de anotações. Na noite anterior, enquanto tomávamos uma cerveja na varanda do hotel, nossa intenção soava perfeitamente viável.

Mas agora, no local, à luz do dia, tudo parece uma idiotice. Toda a área é cercada por moitas espinhentas, arame farpado e muros altos. Quando voltamos para o carro o motorista tinha desaparecido.

O fotógrafo Patrick Brown documenta o obscuro comércio de vida selvagem há cinco anos. Por isso os menores problemas despertam instantaneamente sua desconfiança. Preocupações justificadas? Paranoia?

Certa vez, Brown descobriu em meio às nossas garrafas d’água uma cujo lacre estava rompido. Ele a esvaziou sem pestanejar. Em outra ocasião, no aeroporto em Vientiane, uma mulher desconhecida se dirigiu a nós. Laociana, linda, saltos altos, blusa decotada, com um inglês perfeito. Emily. Brown assumiu a defensiva imediatamente.

Ele conta a ela que somos professores em uma viagem de férias – e tem tempo de sobra para florear sua história. Quando tarde da noite o voo finalmente é cancelado, Emily entra sem ser convidada no nosso táxi, faz o check-in no nosso hotel e, na manhã seguinte, está novamente ao nosso lado no portão de embarque. Em algum momento ela vai se equilibrando em seus saltos até o banheiro – e nós tratamos de sumir. A bela Emily não nos veria novamente.

Nosso motorista desponta do meio do mato. Isso é bom. Por outro lado, agora não há mais razão para adiar o plano B – os US$ 500,00 que levo no bolso da minha calça.

O homem que abre uma portinhola lateral assim que batemos não fala uma única palavra de inglês. Atrás dele vemos um pátio espaçoso e, mais além, um edifício que parece ser uma cocheira, ampla como um ginásio de esportes. Nesse momento, a portinhola é fechada nas nossas caras. O plano B também não dá em nada. Mas, pouco depois, o portão eletrônico se abre lentamente e dele sai um veículo tracionado preto reluzente, com janelas espelhadas, e emboca na Rota 13. Este poderia ser Boonrueng, o dono da fazenda de tigres.

Ou a dona, já que seu apelido é Auntie Boonrueng, “Tiazinha Boonrueng”. Dizem que ela tem 50 e poucos anos e que, além do comércio de tigres, mantém lojas duty-free no Laos e na Tailândia. Dizem também que ela vive a 150km ao sul dali. Pelo menos é isso que nos informa o chefe de uma pequena organização de proteção ambiental, um holandês com quem cruzamos incontáveis vezes durante nossas andanças.

Tudo isso poderia se aproximar bastante da verdade. Autoridades que não querem ver seus nomes, nem os de suas respectivas agências, publicados em nenhum lugar nos confirmam que a fazenda na Rota 13 de fato pertence a Boonrueng e que o comércio com o Templo dos Tigres está ativo até os dias de hoje. Mas essas informações jamais chegam a nós por escrito, nem por frases inteiras. Nossas perguntas recebem apenas sucintas respostas “sim-não”, e isso em telefonemas apressados. (O Templo do Tigre nunca assumiu uma posição diante das críticas, embora fosse abordado por GEO.)É um maldito secretismo. Tudo sobre essa história é velado, encoberto, inescrutável. No fundo, as atividades de tiazinha Boonrueng e sua pequena fazenda já deveriam ter vindo à tona há muito tempo.

Conferência da CITES, Doha, Catar, março de 2010 
TIGRES DESDENTADOS NÃO MORDEM


Em outubro de 2008, o secretariado da CITES, em Genebra, enviou aos seus estados-membros a notificação “Nº 2008/059”, em que determina: países onde existem fazendas de tigres devem garantir que os grandes felinos não sejam mais criados em proporções comerciais. Além disso, as nações em questão devem comunicar, por escrito, as medidas adotadas para tanto até fevereiro de 2009.

Somente uma nação reagiu. A China. Sua resposta foi dada em uma única frase e ela desconsiderou o assunto. Todas as outras ignoraram o comunicado. Diante disso, a CITES lhes apresentou um novo ultimato para explicações: 20 de outubro de 2009.

Em março de 2010, delegações internacionais da CITES reúnem-se em Doha, no Catar. À época da conferência, o último prazo já havia se esgotado há tempos novamente sem respostas sobre as fazendas de criação de tigres.

Em Doha, o secretariado da convenção apresenta um abrangente relatório sobre o tema, baseado em um documento de 1999: em mais de uma década, a luta contra o comércio ilegal de tigres não alcançara nenhum progresso.

A leitura desse documento, bem como de protocolos de conferências posteriores da CITES, é tão cansativa como reveladora. Por exemplo, especialistas diplomados em tigres questionam “por que essas grandes populações de animais são mantidas em cativeiro?”. Eles decidem criar um grupo de trabalho para investigar o assunto.
Quem consome produtos de tigre absorve parte da força e vitalidade do grande felino. Essa superstição é a sentença de morte para a espécie. Na loja de um receptador em Th akhilek, um monge compra uma garra de tigre para usá-la como talismã da sorte. Na ideologia oriental, o tigre é um importante animal simbólico; aqui, sua imagem tatuada ornamenta o braço do monge

O grupo de fato se reúne e realiza um brainstorming, uma sessão intensiva de troca de ideias. Representantes de cinco países, além de cientistas e especialistas das organizações União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês) e da WWF discutiram durante quatro meses um texto de pouco menos de duas páginas padrão A4. Por fim, eles chegaram à conclusão de que não conseguiam concordar sobre nada. Em vista disso, o secretariado da CITES elaborou um comunicado breve e sucinto.

No papel, a impressão é a de que se trata de uma gigantesca conspiração. Como se todos os delegados da CITES e as 40 organizações internacionais que alegam defender a proteção dos tigres tivessem combinado adiar ad infinitum, para sempre, o tema do comércio ilegal de tigres. Suas táticas, aparentemente unânimes, são manobras de protelação, falta de medidas concretas e silêncio sepulcral sobre o assunto.

