25/03/2012

O futebol e a política – Parte 5

Por Diego Pignones

Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S. Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S. Livorno (http://bit.ly/sjcuxS), Rayo Vallecano e o sentimento anti-franquista em relação ao Real Madrid (http://bit.ly/uY7hWK), a Babel nas arquibancadas e no bairro de St. Pauli (http://bit.ly/xY9D20) e sobre a Guerra das Malvinas e sua influência sobre o futebol (http://bit.ly/GTxckC), prossegue a viagem pelo outro lado da relação entre futebol e política.


Fechamos o texto anterior com a ascensão ao plano divino de Diego Maradona. Sim. Para os argentinos Maradona não é só maior que Pelé, é um Deus. A idolatria pelo Pibe de Oro e sua divinização passa por suas origens, por lances dentro de campos e pela política. 

Maradona tem suas origens no Fiorito (Villa Fiorito, subúrbio de Lomas de Zamorra). Trata-se de um lugar de gente muito humilde, marginalizado pelas autoridades argentinas e formado por descendentes de espanhóis e italianos. 

O talento de Maradona começou a despontar nos campinhos de chão batido e logo chamaram a atenção de clubes como Estrella Roja, Los Cebollitas até ingressar no Argentinos Juniors de onde saiu para jogar no Boca Juniors (esnobando uma oferta muito melhor do River Plate). O Club Atlético Boca Juniors sempre foi ligado aos imigrantes italianos (com forte identidade genovesa) e trabalhadores. Dieguito recusou o River Plate por se tratar de um clube com origens ligadas à elite e, ao aceitar jogar no Boca, Maradona optava por um clube popular e mais próximo de suas raízes. 
Nas quatro linhas é incontestável, El Pibe protagonizava lances mágicos que o levaram a ser ídolo na Europa e um deus, também, em Nápoli. 

O grande ato político de Diego Maradona, não podia ser diferente, foi dentro da cancha durante a Copa do Mundo de 1986. Inflamados pela mídia, o jogo entre argentinos e ingleses foi, inevitavelmente, impregnado pela Guerra das Malvinas (conflito terminado em 1982). 

Jogando “pelos argentinos mortos”, a Argentina abriu 2X0 no 1º tempo com 2 gols do Pibe. Gols que o imortalizaram no imaginário popular. O primeiro deles foi La Mano de Dios e o segundo nomeado como El gol Del siglo. 

A Mão de Deus foi interpretada como um ato de rebeldia política. Ao cometer uma infração às regras, não apontada pelo árbitro, Diego desestabilizava os ingleses. E com o Gol do Século (imortalizado na narração de Victor Hugo Morales), Maradona estufou o peito e arrancou do campo de defesa deixando os adversários para trás até marcar. Uma jogada mágica. 


“O gol de mão contra a Inglaterra foi como se eu tivesse roubado a carteira de um inglês”, Diego Maradona.


A Inglaterra descontou com Lineker, mas não adiantou. O placar final foi Argentina 2X1 Inglaterra. 

O craque de origem humilde que se recusou a jogar em um time elitista, roubou dos ingleses (com elegância) a dignidade que foi tirada da Argentina com a invasão pirata das Malvinas. Diego Maradona deixava de ser um craque e, por conta da política, acabava de virar um deus. Ou como os argentinos o chamam, El D10S (em uma união de Dios e do número utilizado por Maradona, o 10). 


Para reforçar o culto ao Pibe, um grupo de torcedores de Rosario fundaram a Iglesia Maradoniana. A religião conta com sacramentos e datas especiais. Sendo o Natal em 30 de outubro (nascimento de Diego) e a Páscoa em 22 de junho (data do gol com a Mão de Deus). 

Contudo, como Deus, craque e por suas posições políticas, Diego Maradona é classificado como politicamente incorreto. 


“Maradona se não fosse jogador de futebol, seria um revolucionário”, Emir Kusturica – cineasta sérvio.

O revolucionário Maradona possui argumentos e formação política desde sua origem por conviver com diversos problemas sociais e enxergar no cotidiano a luta de classes. Muitas de suas declarações consideradas bombásticas têm a simplicidade característica de quem enxerga o óbvio que ninguém vê. Em visita ao Vaticano, Diego Maradona manifestou em declaração a incoerência da chamada igreja dos pobres ter o teto cheio de ouro. 


