24/05/2012

Quando os discursos se tornaram 'meme' pela lógica do espetáculo


Para quem não sabe, meme é uma informação que se multiplica de uma mente para outra. Na internet se transformou quase em sinônimo de viral: algo que se espalha rapidamente. Mas tem uma diferença, o meme tem seu significado alterado geralmente para fazer humor, enquanto o viral não altera seu sentido, mas se espalha como fosse um vírus. Pode ser uma imagem, como Rage Faces, um bordão como "Todas chora" ou até mesmo um vídeo como "Para nossa alegria", que de viral se tornou meme.

Cada vez mais, parece que os discursos da massa para a massa (ou autocomunicação das massas, como disse Castells), se tornaram majoritariamente memes, com um detalhe importante: todos alinhados pela lógica do espetáculo, da exposição pela exposição, sem ética e sem estética. Perdemos todo e qualquer bom senso humano, coletivo e social. O grande lance é fazer, flagrar ou compartilhar algo que seja inusitado, não importando as consequências desta ação ou exposição. Em nosso mundo, ganha notoriedade aquilo ou aquele que se expõe.


Alguém (não me lembro quem), definiu humor como a quebra da linha da normalidade. Normal é William Bonner apresentar o Jornal Nacional todas as noites vestido de terno. Humor seria ele apresentar, num dia qualquer, o jornal vestido de mulher, por exemplo. Esta quebra da linha da normalidade é o que orienta a grande maioria dos vídeos mais vistos no Youtube, que se transformam em memes, em piadas rápidas e assim por diante.

Claro que, não raro, o humor tem limite estreito com o bizarro, o desumano, o humilhante. Principalmente porque cada vez menos nos preocupamos em pesquisar e saber mais sobre o que estamos falando. O mundo caminha na velocidade da luz (ainda que tenha dificuldades de dar um passo real), e o espetáculo é a linha que nos guia. Temos que ser o primeiro a exibir, publicar e compartilhar e temos que fazer isso em tempo recorde, pois logo o assunto morre, o meme perde a graça, o assunto sai do contexto e a exposição não será compreendida, portanto, não terá visibilidade.

Nesse sentido é que a exposição discursiva da Xuxa, num programa do Fantástico, se tornou objeto das mais acéfalas análises, repletas de quebras da normalidade, mas principalmente, inusitadas o suficiente para ganhar visibilidade. Os artigos sobre os abusos que a rainha dos baixinhos sofreu estão espalhados pela internet. Raros foram os que levaram a questão distante do simples espetáculo, ainda que envolva uma celebridade. Se a Xuxa fosse a filha de um dos articulistas, por exemplo, será que estes manteriam a mesma opinião? Pedofilia tornou-se assunto banal só por que ocorreu com ela ou por que o desabafo veio décadas depois?

Outro caso recente que ganhou as mídias sociais foi o da repórter Mirella Cunha que fez inúmeros deboches de um assaltante confesso e preso, algemado e suposto estuprador. Ela chega a comentar que o vídeo iria parar na internet, durante a gravação. Por este comentário podemos imaginar qual a linha que guiava o espetáculo estúpido que ela protagonizava: o da exposição viral, banal e fútil.

A gente parece ter se esquecido que por trás de um político, uma celebridade ou seja lá quem for, existe um ser humano, uma família e uma história de vida. Lutar para que o Senador Demóstenes Torres seja cassado pelos crimes dos quais está sendo acusado e investigado é um dever de toda a sociedade, mas espalhar, por exemplo, que Dilma é assassina, terrorista, lésbica, etc (como aconteceu nas eleições), nada tem a ver com a política e fere nossa humanidade. A minha e a sua também, seja você da direita ou da esquerda.

Quando nossos discursos todos se transformarem em meme, nós seremos apenas idiotas, compartilhando toda espécie de barbaridade e buscando exposição midiática a qualquer preço. Se vivemos em uma Idade Mídia, não se faz necessário tornar-se inquisidor de outros indivíduos, queimando seus elementos humanos nas fogueiras midiáticas. Podemos retomar a poesia perdida em nossos discursos e fazer dos quesitos humanidade e respeito um meme amplamente compartilhado, numa ação coletiva de catarse das tragédias que naturalmente já envolvem nossas vidas.

2 comentários:

  1. Muito obrigado. (Mas na próxima, deixe seu nome para eu saber quem é... rs). Mas muito obrigado. Volte sempre.

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