06/05/2012

OcupaRio: 12 de maio no Méier, Rio de Janeiro


No Quadrado dos Loucos

Durante 42 dias do ano passado, a acampada da Cinelândia criou um cronótopo deste ciclo global de lutas, — do devir-Sul do mundo exprimido pelas revoluções árabes, a Praça Tahrir, o 15-M de 2011 e o movimento Occupy. Um êxodo geracional que recombinou fluxos e reuniu todas as idades e realidades, desordenando as coações representativas, identitárias e proprietárias da ordem posta. Pequenos-burgueses e macunaímas, acadêmicos e saltimbancos, o evento tocou a todos e para sempre. Numa sucessão de oficinas, debates, festas, cirandas, performances e tudo que se pôde fazer, a OcupaRio foi um microevento. Um marco singular em meio à eloquência dos megaeventos; um oásis de vivência radical e composição monstruosa, nas frinchas da monocultura do brasileiro desenvolvido.

Removida pelo choque de ordem carioca no final de novembro, a ocupação adotou um estado gasoso. O gênio saiu da garrafa e se volatilizou por outros lugares: Circo Voador, MAM, IFCS, passou a se articular com outros movimentos. No escopo do chamado mundial do 12 de maio (12M), a OcupaRio migrou para a zona norte. Assim, pretende sair dos impasses neuróticos e paranoias da ordem, e revitalizar-se com outra galera. Na cidade do Rio de Janeiro, o sul está no norte. O intento é procurar diretamente os bairros e seus territórios produtivos. NaPraça Agripino Grieco, do bairro do Méier, no próximo sábado, serão realizadas atividades de hip hop, teatro de rua, cinema, poesia, debate, performance, prosa, skate, heavy metal, goiabada e outro mundo. Vão participar grupos ligados a diversas agendas políticas: antimanicomial, feminista, cultura digital, dia do basta, moradia e transporte público, marcha das vadias, antipsiquiátrico, antijornalístico, blogosfera bárbara, entre outros. Não se exige inscrição: é só chegar, a partir das 14:00 (mais detalhes aqui).

Talvez a grande diferença entre as atividades do Occupy e OcupaRio, em relação a movimentos sociais mais tradicionais e orgânicos, esteja na despreocupação com estruturas e pautas muito definidas. Sua força consiste na tentativa de alquimia antropológica, de um do in, que repete as propostas da contracultura sessentoitista e do tropicalismo brasileiro. Põe em movimento uma antropologia simétrica que antes elabora corporalmente pontos de vista e perspectivas, em vez de apresentar um mundo fechado, que caberia ao poder constituído reconhecer e lhe conceder direitos. Isso causa muita incompreensão da parte de militantes menos ousados, de modo que alguns movimentos sociais tendem a olhar de cima, com certo ar de superioridade, arrogante ou condescendente. Mas a organização da revolta, isto é, da vontade de viver e dos tumultos, também passa pelo agenciamento corporal, pelo trânsito entre estados de existência. Simplesmente viver, sem se conformar, já é reexistência sincrética ante as capturas e anestesias cotidianas.

Já dizia Gláuber, contra a cabeça do colonizado, só a macumba brasileira.

Diante de um governo imerso num sono dogmático e de uma esquerda sem imaginação e samaritana, a OcupaRio se coloca como plataforma alternativa para a atuação de quem deseja viver a pólis. E viver intensamente a fantasia de seu tempo histórico. É pegar por trás os movimentos existentes e gerar monstros, na via dolorosa do prazer. Eis a inadiável cópula antinatural dos povos, em que meio ambiente e cultura se dobram e redobram, uma ecologia antropofágica onde todos podemos ser índios. É colocar-se na pele da geração e viver a pele, — essa franja que nos faz ser e ousar ser. Se o inimigo da revolução é o Sistema, essa inimizade reside no fato que Ele não nos deixa viver tudo o que podemos. Daí o imperativo desejante de jamais deixar-se pensar pelos limites, pelo que nos constrange e bloqueia. Uma recusa a pensar e pensar-se nos limites da representação, do inconsciente, do planeta ou do capital: simultaneamente antiestatal, anti-Édipo, anti-Gaia e anticapitalista, no limiar absoluto onde a esquizofrenia da Terra confina com o comunismo. Trata-se do que podemos e queremos. Do que seremos.
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Vídeo-chamada glauberiana por Ricardo Gomes:

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