26/07/2012

Imprensa não engole o Brasil


Filas, bagunça, desinformação, congestionamentos monstruosos, preços inadmissíveis, ameaças de greve e protestos, superfaturamento e ilegalidades múltiplas, brutalidade policial, grosseria de funcionários. Nada mobiliza o senso crítico do jornalismo brasileiro, incapaz de cobrir os Jogos Olímpicos britânicos sob os mesmos rigores que reserva aos eventos brasileiros.

Intempéries que no Rio de Janeiro (ou numa capital administrada por petistas) seriam chamadas de “apagão”, “caos”, “colapso” e outros substantivos marcantes de uso oportuno, na ilha viraram percalços menores, compreensíveis, talvez mesmo causados pelas hordas incivilizadas que teimam em poluir terras tão soberbas com seu terceiro-mundismo feio.

Agora descobrimos que até a prerrogativa muito básica e individual de escolher as próprias vestes será violada pela patrulha a serviço dos conglomerados financeiros que monopolizam a festa. Estão proibidas mensagens políticas, nacionais e comerciais que desagradem os patrocinadores dos Jogos. As empresas decidem que roupas os espectadores usarão. Não pode vestir camiseta com a foto do Che Guevara. Mas e a do palhaço Bozo, pode? A da rainha chupando sorvete?

Os bravos comentaristas tupiniquins, embasbacados com toda aquela (falsa) assepsia construída a porrete, acham pouco e bom. Seu comportamento apenas em parte é fruto do fascínio típico dos turistas festivos – bastante fiel, aliás, ao provincianismo que caracteriza a análise esportiva das capitais. A fantasia da superioridade gringa, aliada à do nosso fracasso inexorável, segue também motivações menos lisonjeiras: trata-se de uma espécie de vingança despeitada contra a realização dos Jogos e da Copa no Brasil, vitórias políticas de Lula (e do país) que a imprensa oposicionista jamais engoliu.

Entre o ufanismo tolo e a autodepreciação jeca, talvez sobre algum espaço para a simples fruição do espetáculo.

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