Mas existe uma explicação para essa hesitação e falta de ação: medo. Teme-se que a China possa usar a crítica como estopim para flexionar os músculos e dar mostras de seu poder – liberando novamente o comércio de produtos de tigres em seu território nacional.

Embora a República Popular tenha decretado a proibição desse comércio em 1993, a produção de tigres continua de vento em popa. Essa é uma situação completamente paradoxal que, oficialmente, é explicada como uma estratégia para a conservação da espécie. Entretanto, ninguém conhece a árvore genealógica desses tigres, que na maioria dos casos devem ser animais híbridos, frutos do cruzamento entre as subespécies de Bengala, do Amur e do tigre indochinês.

Atualmente, os dois maiores criadores chineses mantêm, cada um, mais de 1.000 animais em cativeiro. Os proprietários pressionam o governo a liberar novamente o comércio alegando que já não conseguem mais alimentar os animais em suas fazendas. Se não fosse tão lamentável, essa linha de argumentação poderia até gerar gargalhadas.

Mas, de fato, o governo chinês sempre traz ao debate a proibição de 1993. A República Popular gostaria de convencer o mundo de que suas fazendas de tigres não constituem um problema, mas uma solução. Elas seriam impecáveis e economicamente eficientes.
Phra Acharn, abade do Templo dos Tigres tailandês, explica a docilidade de seus felinos por meio da “transferência de almas”: os animais seriam parentes reencarnados e ele estaria lhes concedendo abrigo contra comerciantes ilegais. Uma fábula moderna, comovente para os visitantes ocidentais

Recentemente, o Banco Mundial solicitou um cálculo do que realmente aconteceria se 1,3 bilhão de chineses pudessem consumir legalmente produtos derivados de tigres. Os economistas do órgão mundial prognosticaram uma matança ímpar; um gigantesco “buraco negro” que tudo consumiria. Seria a sentença de morte da espécie. Nenhum tigre selvagem estaria a salvo, pois nos postos de controle os comerciantes simplesmente poderiam declarar quaisquer partes de tigres como procedentes de animais criados em fazendas.

Pergunta-se, então, por que investir de US$ 2.000 a US$ 4.000 na criação de um animal que poderia ser capturado clandestina e gratuitamente na natureza? Uma das razões é que os consumidores preferem os felinos selvagens aos exemplares degenerados, criados com carne de galinha cozida. Afinal, esse consumo só envolve de fato uma única coisa: a integração mística da força e bravura do animal ao corpo humano. Sendo assim, a China transformou os tigres em reféns – e o resto do mundo se deixa chantagear e extorquir.
Rota 13 Sul, Laos 
DOIS REPÓRTERES, MUITAS PERGUNTAS


Defronte à fazenda de tigres, à beira da Rota 13, há uma casinha isolada. No andar térreo, uma laociana mantém uma pequena loja de mantimentos. Após a partida de auntie Boonrueng, compramos duas garrafas de suco e nos sentamos nos degraus. Embora não conseguíssemos entrar na propriedade, nossas investigações pelo menos nos levaram a um abade tailandês e uma empresária laociana como dois prováveis intermediários do comércio ilegal de tigres. Também ficou claro que crimes dessa proporção são possíveis apenas com a conivência – ou a participação – das elites.

É um grande engano presumir que o comércio ilegal de animais silvestres seja um delito praticado pelos habitantes pobres de países do terceiro mundo cujos estômagos roncam de fome. Não é a fome que estimula esse negócio; é a ganância.

E agora? Temos a impressão de estarmos em uma terra de ninguém jurídica. No velho oeste selvagem, sem leis. O que devemos fazer? Chamar a polícia?
Departamento Federal de Polícia Criminal, Alemanha 
O CHEFE DE POLÍCIA E O REI DE MADAGASCAR


Rua Welfenstraße 3ª, um cubo de concreto dos anos 70, anexo do Departamento Federal de Polícia Criminal (BKA, na sigla em alemão), em Wiesbaden. Passamos pelo controle de documentação e andamos por corredores longos e vazios. A cada cinco passos, uma porta. Atrás de uma delas encontra-se Peter Müller. Uma porta-voz do BKA sentou-se ao seu lado. Ela colocará sua mão suavemente sobre o antebraço de Müller assim que ele correr o risco de falar demais.

Müller trabalha para o Wildlife Crime Working Group, da Interpol, uma unidade fundada em 2006 para controlar crimes contra a vida selvagem. Perguntamos: eles tiveram sucessos? Cartéis desmantelados? Condenações devido ao comércio ilegal de animais silvestres?

Ele ri. Não ironicamente, mas como se quisesse dizer: “Ei! Vocês acabaram de contar uma boa piada”. E explica que criminalidade contra a proteção de espécies é controle de criminalidade. E como praticamente não há controle, o risco de ser pego em flagrante é quase zero. Os lucros exorbitantes? Não constituem risco. Os intermediários? Muitas vezes são conhecidos, como um holandês que a Interpol apelidou de “o rei de Madagascar”. As autoridades conhecem seus crimes, mas não conseguem pôr as mãos neles.

Peter Müller conta em uma mão os casos em que um intermediário foi denunciado. Mas foi precisamente no julgamento que os verdadeiros problemas começaram, diz ele. “A infração contra a proteção de espécies é apenas uma parte do crime. Acrescente-se a isso a corrupção, a sonegação de impostos, as trapaças. Mas consiga provar tudo isso!” Segundo Müller, leva meses até que uma promotoria consiga juntar os fatos e montar um caso sólido de acusação. Um bom advogado de defesa neutraliza todos os argumentos num piscar de olhos.
Templo dos Tigres, Tailândia 
UM BREVE DIÁLOGO


Início da tarde. A área do templo está insuportavelmente quente. Centenas de turistas fazem fila para se sentar ao lado de um tigre adulto, plenamente desenvolvido, e deixar que alguém encoste sua enorme cabeça em seu colo, para em seguida sorrir para uma câmera.

