26/03/2012

Imprensa: como transformar o factual em fatídico e fatal



Escrito por Celso Athayde
A liberdade de imprensa é, sem a menor dúvida, o maior patrimônio do Estado democrático. Isso todo mundo concorda, mas muitos ajustes ainda precisam ser feitos para que a imprensa não seja apenas um veículo de reprodução de mensagens.
Essa semana começou para mim com mais uma grande confusão, promovida pela querida Cristiane, irmã do MV Bill, todos na CDD sabem do drama familiar que o negrão vive há muitos anos. Bill é “pai” dos três filhos de sua irmã, cuida dos três desde que nasceram devido à ausência física dela. Mas isso nada tem a ver com a imprensa.

Nesta segunda feira, a moça, após virar o fim de semana no desfrute, entrou em crise de depressão e aprontou na comunidade. Bill e sua irmã Camila foram chamados. Claro, mais uma vez a levaram pra casa de Bill. Porém, a moça escapou após Bill levar a outra filha, uma menina de 10 anos ao hospital devido a uma febre. Mais uma vez a moça aprontou, e dessa vez foi até a delegacia e disse que o Bill bateu nela e acertou com uma madeira seu calcanhar. Repito, seu calcanhar. Nada além disso.
No dia seguinte, todos os jornais do país, rádios e emissoras de TV anunciavam, de forma sensacionalista: “MV Bill está foragido, é procurado pela policia após espancar à pauladas sua irmã”. Claro, que com uma chamada estratégica dessas até eu vou achar o Bill um monstro e transformar o jornalista responsável pelo furo em gênio. Bem amigos , eu como leitor desatento posso achar isso, mas um veículo de comunicação sério e responsável, sobretudo os que fazem ao vivo, em respeito a seus ouvintes, deveriam no mínimo fazer duas três coisas: 1) ligar para o Bill e saber sua versão; afinal um Estado democrático deve preservar o direito do cidadão também; 02) ligar para a delegacia e saber do delegado se o Bill estava mesmo foragido e, portanto, sendo procurado. Isso é tão grosseiro que o mais humilde cidadão sabe que o Bill só poderia estar foragido se houvesse mandado de prisão contra ele — no máximo, o que poderia ter havido seria um pedido de esclarecimento, uma intimação no maximo. Até aí, é um problema do Bill. De toda maneira, é incrível como esses jornalistas embarcaram numa controvérsia dessas, sem ser por maldade, pois são todos cultos e inteligentes. Mas não fizeram isso, simplesmente decidiram fazer coro para tentar desmoralizar o Bill. E duvido que seja por maldade deles, mas pelo puro desejo de emplacar uma noticia bombástica, independentemente se acreditam ou não na história.
Por fim, a terceira e última coisa que deveriam fazer era saber se existia mesmo essa acusação de espancamento. Eu não sou jornalista, mas sempre escutei que um veículo deve apurar, para depois se posicionar. Óbvio, sabemos que existem alguns veículos que notoriamente são especialistas nessas “aventuras”, mas até aí tudo certo. O estranho é ver veículos importantes embarcarem cegamente nessa canoa, levando as pessoas a imaginarem que a irmã do Bill estava quase em coma de tanta paulada. Enquanto isso, ela estava na casa do Bill, sendo cuidada, sendo levada para um especialista, para ser tratada e por conselho desse mesmo profissional sendo levada para se divertir na praia. Inclusive, o país inteiro pôde vê-la de biquíni na Barra da Tijuca, sem nenhum arranhão, 24 horas depois da queixa como também, ela amanhecendo na casa do Bill junto com seus três filhos, criados por Bill.
Pois é, alguns veículos embarcaram numa roubada, se desmoralizando perante seus ouvintes, pois o Bill, na terça-feira, se apresentou para esclarecer e pediu rigor nas investigações para não deixar dúvidas dessa história absurda de pauladas e agressões. E mais, o Bill impediu a irmã de fazer outro depoimento negando os fatos narrados por ela, pois ele só aceita esse novo depoimento depois que ela receber alta do seu médico.
Claro que o fato da irmã do Bill fazer essa acusação, independentemente de estar no seu estado normal ou não, é uma notícia relevante e precisa ser dada, por tudo que o Bill representa, até porque se ele não fosse tão importante não seria esse escândalo todo. Mas a minha preocupação é que continuemos lutando por essa liberdade de imprensa, que foi conquistada e jamais poderá ser perdida. Mas, um pouco de equilíbrio e bom senso não faz mal a ninguém.
