07/03/2012

Para o PIB, quanto pior, melhor

Publicado em A Nova Economia

Quanto pior, melhor


Bem, a hipótese de pico no uso de recursos materiais em economias desenvolvidas abre uma oportunidade de contestações de grande interesse para uma Nova Economia.
A primeira delas é sobre o PIB já que este é usado para dizer que há diminuição no uso de recursos ao mesmo tempo em que ocorre crescimento econômico.
A todo momento somos informados de medições, estimativas e ações justificadas pelo PIB. A crise e a queda do PIB na Europa, por exemplo, levam a medidas as mais absurdas, dentre elas, o aumento na idade da aposentadoria. Quer dizer, num ambiente onde já grassa o desemprego, principalmente dos jovens, os gênios de plantão, apresentam como solução mais desgraça, tudo em nome das condições para que no futuro o PIB possa crescer.

Hoje, a meu ver, é simplesmente ridículo que se use tal indicador. Num mundo altamente sofisticado onde um simples automóvel dispõe de um painel com vários indicadores para uma condução segura e um avião comercial, muito mais, é incrível que a atividade econômica seja monitorada por apenas 1 indicador, e ainda por cima, errado, para tal fim, como se verá a seguir.
É claro que isto interessa a muitos pois deixam de entrar no mérito do que realmente interessa: bem estar, preservação ambiental e equidade social, mas, mesmo com a força que têm na manutenção do status quo, nem para aqueles a prática se sustentará.
E digo isto porque fica cada dia mais evidente que o indicador é totalmente falho para fins de avaliação de crescimento, o que dirá, do desenvolvimento econômico.
Veja só, o PIB mede quantidade, não qualidade. Aos olhos dele as coisas mais incríveis são bem vindas.
Neste ponto vale a pena recorrer a um belo artigo do Herman Dale “Wealth, Illth, and Net Welfare” publicado no blog do CASSE em 13 de novembro último, adaptado de um artigo publicado na revista “Resurgence” do mesmo mês.
“A contabilidade nacional mede apenas a atividade econômica. Esta não é separada em custos e benefícios. Tudo é somado ao GDP, nada é subtraído”.
“O lixo nuclear, as áreas mortas no Golfo do México, a perda da biodiversidade, a mudança climática pelo excesso de carbono na atmosfera, minas exauridas, solo erodido, poços secos, trabalho perigoso e exaustivo, transito, etc, não entram na contabilidade”.
Mas é pior. Em um completo “nonsense” o custo para contornar tais problemas entra na contabilidade. A limpeza da poluição, por exemplo entra como aumento do PIB. As doenças, um outro exemplo, em boa parte advindas da miséria humana e ambiental não são computadas mas o seu tratamento, sim. Quanto mais doença, melhor, do ponto de vista do PIB, principalmente em países que privilegiam a medicina privada.
E se já não bastasse isto, a depleção de capital natural como florestas, peixes, petróleo, carvão, minérios, etc, é contabilizada como renda. Chegamos quase ao máximo do contrassenso ao lembrar que a reposição de bens produzidos pelo homem, como a manutenção de estradas e pontes, entra na contabilidade, sem, é claro, sua contrapartida, a depreciação.
Para culminar, quanto mais se produz, mais difícil é obter recursos naturais, o que aumenta o PIB. A extração do petróleo, por exemplo, é cada vez mais difícil, o que faz com que cresça a participação dessa industria no PIB. Do ponto de vista do PIB o pré-sal é o “nirvana”. Pode?
Termino sugerindo que você, leitor, participe da pesquisa relacionada ao tema, no post que se segue.

Guerra e P…IB


Deixei de falar no post “Quanto pior, melhor” sobre dois outros absurdos do uso do PIB como indicador, propositalmente, para destacá-los agora.
Veja só. A guerra e a destruição, sofrimento e miséria que causa, do ponto de vista do PIB, são a glória. Produção acelerada, destruição do que é produzido e de seus alvos e a reconstrução do que foi destruído não poderiam encontrar melhor acolhida.
E o desperdício? Basta pensar o oposto. Diminuir o desperdício significa queda no PIB. Daí o horror ao uso racional e parcimonioso dos bens e serviços. E pensar que a usina de Belo Monte, por exemplo, poderia ser mais do que substituída pelo aumento da eficiência energética na geração, distribuição e consumo. O leitor encontrará no estudo elaborado, sob pressão, pelo próprio Ministério das Minas e Energia intitulado “Plano Nacional de Eficiência Energética” a informação de que é possível reduzir o gasto em pelo menos 10%. É claro, até o ano 2030, para não prejudicar os interesses vigentes.
Bem, vamos a outras contestações à tese do pico material. Tim Jackson, autor de “Prosperity without Growth – economics for a finite planet” apresenta em artigo no Guardian de 1º de novembro último “Peak stuff’ message is cold comfort – we need to embrace green technology” 3 argumentos que indicam que as conclusões da pesquisa analisada no post “Pico de recursos materiais?” não são aceitáveis.
Apesar de ser confortável, diz Jackson, acreditar que nós estejamos nos livrando da avidez por coisas materiais, a análise histórica mostra que qualquer declínio no consumo material do Reino Unido é no máximo muito pequeno, uns poucos centésimos ao longo de uma década. Em muitos casos, tais números são menores do que a margem de erro estatístico de sua medida. E quando você considera o aumento na intensidade de carbono nos produtos importados de parceiros como a China, tais possíveis benefícios desaparecem de vez.
E continua. Existem outras razões para ser cético em relação à rósea mensagem do pico material. Muito do crescimento econômico do Reino Unido nos anos do “boom” ocorreu pela expansão do setor financeiro que foi ou ilusória em termos de crescimento real ou apenas resultado da apropriação da renda dos mercados de commodities. Em outras palavras, o crescimento foi não apenas ecologicamente insustentável mas, diretamente responsável pela própria crise, e, ainda por cima, nos deixou mal equipados em relação à própria sustentabilidade financeira. De uma forma ou de outra, a extração e uso de mais recursos do exterior é a base de nosso estilo de vida. O modelo da economia globalizada permanece inalterado.
Finalmente, diz que o impacto na economia global não pode ser contestado: a extração global de recursos materiais está aumentando inexoravelmente em quase todas as categorias. A construção de infraestrutura pode ter caído no Reino Unido, mas a produção mundial de cimento até o ano anterior ao do início da crise financeira foi 125% superior ao nível de 1990. A extração de minério de ferro, 100%. E a bauxita, cobre e níquel aumentaram mais de 70%. A emissão de carbono aumentou em mais de 40%. As únicas commodities que sofreram redução (como os fosfatos) foram as que se tornaram escassas.


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