08/04/2012

A guitarra e o fuzil – Guerra Civil Espanhola e O Quinto Regimento

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Com a série de textos O Futebol e a Política, busco contextualizar a política ou episódios políticos dentro da cancha ou nas arquibancadas dos estádios.
Esta nova série fará a contextualização política, porém, através da música. Acredito que a música é um forte instrumento transformador e agregador. Por isso, pretendo apresentar músicas de lutas populares e tentar contar sua história e sua motivação.

A guitarra e o fuzil – Guerra Civil Espanhola e O Quinto Regimento
Os Precedentes e a Causa:
A derrubada da monarquia absolutista da Casa dos Bourbons por Napoleão Bonaparte, a abertura das cortes da cidade de Cádis e a proclamação da Constituição Liberal de 1812 marcam o desaparecimento do Antigo Regime espanhol.  Pode-se mencionar como um precedente o rápido crescimento da economia espanhola devido ao desempenho das indústrias mineradoras e metalúrgicas que lucraram durante a Primeira Guerra Mundial por fornecer material bélico para ambos os lados da disputa.
E esse crescimento industrial, fez com que o movimento operário também crescesse. O marco para o surgimento do movimento dos trabalhadores das indústrias foi a fundação da primeira sociedade operária em Barcelona. Que fez com que o movimento se espalhasse pelo país. Diante do cenário de queda da monarquia, despotismo esclarecido e liberais, o anarquismo se tornou uma tendência política amplamente difundida entre os trabalhadores. E os choques de classes se tornam frequentes e violentos.
Neste contexto surge a CNT (Confederación Nacional Del Trabajo), com influência anarcossindicalista.  A força da CNT e os choques entre classes despertaram o surgimento de uma oposição violenta, com o aparecimento de grupos de extermínio como o Sindicato Libre que tentava suprimir as organizações sindicais através do assassinato de seus principais militantes. Por outro lado, grupos de militantes sindicais formavam grupos, como o famoso Nosotros, que assassinava religiosos e industriais suspeitos de apoiar o Sindicato Libre.
As insurreições armadas, tanto de direita como de esquerda começam a ocorrer com regularidade.
No campo governamental, uma série de escândalos de corrupção forçou a renúncia do ditador Primo de Rivera, o imperador Afonso XII tentou restaurar o regime parlamentar e constitucional. Convocou-se eleições municipais embora os monarquistas tenham sido os vitoriosos, os republicanos obtiveram maioria nos grandes centros. Antevendo a possibilidade de uma guerra civil, o rei abdicou e foi proclamada a Segunda República
Com a proclamação da Segunda República foi formado um governo provisório chefiado por Niceto Alcalá-Zamora, que convocou eleições para a composição de uma Constituinte (que instituiu a separação entre Igreja e Estado). A declaração de laicidade do Estado foi o motivador da abdicação de Alcalá-Zamora.
Ao final do ano de 1931 ocorrem as eleições, onde a esquerda obtém a vitória. Niceto Alcalá-Zamora é eleito presidente da República e coloca Manuel Azaña como organizador do governo. No entanto, o novo governo pouco avança no campo das autonomias regionais e nas questões agrárias e trabalhistas.
Dando continuidade às reformas de laicidade do Estado, o governo Azaña dissolveu a Companhia de Jesus, porém preservando as demais ordens, com uma única condição: a proibição de dedicar-se ao ensino. Pressionado, de um lado, pela direita, conservadores e a Igreja (que encararam a laicidade do Estado de modo negativo), e de outro, pela esquerda e pelos anarquistas que consideravam as reformas insipientes.
Na metade de 1932, o militar monarquista General José Sanjurjo tentou dar um golpe (conhecido como La Sanjurjada), porém fracassou. Sanjurjo foi condenado a morte, mas, posteriormente, foi indultado e seguiu conspirando na cadeia.
Já, em 1933, a recusa dos anarquistas em apoiar os partidos da esquerda permitiu a vitória eleitoral da direita, na figura da Confederação Espanhola das Direitas Autônomas. Logo após as eleições desencadeiam-se por toda Espanha insurreições da esquerda. Obtendo sucesso apenas em Gijón, que foi dominada por operários por duas semanas. Como os militantes anarquistas foram presos aos milhares, os anarquistas decidem apoiar a esquerda nas eleições de 1936 na esperança de que o novo governo lhes conceda anistia. As eleições marcaram a vitória da Frente Popular que obteve a maioria das cadeiras no parlamento.
Em 1936, Alcalá Zamora foi destituído e Azaña assume a Presidência da II República, tendo com Primeiro Ministro o socialista Francisco Largo Caballero. Diante desse cenário, a direita então lança as bases para um golpe militar que se concretiza em 18 de julho sob a liderança de Franco desencadeando a Guerra Civil.
A resistência se forma.
Os combatentes:
- Forças Armadas da Segunda República;
- Viriatos (voluntários portugueses apoiados por Salazar);
- La Legión (força de elite do Exército de Terra Espanhol comandada por Franco);
- Requetés (soldados antiliberais e contrarrevolucionários que pretendiam a instalação de um ramo alternativo da Casa dos Bourbon no trono espanhol);
- Legião Condor (força de intervenção aérea enviada por Hitler);
- Corpo Truppe Volontarie (força de soldados enviados por Mussolini);
- Falange Española Tradicionalista (partido de ideologia fascista) e Espanha Nacionalista (autodenominação dos sublevados contra a Segunda República);
- Brigadas Internacionais (ideia surgida na Internacional Comunista, em 1936, criar uma força onde os estrangeiros se pudessem alistar e lutar na defesa da República);
- Partido Operário de Unificação Marxista (POUM);
- Partido Comunista de Espanha (PCE);
- Asociación Internacional de los Trabajadores (AIT);
- Confederação Nacional do Trabalho (CNT);
- Voluntários da cidade e do campo.
Percebe-se que a Guerra Civil Espanhola, além de microcosmo ou embrião, foi um ensaio para a Segunda Guerra Mundial quando analisam os combatentes.
Neste rol de países destaca-se Israel, mesmo sendo composto por judeus europeus, foi a primeira vez que os judeus puderam combater de frente o fascismo. Quando findou o conflito e estes combatentes voltaram para casa, foram perseguidos pela Alemanha nazista. E quando elencamos os países alistados nas Brigadas Internacionais, temos uma real dimensão do conflito: Abissínia, África do Sul, Albânia, Alemanha (antifascistas), Andorra, Argélia, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bulgária, Canadá, Chile, Cuba, Dinamarca, Equador, Estados Unidos, Estônia, Filipinas, Finlândia, França, Grécia, Guatemala, Haiti, Holanda, Honduras, Hungria, Índia, Indochina, Inglaterra, Irlanda, Islândia, Israel (judeus da diáspora), Itália (antifascistas), Iugoslávia, Jamaica, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, Marrocos, México, Mongólia, Montenegro, Nicarágua, Noruega, Paraguai, Peru, Polônia, Porto Rico, Portugal (anti-Salazar), República Dominicana, Romênia, San Marino, Síria, Suécia, Tanger, Tchecoslováquia, Turquestão, Turquia, Ucrânia, União Soviética, Uruguai e Venezuela.
O Quinto Regimento
Sua origem remonta as Milicias Antifascistas Obreras y Campesinas (MAOC), criadas pelo Partido Comunista espanhol para a proteção de dirigentes comunistas e socialistas. Quando Franco deu o golpe, as MAOC se dividiram em cinco batalhões para defender Madri. A quinta coluna se converteu no Quinto Regimiento de Milicias Populares.
O Quinto Regimento (Quinto Regimiento) foi o nome com que o Partido Comunista espanhol e as Juventudes Socialistas Unificadas popularizaram o instrumento de luta destinado a combater o fascismo. Sua fundação se deu no dia seguinte ao golpe de Franco (19 de julho) em um encontro das principais lideranças e contou com presença dos comandantes Carlos, Castro, Barbado, Heredia, alguns membros do Partido Comunista, Pasionaria, José Díaz y Francisco Antón. Logo o Quinto Regimento se tornava destaque, seja pela participação da Tomada do Quartel da Montanha em 20 de julho de 1936 e da ocupação do colégio-convento dos Salesianos como principal base de operações e de instrução e treinamento militar a trabalhadores e camponeses, ou por ter se tornando famoso por conta de sua formação militar de alto nível e da coesão de seus membros diante de um comando que não dava opção de questionar suas ordens.
Desde seu começo o Quinto Regimento foi popular, o povo, em seu certeiro instinto coletivo, o acolheu com amor e entusiasmo. A popularidade, a medida que se desenrolaram as ações bélicas, fez com que seu número de alistados subisse e chegasse a mais de 20.000 combatentes. A estrutura do Quinto Regimento serviu de exemplo e muitos de seus combatentes se tornaram lideranças nas primeiras Brigadas Mixtas(Juan Guilloto León “Modesto”, Enrique Líster, Valentín González “El Campesino” e Etelvino Vega Martinez). Além disso, o Quinto Regimento influenciou a formação do Exército Popular Republicano e deixou de existir em 22 de janeiro de 1937, quando Vittorio Vidali, um dos comandantes declarou: “¡El Quinto Regimiento ha muerto! ¡Viva el Ejército popular!“.