A moça fez exames e não acusou sequer um arranhão. A polícia vai investigar, e não tem chance de provar esse tal espancamento, simplesmente porque não aconteceu. A psiquiatria vai esclarecer que ela está em um período de crise. Um dos argumentos que ela alegou, para a suposta briga, foi um problema de herança, partilha de bens. Isso não pode ser realmente algo sério.
Bem, eu poderia falar sobre outras coisas aqui, mas não vou. Só queria mesmo sugerir a todos os amigos que possuem espaço e palco de comunicação que lembrem que não se pode “ouvir” uma acusação, ainda que fosse verdadeira, e transformá-la em verdade absoluta, pois, correrá o risco de cometer dois erros: reproduzir uma informação equivocada e depois ter que omitir a verdadeira. E claro, torcer para que essa nova informação não chegue aos seus leitores, ouvintes ou telespectadores.
Mas, independentemente dos equívocos, desejamos eternamente uma imprensa livre. E por fim, queria dizer que a irmã do Bill esta se recuperando bem, graças a deus reconheceu que precisa de tratamento.
Fica então uma humilde sugestão: antes de julgar, ouçam os dois lados, dai sim, podem tirar suas conclusões, pois entre o fato e a versão, reside a dignidade de um ser humano!
• Carta do MV Bill:
Caros amigos,
Gostaria de esclarecer os lamentáveis fatos que envolveram o meu nome e o de minha família, hoje, na imprensa. E salientar que a partir de amanhã (21/03) estarei disponível para falar pessoalmente sobre todos os fatos que relato a seguir:
Infelizmente, minha irmã sofre, já a alguns anos, de um grave problema de saúde. Não são raras crises psicológicas, que nos trazem, como família, grande preocupação e mal estar.
Ontem (segunda), no fim da manhã, fomos informados que essa nossa irmã estava sofrendo de uma dessas crises. Imediatamente, saímos, eu e minha outra irmã, Kamila, para socorrê-la e trazê-la de volta para casa, coisa que fizemos por volta de 11 horas. Saliento que os filhos dessa minha irmã enferma, de 10, 13 e 15 anos, moram comigo desde que nasceram, fato que me traz imensa satisfação.
Pois bem, em determinado momento do dia, precisei me ausentar (tive que levar minha sobrinha, filha dessa minha irmã, à UPA da Cidade de Deus) e ela aproveitou para sair novamente, à revelia, de nossa casa. De forma desequilibrada, ficou andando pela Cidade de Deus e, depois, foi à delegacia, contar o fato que nunca existiu, e que hoje permeiam as páginas da imprensa. Esse delírio foi confirmado por ela mesma, que depois de mais calma, voltou à mesma delegacia para desmentir (fato que pode ser confirmado pelas autoridades policiais, certamente).
Nesse instante, nossa família já estava desesperada, atrás novamente de seu paradeiro. Quando a localizamos junto com a mãe, e juntas retornaram a minha casa. Gostaria de dizer que eu e nem minha família estamos preocupados com a repercussão desse caso, que trata-se, nada mais, nada menos, que um drama familiar. Minha única preocupação, hoje, é com meus sobrinhos e com a plena recuperação da saúde de minha irmã. Estive hoje na delegacia para contar a versão verdadeira do caso. Me apresentei de forma espontânea, sem ser intimado. Fiz porque entendo ser importante esclarecer tudo o que aconteceu, inclusive para o bem dela. Quero, na verdade, pôr um ponto final nessa triste história.
Ainda hoje (dia 20/3) levarei minha irmã a um médico especializado para tratamento específico a sua enfermidade. Ela ter aceitado ir voluntariamente para nós já é uma grande vitória. Minha vida, como todos sabem, sempre foi um livro aberto, especialmente no que diz respeito a não-violência e pelo social. Mas demorei um pouco para escrever esta nota porque ela envolve um drama familiar e a exposição das crianças. A final minha irmã é dependente e muitas vezes incapaz, tanto assim que cuido desde o nascimento de todos os seus filhos. Não houve agressão alguma e ela esta agora com as crianças sob meus cuidados.
Compreendo quem, sem saber da verdade, acabou me julgando e, até, me condenando. Mas sugiro que todos saibam o que realmente aconteceu, que lembrem da minha trajetória, e que nunca, jamais, faria mal a uma pessoa, ainda mais minha irmã, que tanto amo e cuido. Entendam: ela precisa de tratamento.
Lamento ter esse tipo de exposição sem fundamento, mas que sirva de exemplo sobre os problemas que as famílias precisam enfrentar para cuidar dos parentes que precisam de amparo.
Forte abraço em todos,
MV Bill e família.
(*) Artigo puublicado pelo rapper Celso Athayde no portal de notícias Yahoo.



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