24/04/2012

O futebol e a política – Parte 6

Estádio de futebol no Chile
Por Diego Pignones
Após abordar o ‘Clássico Político’ entre A.S. Livorno X Lazio e o ‘Amistoso Socialista’ entre Adana Demirspor X A.S. Livorno (http://bit.ly/sjcuxS), Rayo Vallecano e o sentimento anti-franquista em relação ao Real Madrid (http://bit.ly/uY7hWK), a Babel nas arquibancadas e no bairro de St. Pauli (http://bit.ly/xY9D20) e sobre a Guerra das Malvinas e sua influência sobre o futebol (http://bit.ly/GTxckC e http://bit.ly/HAEVVM), prossegue a viagem pelo outro lado da relação entre futebol e política.

Reinoso dá a saída para Chamaco Valdés, que rola para Caszely. Ele passa para Crisosto e a tabela continua até a área, onde Valdés chuta de bico. Goooool.
Valdés estufa as redes no Estádio Nacional do Chile!
A torcida chilena e o país inteiro rasgam a garganta em um só grito de gol!
O gol da classificação do Chile para a Copa de 1974!
Seria um belo lance ou uma clássica locução do rádio, se não fosse uma rasteira propaganda pinochetista.
Voltemos um pouco no tempo.
Allende
11 de setembro de 1973, o médico marxista Salvador Allende, que havia sido eleito democraticamente, é derrubado do poder pelo general golpista Augusto Pinochet. O golpe militar desencadeia 17 anos de uma ditadura sanguinária financiada com dólares de Washington e pela iniciativa privada e com inúmeros casos de violações dos direitos humanos.


A ditadura transformou os complexos desportivos e estádios em campos de prisioneiros, os mais famosos foram o Estádio Nacional e o Estádio Chile. No Estádio Nacional do Chile os prisioneiros eram separados conforme os sexo e presos em seis camarotes, os interrogatórios eram conduzidos no velódromo e as execuções eram conduzidas no círculo central do gramado.


Vitor Jara
O Estádio Chile teve suas instalações utilizadas como centro de detenção e torturas no dia seguinte ao golpe, em 12 de setembro de 1973 quando foram transferidos 600 prisioneiros políticos oriundos da Universidad Técnica del Estado. Dentre eles o cantor Vitor Jara que foi submetido a longas e duras seções de torturas conduzidas pelo exército chileno antes de ser fuzilado.
O cenário social do Chile estava em franca ebulição.


Pinochet
Prisões, torturas, execuções, sangue, bombardeio de La Moneda, censura, resistência, guerrilha urbana, expropriações e mortes.
No meio disto tudo, a disputa de uma vaga para a Copa do Mundo de 1974 na repescagem entre um sul-americano (Chile) e um europeu (União Soviética). O palco do jogo era o Estádio Nacional. O primeiro jogo em Moscou acabou em 0X0, a vaga seria decidida de fato em Santiago.
Os rumores de um eventual boicote soviético ao jogo aumentavam com o passar dos dias. Os soviéticos se ofereceram para disputar a partida em um campo neutro, mas a FIFA recusou a oferta.
Estava armado o imbróglio diplomático.
Até que veio a definição, por meio da Agência Estatal de Notícias, o governo soviético informou: “Por considerações morais, os esportistas soviéticos não podem jogar nesse momento no estádio de Santiago, salpicado de sangue de patriotas chilenos”.

Foto dos presos chilenos no estádio de futebol
Por via das dúvidas os chilenos mantiveram a venda de ingressos para o jogo. Os prisioneiros continuaram no estádio, mas foram transferidos para setores mais escondidos.
Realmente, a União Soviética não apareceu. E é aí que voltamos para o começo do texto.
A ditadura de Pinochet pôs em curso um patético episódio de propaganda.
A seleção chilena entrou em campo, o placar registrava: Chile 0 União Soviética 0.
Após a saída de campo e trinta segundos de passes, o Chile marca o gol da classificação.
Em um jogo sem adversário e em uma meta sem arqueiro.


Naquele dia não foi só propaganda. A Federação Chilena convidou o Santos para fazer um amistoso contra o Chile como um plano B.
Então, depois de toda a encenação o Santos entrou em campo.
Do jogo pouco se sabe e os registros são escassos. Em campo, o Santos goleou o Chile por 5 a 0.
Apesar do placar elástico, a imprensa verde e amarela deu pouca cobertura ao jogo. Pois, nesta época, o Brasil estava sob o governo Médici e ditadura militar estava em seu apogeu na repressão aos direitos civis.
Somente um louco sádico como Pinochet seria capaz de realizar uma partida internacional no mesmo local onde tantos foram executados e outros ainda cativos, mas, longe dos olhos e ouvidos do público.
Esse é o padrão FIFA de futebol.
Anotação na Margem:
- A Comissão da Verdade e da Reconciliação e o Estado chileno reconhecem que Jara foi fuzilado em 16 de setembro de 1973 no Estádio Chile e seu corpo fora desovado em um matagal de uma favela próxima da Estrada Sul;
- Existia uma controvérsia quanto às torturas sofridas por Vitor Jara antes do assassinato a tiros, como parte do castigo pelo seu trabalho de conscientização social e mobilização dos menos favorecidos, Jara teria tido suas mãos decepadas pelos militares. Mas, em exumação realizada em junho de 2009, ficou confirmado que Vitor teve as mãos esmagadas por coronhadas;
- Em entrevista para a televisão chilena, o ex-atacante Carlos Caszely, presente àquela partida, declarou: “Ficou-se discutindo quem faria o gol de honra. Que gol de honra? Foi uma coisa absurda”;
- Em setembro de 2003, para marcar os trinta anos do assassinato de Jara, o Estádio Chile foi rebatizado como Estádio Victor Jara;
- Recomendo A Batalha do Chile;
- Recomendo The War on Democracy;
Diego Pignones
Publicitário e pesquisador em Comunicação Social.
Twitter: @diegopignones


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