Porém, o regimento não foi somente um organismo militar, suas ações foram estendidas a outras áreas. Desempenhando uma importante atuação sócio-cultural, o Quinto Regimento impulsionou o desenvolvimento da educação e da cultura entre as classes mais baixas e foi responsável por combater o analfabetismo através do uso de cartilhas, murais, bibliotecas itinerante e as “guerrillas teatrales“. No Quinto Regimento estiveram alistados poetas, escritores, pintores, engenheiros, arquitetos, médicos e professores. Ainda que essencialmente comunista, se alistaram defensores da república de diversas ideologias, inclusive militares leais à República.


Os soldados podiam escolher sargentos e oficiais, mas não podiam discutir ordens e deveriam acatá-las sem quaisquer questionamentos. Sua organização, coesão e disciplina o transformaram em um grupamento de elite e lhes dedicaram algumas canções folclóricas que exaltam seus feitos e destacam sua importância.


O Quinto Regimento foi imortalizado pela canção popular “El Quinto Regimiento” e em “Viva la Quinta Brigada” (versão baseada em ”El Paso del Ebro”), seja na voz de Rolando Alarcón, Lila Downs ou na versão que mistura punk rock e ska dos italianos da Banda Bassotti,  fica impresso para a eternidade e para os jovens das gerações futuras a história deste organismo puramente popular e libertário.


O Legado:
O Quinto Regimento deixa como legado o ideal libertário, a fraternidade, a solidariedade entre os povos e o anseio ainda vivo pela Terceira República. Na música, outras canções, outros cantantes e outras bandas de rock regravaram músicas populares levando para outros povos os ideais deste período. Destacando-se Banda Bassotti, Boikot, Canallas, Dr. Calypso, Extremoduro, Reincidentes, Ska-P…
Novas músicas de contestação surgem, são gravadas e são levadas para as ruas e esta nova série de textos vem para contar a história e a inspiração destas músicas, sejam dos originais ou das inéditas.


Somente o espírito coletivo pode escrever com sangue “¡No pasarán!” nas ruas de Madrid e espalhar a ideia de uma república popular por toda Espanha.
¡Viva o Quinto Regimento!
¡Viva o combat rock!



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