Um pouco à parte, Matt, o voluntário de Londres, está encostado em uma rocha enrolando um cigarro. Ele risca um fósforo e acende nossos cigarros.

“O Laos é bonito”, digo.

“Laos”, responde Matt, “também quero ir para lá em breve... Dizem que ali existe uma fazenda de tigres...” Ele apaga seu cigarro com a bota. “Nós não compramos nem vendemos”. Pouco depois disso, em um zoológico de Bancoc, alguém oferece tigres bebês a Patrick Brown e a mim por € 3.600,00 o exemplar (pouco mais de R$ 8.000,00). Mercadoria saudável, recém-chegada do Templo dos Tigres, diz a pessoa. Falamos que pensaríamos sobre o assunto.
ONDE COMEÇA NOSSA CUMPLICIDADE?


A primeira ideia que se tem sobre o comércio ilegal de animais selvagens é que se trata primariamente de um problema da Ásia, da China, dos países pobres e emergentes da Terra. As imagens a seguir, de fato, provêm em sua maioria daquela parte do mundo. Mas algo incomodou os repórteres de GEO: incoerências, pistas frias e silêncio por toda parte. Anke Sparmann começou a insistir e de repente desvendou um caso totalmente novo. Nele não se trata de abastecer a medicina oriental, mas a ocidental: o tráfico de macacos para laboratórios de pesquisa na Europa.


UM LABORATÓRIO OCIDENTAL paga US$ 1.500,00 ou mais por um primata. Por essa soma, o instituto recebe um animal que foi especificamente gerado e criado para fins de pesquisa. Pelo menos é isso o que consta de seus papéis de importação. Sua origem é identificada pela letra “C”: bred in captivity – criado em cativeiro.

A pergunta se esse “C” de fato corresponde à verdade, ou se muitos dos mais de 100.000 macacos comercializados anualmente na realidade são animais selvagens, capturados na natureza, é algo que está sendo apurado atualmente pelos departamentos norte-americanos de investigações criminais. As sindicâncias são secretas e globais; razão pela qual o verdadeiro nome do agente nesta história foi omitido.

Ao saber das investigações de GEO, o agente especial Derek Morrison solicitou um encontro urgente com os repórteres em um restaurante em Bancoc. Sua explicação do suposto transcorrer dos acontecimentos foi altamente elucidativa. Um primata que cresce em liberdade na natureza não custa um centavo a ninguém. Não precisa ser alimentado e ninguém tem de cuidar de sua saúde. Além disso, ao ser capturado, ele gera uma pequena fortuna para cada pessoa por cujas mãos ele passa: US$ 50 para o caçador, US$ 150 para o primeiro intermediário, US$ 500 para o segundo e assim por diante. O preço aumenta cada vez mais.

Morrison afirma que os comerciantes desses animais selvagens nem sabem o que fazer com tanto dinheiro e que os primatas chegam aos seus compradores a preços exorbitantes. Trata-se de uma colossal operação em série, mais condenável que todos os outros casos de comércio ilegal de vida selvagem, porque na outra extremidade da cadeia não se encontra um consumidor isolado, mas a grande indústria biomédica e de pesquisas. Meio mundo está envolvido nesse processo: o Sudeste Asiático é a região de origem dos primatas; a China, seu ponto de baldeação. O Japão, os Estados Unidos e a Europa são os receptores finais.

Será que a história de Derek Morrison está correta? Uma prática desse gênero não só violaria todas as leis nacionais e internacionais de proteção a espécies da fauna e da flora como infringiria todos os termos da Convenção de Washington (CITES).

A julgar por suas declarações, empresas farmacêuticas, universidades e institutos de pesquisa estariam agindo contra o direito vigente, contra qualquer ética e contra todo bom senso ao envolverem animais silvestres em seus experimentos.

E, em caso afirmativo, será que eles não se dão conta? Será que não querem dar-se conta? Ou, pior, eles sabem, mas não interferem?

Quem é o enganador e quem o enganado nessa história policial econômica é uma das muitas perguntas sem respostas. Faltam provas jurídicas concretas, capazes de resistir a um julgamento. Porém novas sondagens de peritos, testemunhas e intermediários alimentarão ainda mais as suspeitas levantadas por Morrison. Mas primeiro nossa equipe procurará elucidar as razões que existem por trás do comércio de primatas.

A PRIMEIRA IMPRESSÃO que se tem ao visitar o Centro de Primatas Alemão (DPZ, na sigla em alemão), em Göttingen, é entrar em um zoológico bem administrado. Um total de 1.300 macacos estão instalados em um complexo pintado em cores alegres e, desde que (ainda) não estejam envolvidos em experimentos, os animais aqui vivem em grupos. As áreas ao ar livre são espaçosas e tanto dentro do edifício como fora há estruturas de madeira, confeccionadas pelos próprios funcionários, para os animais se exercitarem. Duas veterinárias e 32 tratadores cuidam do bem-estar dos animais. Aos olhos de um leigo, nada parece lhes faltar. O próprio DPZ realiza experimentos com primatas, mas também foi incumbido pelo governo federal e os estaduais de fornecer macacos a outras instituições de pesquisas. Esses animais provêm de suas próprias populações ou são adquiridos através de um intermediário de fazendas de criação na China.
Um filhote de macaco-de-cauda-longa é vendido como animal de estimação por US$ 10,00 no mercado da cidade de Medan, na Indonésia. Mas os indivíduos que fornecem animais dessa espécie aos laboratórios obtêm lucros iguais aos do narcotráfico: US$ 50 para quem captura, US$ 150 para o primeiro intermediário, US$ 500 para o segundo. No fim, um instituto de pesquisa ocidental paga US$ 1.500 ou mais pela mercadoria

Na Alemanha são “gastos” anualmente entre 2.200 e 2.500 macacos; isso quer dizer que eles morrem no decorrer de experimentos ou são sacrificados após a conclusão destes (pela importância de suas autópsias para a ciência). Em vista desse consumo é necessário reabastecer os próprios estoques. Nem todas as espécies servem a todos os propósitos. Médicos especializados em transplantes, por exemplo, dão preferência a babuínos, que mais se assemelham ao ser humano do ponto de vista do tamanho. Em outros ramos da medicina os macacos-rhesus (ou simplesmente reso) e os macacosda-cauda-longa estabeleceram-se como animais-modelos.