Durante o processo de construção da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), Diego manifestou solidariedade a Chávez e ao processo de libertação da América Latina do imperialismo que reivindica o direito ao desenvolvimento ‘sem tutores’. El Pibe também chamou George W.(ar) Bush de assassino e lixo humano. E proclamou que os políticos que ofendem e criticam Fidel Castro, não chegam nem a sola de seus sapatos. 


Para os detratores da mídia tradicional, um deus não pode ser ‘politicamente incorreto’ (se é que eles são politicamente corretos) e enfatizam os problemas de Dieguito com as drogas e condenam suas amizades com Chávez, Fidel e Evo. Porém, a imprensa esquece-se do fato de que Maradona foi um dos poucos ídolos mundiais que foi a público falar sobre seu problema com a cocaína e a buscar reabilitação. 


“Maradona é um Sex Pistol do futebol”, Emir Kusturica – cineasta sérvio.

O esperado aconteceu, mas de modo improvável. 

Saiu um filme sobre o Pibe, porém ‘não-argentino’. E dirigido por Kusturica, o Maradona do cinema (literalmente). Os filmes do cineasta sérvio Emir Kusturica são caóticos, anárquicos e a trilha idem. A química entre o diretor e Diego é percebida pelo espectador, contudo, o motivo dela não aparece na película. 


O cineasta sérvio, tal qual Maradona, é um apaixonado por futebol e um rebelde. Kusturica já desafiou o militar Vojislav Seselj para um duelo. Vojislav é o cabeça de um movimento de extrema-direita da Sérvia. Emir Kusturica chegou às vias de fato com Nobojsa Pajkic, líder do movimento de direita Nova Sérvia durante um festival de cinema. 


Em 2005 o cineasta sérvio Emir Kusturica iniciou as filmagens de Maradona por Kusturica, um documentário biográfico de Diego Armando Maradona. Para quem espera lances majestosos e gols, a película será frustrante. O documentário abre espaço para a opinião de Maradona sobre o futebol, a Argentina, os Estados Unidos, Inglaterra e o mundo. Além de desvendar a personalidade de Dieguito, o grande mérito de Maradona por Kusturica é mostrar, de fato, cada Maradona: o ser humano Diego, o futebolista, o ídolo, o revolucionário, o Sex Pistol do futebol, o Maradona em reabilitação e o deus. 


Um dos pontos altos do filme é quando Maradona canta, em primeira pessoa, La Mano de Dios junto de suas filhas. A composição de Rodrigo Bueno (cantor argentino morto em um acidente de carro em 2000) que homenageia Diego pelos seus feitos e conta sua história. 


Falando em música o documentário tem ainda La Vida Tombola de Manu Chao, interpretada pelo próprio Manu em uma rua de Buenos Aires para um Maradona pego desprevenido com a surpreendente homenagem. Sem mencionar o clássico do punk rock ‘God Save The Queen’ que aparece no filme em animações alusivas ao gol do século, enquanto Maradona dribla personalidades da política inglesa e Bush. O filme é entremeado por cenas da Iglesia Maradoniana e seus sacramentos. 


O documentário também possui trechos de humor como na sequência onde Diego é levado de carro pelas ruas de Belgrado. 

O filme de Kusturica ilustra que a rebeldia e a política foram fundamentais no culto à Maradona e na sua ascensão ao plano divino. Além de evidenciar que o conflito com a Inglaterra e seus aliados ainda está latente. 

Contra o futebol moderno e América Latina unida! 

Y la pelota no se mancha!
 
Anotação na Margem:

- Los Piojos gravaram Marado em homenagem ao Pibe;
http://www.youtube.com/watch?v=Z4OzV_VzYJ4&feature=related

- Manu Chao gravou La Vida Tombola em homenagem a Maradona; http://www.youtube.com/watch?v=ZlSm-wMf2yk

- Ainda no Mano Negra, Manu Chao menciona a idolatria a Maradona em Santa Maradona; http://www.youtube.com/watch?v=3CUnwPgopIk

- Recomendo Underground – Mentiras de Guerra de Emir Kusturica;
http://www.youtube.com/watch?v=yDj4AIbQXjg

- Texto escrito ao som de La Argentinidad Al Palo da Bersuit Vergarabat.

Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones



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