Um conto contemporâneo qualquer...

O mundo no qual vivemos é enlouquecedor. O ser humano, que se destaca dentre outros animais pela habilidade de comunicar ideias e pensament...

O mundo no qual vivemos é enlouquecedor. O ser humano, que se destaca dentre outros animais pela habilidade de comunicar ideias e pensamentos e sentimentos abstratos e complexos, vive numa tempestade comunicacional. Nas paredes da cidade, nos carros, no chão, no arranha-céu, em todos os lugares há uma mensagem, um pedido, um alerta, uma ordem. Além da poluição visual, existe também esse grande remix de barulhos agradáveis e grotescos e confusos que flutua pelas cidades, entupindo nossos ouvidos. É o som do carro, da buzina, do grito, da fala, dos cães. E mesmo quando se está distante de tudo, num quarto calmo e silencioso, em tempos de férias e tranquilidade, seu próprio cérebro lhe trai, produzindo pensamentos inúteis na velocidade do som, sem sequer concluir qualquer um deles.


Em meio a esta imensa loucura vivemos nós, estranhamente soberbos e imersos no EU. Todo mundo isolado em seu próprio ser, pendurado em um pretenso "instinto de sobrevivência" e afogando-se no EU. Então começo a reparar nos discursos, orais ou escritos, mais exatamente sobre a incidência dos pronomes pessoais. Discursos profissionais, pessoais, sentimentais, familiares, banais. Todos majoritariamente repletos de EU, com exceção dos banais, cômicos e maledicentes, nos quais o TU e o ELE costumam imperar.


O mundo não se cala nunca. Nosso cérebro não se cala nunca e nossa boca não se cansa do EU. Neste ambiente propício ao caos, quase todo copo de água se transforma num tsunami verborrágico. Nos modernos tempos da comunicação online, parece que toda urgência ficou ainda mais urgente e o que nem tinha pressa também. Por qual motivo? EU não sei dizer. TU sabes?

Neste ritmo ensandecido de nem sei o quê, desejamos chegar em casa e os fins de semana, com certa constância. E mesmo no caminho de casa, dentro do ônibus lotado, ao olhar pela janela e ver um homem dormindo sobre um papelão imundo, com o corpo encolhido, respondemos a uma pergunta que nunca foi feita:  EU faço o que EU posso por MIM. EU tenho os MEUS para sustentar. Que Deus TE ajude, MEU irmão.

Ao colocar os pés dentro da sala de nossa amada casa, vez em quando ouvimos um vizinho a brigar: EU estou cansado pra cacete desse vizinho. Tiramos a roupa, tomamos um banho, ligamos a televisão e a criançada a brincar na rua e as motos com escapamento aberto fazem muito barulho: EU nem posso mais ouvir a tv na MINHA própria casa? Mas sempre há um dia no qual, após tudo isso, após toda essa ladainha cotidiana e repetitiva, um parente próximo liga para seu telefone lhe contando que o filho DELE está muito doente, correndo o risco de morrer. 

Neste exato instante é que o mundo enlouquecedor, que fala demais, o cérebro tagarela e todos os EUs vão para o espaço, num lugar onde a soberba não faz a menor diferença, porque a única coisa que parece nos fazer iguais é a vida e a morte. O silêncio se instala mesmo imerso numa gigante tempestade comunicacional.

O chefe soberbo já não importa. O colega soberbo da mesa ao lado não importa. O soberbo motorista do ônibus não interessa. O vizinho que transborda soberba não interessa. Neste momento, diante da possibilidade da morte, é que a vida se faz latente, o EU se torna impotente e os NÓS aparecem na história para segurar as mãos alheias e dizer: EU acredito na vida, EU acredito em milagres, no indizível, no inexplicável. EU acredito em NOSSA força.

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