Todos os três pertencem ao grupo dos “NHP”, non-human primates, primatas não humanos, como são chamados no jargão técnico. Portanto, todos os primatas, exceto os antropóides, que são anatomicamente semelhantes ao homem. Os NHP são populares como animais de laboratório porque, de um lado, se assemelham geneticamente ao homem; do outro, experimentos invasivos realizados neles não geram tanta polêmica e escrúpulos éticos como os que envolvem chimpanzés, gorilas, orangotangos ou gibões.

O diretor da colônia de primatas do DPZ e responsável pela aquisição e venda dos animais é Uwe Schönmann. Há 25 anos, relata ele, o centro começou a criar seus próprios primatas: macacos-reso. Da atual população de 320 animais ele pode retirar anualmente de 20 a 30 machos. As fêmeas jovens estão reservadas para a formação de novos grupos de matrizes.

Schönmann cobra de € 5.000 a € 8.000 (cerca de R$ 11.400 e R$ 18.200) por um animal macho de 3 a 4 anos; o que não corresponde nem de longe aos custos reais. Esses vão se acumulando no decorrer dos anos quando, em um país desenvolvido, com salários elevados, tratadores bem diplomados e veterinários cuidam dos animais. Em comparação com um primata oriundo da população de uma fazenda chinesa, os verdadeiros gastos de Schönmann são, no mínimo, € 15.000 (cerca de R$ 34.000). Em outras palavras: um primata procedente de uma criação ocidental é dez vezes mais caro que um oriental.

Para o DPZ, bem como muitos de seus clientes, universidades e instituições de pesquisas, os custos podem não ser tão significativos, pois a maioria se financia com fundos públicos; seus esforços não visam gerar lucros e, finalmente, eles necessitam apenas de um número reduzido de macacos de laboratório.
Macacos para o Ocidente, ursos para o Oriente: a criatura sofre para que o ser humano passe bem. Esta fazenda em Hanói, no Vietnã, mantém 290 ursos-negrosasiáticos em gaiolas apertadíssimas. Enquanto toma uma xícara de chá, o proprietário prepara os anestésicos. Em seguida, o suco biliar é retirado dos animais anestesiados. Ele é considerado um santo remédio

Em um empreendimento que “gasta” anualmente 10.000 primatas, o montante envolvido ultrapassaria de longe € 100 milhões (cerca de R$ 227,6 milhões). Além disso, para poder destinar 10.000 animais jovens por ano para pesquisas, seriam necessárias colônias de criação com entre 30 e 40 mil animais – que não existem em países ocidentais.

Apesar dos custos elevados, Uwe Schönmann quer expandir sua modesta criação para tornar-se “independente das importações da China”. Segundo ele, isso é necessário em razão de “problemas de transportes”. De fato, cada vez menos empresas aéreas estão dispostas a aceitar animais experimentais como carga. De um lado, elas temem por sua reputação; de outro, há o inconveniente da duração total da viagem – os tempos de espera em aeroportos, o voo e os processos de transferência incluídos –, que faz com que os primatas fiquem presos durante 30 horas ou mais em suas pequenas caixas de transporte. Uma crueldade.

O centro de primatas alemão não exclui a possibilidade de que alguns de seus animais experimentais na realidade tenham sido capturados na natureza. Em uma declaração fornecida pelo DPZ, a instituição reconhece que “apesar de inspeções regulares das estações de criação e do cuidadoso controle da documentação dos animais, não se pode excluir que em algum lugar na linha de transações entre os intermediários não se infiltrem alguns animais selvagens”.

Isso, por sua vez, aponta para uma pergunta decisiva: que garantia existe de que os comerciantes chineses não “empurram” aos seus clientes macacos selvagens, capturados ilegalmente, como sendo animais de criação?

É IMPOSSÍVEL DETERMINAR externamente se um primata cresceu em cativeiro ou na natureza. Essa avaliação se torna ainda mais difícil quando se vê um animal confuso e perturbado em razão de sua longa viagem. O agente secreto Derek Morrison, que se faz passar por intermediário, não compareceu sozinho ao restaurante em Bancoc. Ele veio em companhia de Erin Dean, uma mulher miúda, de rabo de cavalo, que trabalha como inspetora do Serviço de Peixes e Vida Selvagem dos Estados Unidos. Sua sede está localizada em Los Angeles, na Califórnia, em cujo aeroporto internacional ela controla a entrada de primatas no país.

Em 2009, os Estados Unidos importaram 22.098 macacos. À exceção de alguns poucos animais adquiridos por zoológicos, todos os outros destinavam-se a laboratórios e quase todos – pelo menos de acordo com seus respectivos documentos – provinham de fazendas de criações. Segundo Dean, um avião da Air China pousa em Los Angeles várias vezes por semana, com 150, 200 primatas a bordo.

Como funciona o controle?

“Ilumino com minha lanterna o interior escuro de uma caixa de transporte. Lá dentro vejo um macaco que se esconde no canto mais distante.”O comportamento do animal permite conclusões sobre sua procedência?

“Depois desse voo extremamente longo os animais estão completamente desnorteados e amedrontados. Sem exceção. E mesmo que um animal de fato tenha crescido em cativeiro, isso não quer dizer automaticamente que ele está acostumado ao contato com pessoas.”Dean então verifica se a espécie e o número de animais que estão chegando foram corretamente declarados nas guias de importação. Em geral, está tudo certo. Perguntada se ela acredita que entre os animais identificados com a abreviação “C” também se encontram exemplares selvagens, capturados na natureza, Erin Dean responde com um olhar incrédulo: “É claro que sim”.

Ela não fundamenta sua convicção apenas nos baixos custos atrelados a um primata silvestre; o que ela de fato considera decisivo na trapaça é a necessidade dos laboratórios ocidentais: “Uma demanda que age como um enorme buraco negro que suga tudo. E quando um lado exerce pressão excessiva, o outro necessariamente se desequilibra e acaba faltando mercadoria”.

A demanda de exemplares de NHP aumentou drasticamente nos Estados Unidos na última década em razão das pesquisas com células-tronco, terapia genética, síndrome respiratória aguda severa (SARS), gripe suína, ebola, etc. As esperanças de encontrar novas curas e conseguir controlar quaisquer riscos devem ser medidas e avaliadas em experimentos animais. E novos temores devem ser dominados através dessas criaturas: após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, o governo americano mandou testar toxinas e agentes patogênicos para determinar suas potências como armas letais: sarin, anthrax, varíola, peste bubônica e outros. Nos anos subsequentes ao atentado, os pesquisadores ocasionalmente apelavam para saguisde-tufos-brancos (ou micos-estrelas) – os mercados de macacos-reso e macacos-de-cauda-longa estavam completamente esgotados.

Mas o gargalo na linha de abastecimento durou pouco – estranhamente pouco. Em 2001, os Estados Unidos importaram 13.559 macacos-de-caudalonga; em 2005, as estatísticas saltaram subitamente para 24.629 e, em 2008, chegaram a até 26.512. Nesse mesmo período de tempo, a participação chinesa no fornecimento de animais quintuplicou.

PODE-SE SONDAR primatólogos durante muito tempo e ainda assim não encontrar um único que acredite que esse índice de aumento não seja suspeito. Yuzuru Hamada não é exceção. O japonês é um homem ponderado, um cientista pedante que elabora dissertações especializadas em cada minuto livre de seu tempo. Hamada é pesquisador no centro de primatas de Kyoto e, no decorrer de 2009, viajou diversas vezes para o Laos, onde investiga a área de propagação dos macacos-de-cauda-longa.

Ninguém é capaz de estimar, nem por alto, quantos macacos dessa espécie ainda existem na natureza. Eles estão esparramados por vastas partes do Sudeste Asiático, mas onde, precisamente, vivem é um enigma.

Hamada desenvolveu um método simples para limitar a ocorrência dos macacos localmente. Ele visita as aldeias e pergunta se alguém tem um macaco como animal doméstico. Em seguida, pede ao dono do animal que lhe mostre o local onde o bicho foi capturado. Para grande surpresa do pesquisador, ele encontrou os primatas em regiões nas quais jamais teria imaginado. Mas o enigma foi rapidamente desvendado: os macacos não pertenciam a um grupo silvestre natural.

Eram foragidos de fazendas de criações.

Fazendas? Barracos seria mais adequado. Dezenas de jaulas rudimentares empilhadas em uma área do tamanho de uma garagem. Cada uma com 30 ou 40 animais sem espaço para se mover. Hamada consegue tirar fotos. Elas documentam o lamentável estado dos animais.

Mesmo quando bem-tratados, um em cada 10 primatas cativos apresenta problemas de conduta: ele se torna agressivo, excessivamente medroso, ou entra em depressão. Nesses casos, os animais são medicados com benzodiazepina – ansiolíticos utilizados como sedativos, hipnóticos, relaxantes musculares e anticonvulsionantes –, que lhes proporciona distração. Mas na angustiante estreiteza do acampamento na província laociana de Champasak, o estresse só conhece um escape: a automutilação. Os antebraços dos primatas são desprovidas de pelos. Eles próprios os arrancam.

As fotos de Hamada provam o quanto esses macacos são maltratados. O chocante nas imagens, porém, é o que não se pode ver nelas: não há macaquinhos bebês, nem fêmeas gestantes. “Aqui jamais foi – nem será – criado um primata”, sentencia ele. Yuzuru Hamada havia descoberto, por acaso, um acampamento de coleta de animais selvagens.

Ele fica sabendo por meio dos trabalhadores da “fazenda” que os animais foram capturados na Tailândia e no Camboja. O Laos faz fronteira com os dois países. Os macacos permanecem um, dois meses nesses campos de coleta antes de prosseguirem viagem rumo à China. Hamada descobre cinco fazendas desse gênero no Laos e calcula que até 10.000 animais silvestres sejam transferidos para fora do país. Há relatos de operações semelhantes em Mianmar, no Vietnã, na Malásia, Indonésia e no Camboja.

São milhares de grupos familiares de primatas destroçados. Milhares de indivíduos traumatizados pelo súbito encarceramento – uma jornada sem volta da floresta ao mundo dos laboratórios.

É um drama que não poderia existir. Nem segundo as leis chinesas. Na República Popular o comércio com primatas capturados na natureza é proibido. Isso, porém, apenas significa que os animais silvrestres não podem entrar legalmente na China. Ou eles cruzam a fronteira por obra de contrabandistas e traficantes, ou o “C” de bred in captivity já é carimbado em seus respectivos documentos no Laos.

Onde começa a trapaça de identificação?

LAOS, PROVÍNCIA DE BOLIKHAMXY. Aqui, no final de uma estrada recém-asfaltada, localiza-se a Fazenda de Animais Selvagens Vannaseng. A equipe de GEO consegue entrar na propriedade, cercada por muros e uma cancela, apenas poucas semanas depois das viagens de Yuzuru Hamada através do Laos. De início, caminhamos ao longo de uma série de pequenas jaulas de exibição, cheias de primatas. Em seguida, o caminho se ramifica em direção a diversos edifícios – cocheiras do tamanho de ginásios de esportes. Bem no meio da sede há duas casas acessíveis por meio de amplas escadarias. Os frontões ostentam lampiões chineses. Mas antes que possamos entender o conjunto arquitetônico guardas de segurança chegam correndo.
Esse pequeno urso-do-sol, ainda quase um bebê, é libertado das mãos de um traficante por um guarda-florestal cambojano. No Leste Asiático, jovens ursos frequentemente são mantidos como animais domésticos. Ao atingirem a maturidade eles são mortos e estripados. E seus proprietários “colhem” todas as partes cobiçadas pela medicina
A continuação de nossas investigações sobre a fazenda Vannaseng foi inicialmente vaga. Seu proprietário seria um sujeito importante, um macarrão gordo, como se diz localmente. Os habitantes das aldeias vizinhas reclamariam de tempos em tempos sobre “um fedor bestial de macacos”. Também se falou em caminhões cheios de primatas que transpõem o próximo Rio Mekong, que forma a fronteira com a Tailândia. Boatos, conversas. Nenhum fato concreto.

Depois disso, a equipe de GEO enviou um e-mail à Vannaseng Trading Company Ltd., razão social da fazenda de animais selvagens nas “páginas amarelas” laocianas – e recebeu uma resposta imediata.

A razão para o detalhado e-mail repousa em um engano grotesco: seu redator, o jovem Vannaseng Ounalom, aparentemente tomou a GEO por uma empresa, um cliente em potencial. Até mesmo um possível grande comprador de seus primatas. De todo modo, Vannaseng aconselha a encomendar uma quantidade suficientemente grande de macacos para que o “frete de um avião cargueiro para a Alemanha valha a pena”. Se os animais fossem enviados por aviões de carreira, escreveu ele, “provavelmente chegariam mortos”. Além disso, GEO recebe a oferta de se tornar sócia de uma fazenda de primatas nova e maior ainda, no Laos: a LAOBIO.

No Laos, que segundo a Transparency International, uma ONG que lidera a luta contra a corrupção, é um dos países mais corruptos do mundo, o comércio de espécies protegidas é tradicionalmente uma atividade das elites. Nomes não são citados em público, mas para o observador fica imediatamente claro que os grandes negócios com animais selvagens são inimagináveis sem a participação ativa de altas autoridades laocianas. Parece perfeitamente plausível que elas poderiam usar seus cargos e posições para organizar os papéis necessários para uma exportação para a China. Nesse caso, as fazendas de animais selvagens funcionariam como “instalações de reciclagem”: animais silvestres capturados in natura passariam por elas e entrariam na República Popular como animais criados em fazendas. Por fim, Vannaseng lista em seu e-mail à GEO os lugares aos quais costuma fornecer macacos: Guangzhou, Hainan, Kunming. Todos no sudeste da República Popular, onde o clima tropical permite a manutenção de primatas sem problemas. Todas as grandes fazendas de primatas que fornecem animais aos laboratórios ocidentais têm suas sedes nesta região.

O INCAUTO E-MAIL À GEO responde algumas perguntas e suscita outras novas. Que quantidade de primatas a fazenda Vannaseng vende à China? Como é possível provar que se trata de animais selvagens? E qual é o destino final desses animais? Pouco depois do e-mail de Vannaseng à GEO, uma equipe da organização britânica de proteção a animais British Union for the Abolition of Vivisection, ou apenas BUAV, procurou o jovem laosiano – disfarçadamente.

Somados, as investigações de GEO, as descobertas da BUAV e os números oficiais sobre o comércio internacional de primatas resultam em uma longa sequência de indícios.

A CITES, que regulamenta o comércio internacional de espécies protegidas, exige que seus países-membros comuniquem todas as exportações e importações de animais selvagens. Essas informações são armazenadas em um banco de dados acessível ao público. De acordo com seus registros, de 2007 a 2008 a China importou 9.550 macacos-de-cauda-longa, procedentes do Laos; onde teriam sido criados em cativeiro. A letra “C” consta da coluna correspondente na folha de dados do CITES.

Mas para ser classificado como “criado em cativeiro” de acordo com as definições da CITES, um animal precisa pertencer, no mínimo, à chamada “geração F-2”, que indica que a geração dos pais (F-1) já nasceu em cativeiro.

Agentes aduaneiros tailandeses interceptam um carregamento de pangolins no aeroporto de Bancoc. As 102 caixas destinamse à China, onde os animais são considerados uma iguaria, além de fonte de medicamentos. E a Europa? Acima, uma espiada na sala de artigos confiscados pela polícia de Londres

O tempo de gestação de um macacode-cauda-longa é de 6 meses e os animais atingem maturidade sexual entre os 4 e 6 anos de idade.

Calculando que um animal tenha sido vendido ainda muito jovem, aos 2 anos, a fazenda Vannaseng necessariamente teria de ter começado com sua criação na década de 90, para poder fornecer primatas da geração F-2 entre 2004 e 2008. Entretanto, a fazenda só foi fundada em 2004.

Essas ponderações poderiam levar à conclusão de que outras fazendas laocianas tivessem competido pelas exportações para a China. No entanto, não existe nenhum indício da existência de uma fazenda de primatas no Laos antes do ano 2000. (E para onde o país teria enviado seus macacos, já que a nação só assinou a Convenção de Washington – CITES – em 2004? Antes disso, nenhum país vizinho – todos signatários do tratado de proteção de espécies – poderia ter importado animais selvagens do Laos por caminhos oficiais.)Além disso, a fazenda Vannaseng alega ter fornecido grande parte dos questionáveis primatas: só em 2008 ela teria exportado 9.000 macacos.

Aos disfarçados membros da BUAV, Vannaseng Ounalom fornece dados concretos sobre as fazendas chinesas abastecidas com seus macacos em 2009. Segundo ele, em janeiro daquele ano, 900 exemplares foram enviados à Yunnan Laboratory Primate Inc. No mesmo mês, outros 2.000 animais teriam sido vendidos à Hainan Jingang Laboratory Animal Co. E, em agosto de 2009, 1.300 primatas foram entregues ao Huanzheng Laboratory Animal Breeding Centre.

Todas as três fazendas pertencem ao grupo dos principais exportadores de primatas para os Estados Unidos. Juntas, elas exportaram pouco menos de 5.000 exemplares de NHP aos EUA em 2009 – 25% da demanda total. Sua lista de clientes inclui a Covance Research Products, Charles River Laboratories, SNBL-USA Ltd., Worldwide Primates, Primate Products, Shared Enterprises e Buckshire Corporation.

Covance, Charles River e SNBL são institutos de pesquisa terceirizados, que realizam principalmente estudos pré-clínicos: eles testam, por exemplo, novos medicamentos em experimentos animais para determinar seus diferentes efeitos, toxicidade geral, compatibilidade de uso em gestantes. As outras empresas listadas comercializam primatas e abastecem laboratórios públicos e privados – entre eles os dos grandes conglomerados farmacêuticos.
QUEM PROCURA reconstruir a rota dos primatas das florestas do Sudeste Asiático até os laboratórios ocidentais, perderá a pista na China – apesar de toda a numerália existente oficialmente. Entre suspeitas e certezas absolutas permanece uma lacuna inexplicável. Uma área cinzenta e nebulosa.

Na China existem cerca de 40 fazendas de criação de primatas. Será que todas elas aumentam seus estoques com animais selvagens? Será que uma fazenda que não compra macacos capturados na natureza consegue manterse competitiva no mercado? Ela é capaz de atender um cliente que quer 1.000 animais de 4 anos apenas com os exemplares de sua própria população? Em outras palavras: será que cada fazenda alimenta os macacos jovens durante 3, 4 ou 5 anos (enquanto continua produzindo novas crias com os animais mais velhos) na simples esperança de encontrar um comprador?

Essas são perguntas sem respostas. Nem para uma repórter, nem para os clientes dessas fazendas.

CHA é a sigla de Cambridge Healthtech Associates, uma renomada empresa de consultoria norte-americana, especializada em conglomerados farmacêuticos. Ela elaborou um estudo intitulado “Aquisição de Animais de Laboratório na China”, cujos resultados na realidade não se destinam ao público em geral. As informações são fornecidas por 38 gerentes; todos empregados em departamentos de pesquisa e desenvolvimento de grandes empreendimentos biomédicos, como AstraZeneca, Boehringer Ingelheim, Eli Lilly, GlaxoSmithKline, Johnson & Johnson, Novartis ou Covance.

Sob o manto do anonimato, 90% dos entrevistados afirmam ter dúvidas quanto à qualidade dos primatas procedentes da China; seu estado de saúde, comportamento, trato e, principalmente, a “sustentabilidade” da oferta.
Este lóris-lento-pigmeu é reintroduzido na natureza. Caçadores clandestinos tinham capturado o raro primata no Parque Nacional Bokor, no Camboja, guardando-o em um saco plástico para o transporte. Mas guardas-florestais invadiram e reviraram seu acampamento

O quadro geral é assustador. Se a mercadoria oferecida envolvesse porcos, galinhas ou gado, todos os atacadistas provavelmente deixariam esses fornecedores de lado.

Entretanto, segundo a pesquisa da CHA, quase todas as firmas citadas conduzem vistorias nos locais onde compram os animais na China; porém em grande parte com resultados insatisfatórios. Problemas idiomáticos, diferenças culturais, um emaranhado de leis dificultam qualquer investigação: o que as fazendas chinesas fazem com os primatas é algo que permanece inescrutável.

A Covance Laboratories, cuja matriz fica em Princeton, Nova Jersey, é um dos maiores institutos de pesquisa terceirizada do mundo e importa anualmente cerca de 10 mil primatas para fins experimentais nos Estados Unidos. A filial alemã, localizada em Münster, que testa a salubridade de medicamentos ministrados durante a gravidez e realiza estudos terceirizados sobre a medicina reprodutiva, necessita de outros mil exemplares.

Os animais experimentais são principalmente macacos-de-caudalonga: as fêmeas dessa espécie têm um ciclo menstrual anual de 31 dias; portanto, comparável ao das mulheres. Os animais vêm da China, do Vietnã e das Ilhas Maurício, informa Wolfgang Müller, diretor do Departamento de Serviços Toxicológicos da Covance Laboratories, em Münster. Entretanto, diante de outras perguntas, ele admite que “não podemos excluir a possibilidade de que entre as fazendas de criação de primatas também existam ‘ovelhas negras’. Examinamos o histórico de criação de todos os macacos, inclusive suas fichas de doenças, e só trabalhamos com fazendas de criação capazes de comprovar seus padrões de qualidade em visitas regulares e controles minuciosos”.

Wolfgang Müller também quer excluir a possibilidade de que animais selvagens, em vez de criados em cativeiro, acabem chegando aos seus laboratórios. Além da Covance, GEO procurou contatar outros oito institutos de pesquisa farmacológica, mas apenas a Novartis e a GlaxoSmith-Kline mostraram-se acessíveis. Somente primatas de “fazendas de criação impecáveis” seriam integrados em sua própria população de animais experimentais, informou a Novartis. Quando surgem problemas insolúveis durante os controles dos estabelecimentos de criação, “encerramos nossos trabalhos conjuntos”, informa o laboratório aludindo ao fato de que “no passado sempre voltaram a ocorrer casos de negligência na manutenção dos animais experimentais – não só, mas também em fazendas de criação no espaço asiático”.

“TODOS SABEM”, escreveu o agente especial Derek Morrison em um e-mail, pouco antes do encontro em Bancoc. Isso parecia ser um exagero descomedido. Mas quanto mais peças do quebracabeças são encaixadas, maior se torna a propensão de lhe dar razão. Roberto Hartelust também deveria ter contribuído para elucidar o tema. O holandês comercializa primatas há três décadas. Ele montou uma estação de quarentena própria em Beijing, além de outra que mantém em sua cidade natal, Tilburg, na Holanda.

Sua empresa R. C. Hartelust BV fornece primatas oriundos da China a empresas particulares bem como a institutos de pesquisa públicos em toda a Europa. Entre seus clientes na Alemanha estão o DPZ, o Centro de Primatas, em Göttingen, e a Covance Laboratories, em Münster. Em 2008 – dados mais recentes inexistem –, 2.040 macacos-de-cauda-longa foram importados pela Holanda da China. Todos os animais traziam a descrição “C” em seus papéis. Entretanto, é impossível determinar, a partir do banco de dados da CITES, o número de primatas transferidos da Holanda para a Alemanha. A razão para isso é simples: dentro do território da União Europeia (UE), a importação e a exportação de animais não precisam ser obrigatoriamente declaradas.

Telefonamos para Roberto Hartelust, em Tilburg. De onde ele obtém seus animais? O que sabe sobre as práticas comerciais de seus parceiros na China? De início, o holandês ainda fala sobre “diversas fazendas” das quais compra seus primatas. Mas então ele interrompe o telefonema bruscamente dizendo que “sistematicamente só responde a perguntas enviadas por e-mail”. À solicitada inquirição por escrito, Hartelust respondeu que não daria informação alguma, para não fornecer munição aos opositores de experimentações animais.

O tema, de fato, é delicado. Mas nesse caso não se trata dos prós e contras de experiências que envolvem animais, mas de leis e obrigações éticas.

Trata-se também da pergunta: qual é o sentido das pesquisas realizadas com macacos, quando não se tem certeza sobre suas origens?

Keith Mansfield é professor do Centro de Primatas da Universidade de Harvard. Sua área de especialização: doenças infecciosas. A última coisa que ele poderia querer em suas pesquisas seriam animais de procedência questionável, diz ele. Macacos selvagens, capturados na natureza, poderiam inclusive ser portadores de patógenos ainda desconhecidos. E, independente do perigo de pesquisador e pessoal de manuseio dos animais serem infectados com uma doença inédita, as pesquisas com animais desse gênero não resultariam em dados confiáveis, explica Mansfield.

Se ele testasse, por exemplo, uma vacina contra gripe em um macaco infectado por um outro vírus, ele “provavelmente chegaria a resultados completamente falsos”.

Keith Mansfield advoga um abrangente controle de qualidade dos animais de laboratório; só que nem ele sabe dizer precisamente como deveria ser constituído e executado.

Até hoje não existe uma possibilidade de diferenciar os exemplares selvagens, capturados na natureza, dos animais criados em cativeiro.

BANCOC, FINAL DE UM DIA QUENTE. Poucas horas após a conversa com o agente especial Derek Morrison começou um congresso internacional sobre o tema “Futuro das Pesquisas em Animais de Laboratório”, no Hotel Rose Garden Riverside.

À noite, os congressistas se reúnem para um banquete nos amplos gramados do hotel. Todos eles usam longos colares trançados de flores de lótus e pequenos crachás de identificação que revelam que aquele senhor miúdo é Yuzuro Hamada, de Kyoto, e aquela loira alta é Tâmara Becker, uma das veterinárias do Centro de Primatas alemão, em Göttingen.

Os grupinhos se mesclam, se fundem, se separam. Em dado momento, Yuzuru Hamada se dirige a Tâmara Becker: “De onde vocês obtêm os seus macacos?”.

“De fazendas de criação na China”, responde ela.

Hamada retruca: “Mas vocês podem ter certeza disso?”.

“Não”, afirma Tâmara Becker, “como poderíamos?”.

ENTREVISTA
“A UNIÃO EUROPEIA PRECISA DE UMA PROIBIÇÃO DE IMPORTAÇÃO”
Peter Püschel é diretor do programa do Fundo Internacional para o Bem-Estar Animal (IFAW, na sigla em inglês). Na entrevista, ele explica o que pode ser feito contra o tráfico de animais.
GEO: Como é possível limitar o número de macacos selvagens que chegam aos laboratórios europeus?
Peter Püschel:
 A União Europeia (UE) precisa adotar uma legislação própria e decretar uma proibição de importação – em vez de apostar somente na Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (CITES, na sigla em inglês). Esta seria uma mensagem importante para que os países asiáticos melhorassem seus sistemas de controle e leis.
Um certificado da UE para a importação de animais de laboratório seria uma alternativa?
Não. Seria necessário garantir que os controles das empresas sejam rigorosos e que os padrões europeus de proteção animal fossem respeitados. E quem poderia dar essa garantia?
O que mais poderia ser feito, inclusive para a proteção dos tigres? 
Treinar agentes alfandegários, aplicar leis ou exigir comprovantes. E estabelecer contatos que frequentemente inexistem: por exemplo, entre a alfândega e o departamento veterinário, quando se trata de animais vivos. Também treinamos guardas-florestais em áreas protegidas de tigres – na Índia e na Rússia. Nós lhes fornecemos equipamentos, como sacos de dormir, câmeras, veículos tracionados e até paragliders. Mas é claro que também é preciso aprovar leis nacionais que correspondam aos padrões europeus de proteção animal – por exemplo, na China. Ali o governo até fomenta a criação de animais, o que favorece o tráfico e comércio ilegais. Mas também há histórias de sucesso: portais na internet, como o Tao Bao, uma espécie de e-Bay chinês que proibiu o comércio de espécies ameaçadas. Ele controla o site com filtros e barra comerciantes que tentam burlar as normas e inserir anúncios do gênero.
Por que até os protetores de animais denunciam tão raramente o comércio de tigres?
Na China não existe um status para uma ONG, um órgão não governamental que lhes forneça proteção. Por isso, os denunciantes frequentemente se veem prestes a serem expulsos do país. Por essa razão, muitas organizações são cautelosas. Nosso próprio website também já sofreu diversos bloqueios em razão de conteúdos críticos.

Há sete anos o australiano PATRICK BROWN investiga os conluios obscuros dos traficantes de animais. Sua melhor camuflagem nessas pesquisas altamente delicadas e complexas é fazer-se passar por um turista ingênuo e curioso. Brown é um apaixonado militante, que entende seu trabalho fotográfico como uma espécie de arma na luta contra a liquidação de espécies. ANKE SPARMANN é repórter de GEO.





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